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SELO: Mahamudo Amurane: Uma ameaça ao sistema? – Por Raúl Barata

Várias são as reacções em torno das motivações que levaram à morte de Mahamudo Amurane e enquanto não se esclarecer à luz da legalidade continuaremos nas escuras. Há quem diga que Amurane era um homem de negócios fora da sua principiante vida política, e as motivações da sua morte poderiam ser ali encontradas.

No entanto, os últimos acontecimentos na vida daquele político criam mais suspeitas e colocam mais probabilidade de o seu assassinato ter sido perpetrado com o intuito de criar vantagens políticas para quem encomendou este acto hediondo e cobarde. Existem grandes probabilidades de a morte do então edil da cidade de Nampula ter fortes motivações políticas.

Mahamudo Amurane transformou-se em poucos anos, saindo da posição de um político com pouca expressão, sem qualquer antecedente de relevo na vida política nacional, para um líder carismático, com forte personalidade, mobilizador de massas, força motriz rumo ao crescimento da urbe que dirigia, e sobretudo, Amurane foi uma figura que fazia sonhar e transpirava esperança sobre o povo da cidade de Nampula.

Os seus discursos rompiam completamente com os de outras partes e cores políticas. Era fácil identificar-se com os seus ideias de justiça, equidade, liberdade, combate a corrupção, combate a política de estômago, nepotismo, clientelismo, etc. Em outras palavras, Amurane trouxe em pouco tempo, três anos e meio para ser preciso, aquilo que o povo não sentia há quase uma década. Sem dúvidas era um indivíduo diferenciado. Fazia política da maneira mais nua e crua, há quem diga que o fazia com certa ingenuidade, sempre ao serviço do povo. Vivia para a política.

Amurane não era apenas um homem de palavras. Transformou os seus discursos pró-povo em prática.

Mahamudo Amurane conseguiu colocar o povo à frente e ao mesmo tempo a sua trás, dando-lhe o apoio necessário para continuar com as suas obras. Já começava a criar um forte capital social e político para prosseguir na cena política por muitos anos, como ele mesmo a dada altura referiu e cito: “…eu espero continuar na política por mais 50 anos, contribuindo para o bem-estar das nossas comunidades em Moçambique, independentemente de qual for o partido…”

O desligar conflituoso com o partido que o lançou como actor político serviu para Amurane construir sua própria imagem e seguir em frente na política, independente de estar ou não afiliado a um partido. Para as eleições autárquicas do próximo ano, houve indícios de uma possível candidatura independente por este levada à cabo, ou aliado a um partido diferente das três outras forças sobejamente conhecidas.

Num contexto moçambicano de partido dominante e onde poucos são os grupos de interesse, ou partidos políticos que digladiam para chegar ao poder, poderia Mahamudo Amurane constituir-se uma ameaça ao sistema ou governo do dia colocando em causa o poder de outras forças políticas?

Amurane reconhecia o impacto positivo que tinha sobre o povo de Nampula. Conhecia as suas capacidades e já havia mobilizado uma massa considerável para poder continuar forte. A criação de um novo partido permitia-lhe criar fortes bases, com ideais próprios com simpatizantes e membros que se identificavam cada vez mais que Amurane dava a cara. Em ciência política não se pode prever o resultado de uma eleição, apenas explicá-lo, mas arriscamo-nos a dizer que Amurane era dado como vencedor certo para as próximas eleições a nível da sua autarquia, dadas as possíveis intenções de voto do povo daquela cidade.

Para além da conquista do eleitorado, sobretudo o eleitorado mais jovem, para as eleições autárquicas de 2018, Amurane poderia futuramente, com a possível criação do seu próprio partido, tornar-se numa força alternativa completamente diferente das outras em termos de ideais e de discurso político colocado em prática. Este cenário abriria as portas para ele atacar as eleições gerais e legislativas de 2019 e transformar os seus votos em alguns assentos na Assembleia da República, dado o suposto “fracasso” do MDM neste quesito nas eleições de 2009, onde este terá possivelmente decepcionado o povo moçambicano, pois esperava-se que o partido de Daviz Simango se tornasse na segunda força política nacional conquistando maior número de assentos do que os que conquistou.

Para um indivíduo como Amurane este cenário não seria impossível, tendo em conta que este criou uma dialéctica diferenciada e trouxe uma nova dinâmica no cenário político moçambicano, mudando o rumo dos acontecimentos que vinha sendo o mesmo há vários anos por parte dos políticos nacionais.

Num possível cenário de descentralização política, que está a ser discutida nas esguelhas pelos dois principais partidos, onde provavelmente se aprovaria a lei que elege os governadores provinciais, podia-se imaginar Amurane como um dos possíveis candidatos visto que até lá já teria capital político e social suficientes para disputar com candidatos de outros partidos políticos.

Amurane era politicamente correcto, e o seu discurso contagiante era a sua principal arma e esta incomodava e criava obstáculos para os politicamente incorrectos. Imaginar uma força alternativa ao poder é tirar o sono à muita gente. Não é do interesse de nenhuma outra força política ter alguém que lhes pode roubar o espaço, até mesmo o sustento, visto que para muitos em Moçambique a política ainda é para satisfazer o estômago.

Por estas e outras razões, Amurane poderia ser uma ameaça ao status quo e ao futuro de uns e outros que vivem ou tentam viver da política. Se as motivações do seu assassinato foram realmente políticas, mostra infelizmente que a democracia, a tolerância, o pensar correcto, diferente, o estar certo enquanto alguns estão errados ainda não foi aceite e incorporado na vida de certos moçambicanos como modo de ser ou estar seja a nível político ou social.

Por Raúl Barata

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