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SELO: O suicídio liberta o fenómeno e condena a vontade – Por Rabim Chiria

Até então, as notícias que nos chegam revelam que Moçambique comanda na tabela classificativa, no campeonato de auto-envenenamento e auto-enforcamento, quase em todas províncias do país. E questiono por que é que as pessoas optam pelo suicídio? Como se explica que o comportamento suicida manifeste com frequência no seio dos moçambicanos? Se a causa for o sofrimento, será que o povo moçambicano é mais sofredor do que outros povos? Se for uma questão financeira, será que os moçambicanos são tão carenciados financeiramente até chegar a ponto de tirar a própria a vida? Se for falta de educação sobre o valor da vida, Será que os moçambicanos são tão analfabetos que não possam reconhecer o valor da vida. Essas são mais ou menos algumas questões que me apoquentam dia a pois adia.

Mas, segundo as minhas pequenas investigações, cheguei a conclusão de que o campeão é motivado pela afirmação da última questão: falta de educação sobre o valor da vida. Pois, há uma necessidade de fazer entender o moçambicano que a vida é útil em si, conservar cada um a sua vida é um dever, a utilidade da vida não está nas condições em que ela se encontra.

Alias, já dizia Descartes que a vida sempre oferece mais bens do que males (já que a vida é o suporte básico de todos bens, sem a qual, nenhum bem existe). Neste contexto, todos bens são incertos, inclusive a felicidade é incerta, salvo a vida que é o único bem certo e concreto. E, se tira a sua vida em nome duma liberdade futura está cometer uma injustiça contra si mesmo, portanto, isto não passa duma irracionalidade.

E, por que digo que cometer o suicídio é libertar o fenómeno e condenar a vontade? Como afirma Schopenhauer, a existência da vontade (vida) não é dependente da temporalidade, especialidade ou casualidade. E quanto o fenómeno (corpo), já é diferente, pois este não é livre como a vontade é preso ao tempo, ao espaço e à causalidade. No entanto, a vontade como a coisa em si não pode ser alçada pela morte, visto que ela não nasce e, não morre, pois, nascer, crescer e morrer são características do fenómeno e não da vontade. Desta forma, a vontade é caracterizada como a própria vida. Enquanto a vontade existir a vida também existirá, pois a vontade é a vida.

Neste contexto, quando você aniquila o fenómeno, não está aniquilando a vontade (vida). Porém, é uma ilusão cometer o suicídio como forma de se livrar da vida ou do sofrimento. O que sucumbe é o fenómeno na sua individualidade e, não a vida em si, que seria a vontade. Neste âmbito, a vontade (vida) é certa e concreta e, o sofrimento é sua essência. Isto significa que, onde há vida, também há sofrimento, e, a vida é a vontade, a vontade é indestrutível. Logo o sofrimento é indestrutível porque este é a essência da vida. Veja só a ilusão infantil que o suicida comete!

Não é pela morte que uma pessoa pode se livrar do sofrimento ou qualquer perturbação do espírito, mas sim, pelo conhecimento. O que elimina o sofrimento, na pessoa é o conhecimento. Isto quer dizer que a vontade e sofrimento, não podem ser aniquilados por nada senão o conhecimento. E, nesta linha de pensamento, Shopenhauer afirma que não existe violência capaz de aniquilar a vontade. O caminho eficaz para se livrar do sofrimento, inicia-se com um conhecer a si próprio, ou seja, uma actividade inicialmente de reflexão sobre a nossa essência. Ora, tomando a consciência da nossa essência, já podemos ser capazes de não nos exigirmos demais de nós mesmo, já podemos reconhecer que algumas rotinas diárias que nos fazem ter sensação de invalidez e inutilidade transcendem as nossas potencialidades, sobretudo, as nossas capacidades mentais e físicas, e não só, já podemos eliminar os desejos de alcançar os prazeres, visto que, esses primeiros são líquidos porque fluem e, essa última é incerta e quase impossível.

No entanto, quando você destrói o fenómeno está destruindo ao mesmo tempo a consciência que se faz necessária para alcançar a liberdade e a tranquilidade da vida que tanto deseja ter. Por mais que a vontade (vida) permaneça activa, ela não tem potencialidade de desempenhar o papel do fenómeno, porque as faculdades de (conhecer, pensar, imaginar, compreender) são entidades do fenómeno (corpo) e não da vontade. Neste contexto, quando aniquila o fenómeno, a vontade continua, mas sem capacidade de sentir, conhecer, pensar, imaginar e compreender, ou seja, a vontade continua, mas sem capacidade de resolver problemas.

Nesta óptica de pensamento, o suicídio seria um acto de liberdade que priva outras liberdades futuras, como diria Sartre. Pois, é uma negação da sua essência por não conhece-la por falta de conhecimento. É uma falta de resistência ao ódio que sente para si mesmo. Porém, Satre acrescenta que, o ódio – próprio é irracional e absurdo. E, seria um fracasso ao meu lado encerar este debate sem homenagear Santo Gostinho que encara o suicídio como um fracasso de coragem. O suicida engana-se, ele pensa que morrer é a melhor saída para se livrar do sofrimento, pois, não sabe que a melhor saída é conhecimento e, o reconhecimento de que a vida é o único bem concreto do homem e, nesse bem tem o sofrimento que pode ser combatido pela descoberta de si mesmo.

Esta é a mensagem que trago aos moçambicanos. Uma mensagem encarnada aos grandes mestres espirituais. É na vida e pelo conhecimento que podemos alcançar o que tanto almejamos. A morte só atrapalha os nossos sonhos, porque estes ficam pendentes eternamente na vontade, uma vez que só seriam realizados na presença do fenómeno.

Por Rabim Chiria

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