Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

SELO: As saias das alunas têm machismo pintado – Por Boaventura Monjane

A partir de este ano, os uniformes femininos das escolas secundárias de Maputo não terão mais saias “curtas”. A decisão foi divulgada nos regulamentos internos das instituições de ensino que consideram que a vestimenta acima do joelho “facilita o assédio sexual”.

Ao reprimir as manifestantes feministas que se concentraram no exterior da Escola Francisco Manyanga, a 18 de Março, e prender cinco mulheres que lutavam pela liberdade dos seus corpos, também a polícia moçambicana pareceu sentir-se “ameaçada” com o tamanho das saias destas crianças e jovens.

Acompanhei a pouca repercussão que o assunto teve nas redes sociais e assustei-me com as publicações e comentários que fui lendo: aplaudiam a directiva, repudiavam o protesto, ridicularizavam as feministas – insultando-as – e culpabilizavam as meninas e mulheres pela violência de que são vitimas, acusando-as de provocar os incautos homens.

Os discursos dos directores das escolas que falaram à imprensa, justificando o controle dos corpos das estudantes através da proibição da saia “curta”, deixam muito a desejar. Um director pedagógico da Escola Secundária de Laulane disse à imprensa que a saia “curta” “prejudica a própria aluna, porque mesmo quando se senta tem sempre que puxar a saia e acaba atrapalhando até a própria aprendizagem da aluna”, sem explicar em que é que a saia cumprida traria benefícios ao processo de aprendizagem. Outro director, da Escola Noroeste 1 (este proibiu não só a saia curta, mas “certos” penteados das alunas) disse: “quando a mecha é comprida, atrapalha o colega que está atrás em termos de visibilidade e se for colorida também chama muita atenção. Tudo que é mecha com cor berrante é proibido pelo nosso regulamento interno”.

Se o primeiro director está preocupado com a aprendizagem da aluna, o segundo argumenta que, para além da saia, o cabelo das meninas pode atrapalhar o colega, despertando não só a sua atenção como a de todos os homens que com elas se cruzem.

A acção do Estado moçambicano – ao reprimir uma manifestação pacífica e constitucionalmente permitida (através da polícia) – e a opinião pública dominante sobre o assunto revelam que somos uma sociedade profundamente conservadora, machista e patriarcal. Pior, que o somos e que estamos confiantes de que assim devemos continuar.

Os apoiantes das medidas que incidem sobre as liberdades e os corpos das mulheres alegam, quase sempre, que é pela sua protecção, pelo seu bem. Mas porque não uma directiva proibitiva que acabe com as violências sofridas diariamente – das quais o assédio sexual é apenas um deles? É preciso compreender que as mulheres são vítimas de um sistema social que exerce poder e controle sobre o seu corpo: o patriarcado. Este sistema estabelecido justifica que sejam tratadas como um objecto pela absurda crença de que são frágeis, impotentes, humanamente inferiores e, portanto, há que protegê-las, e neste caso, controlar aquilo que vestem.

O sistema patriarcal – que o Estado, a religião e a política conservadora fazem questão de manter – é uma espécie de “instituição” que domina as formas políticas, sociais e económicas, excluindo e discriminando socialmente a mulher, com base na convicção de uma superioridade (física, intelectual, política) masculina.

A proibição das saias “curtas” para as alunas coloca a culpa na vítima e exalta o vitimador. O professor que importuna as alunas é essencialmente um assediador e sua intencionalidade para praticar a acção é precedente do facto da vítima se ter vestido dum ou doutro jeito. Mas o patriarcado, em forma de machismo, ensina-nos a colocarmos a atenção na ocasião e aplaudir, ou como mínimo esquecer, o ladrão. É o ladrão que se deve combater, e não a ocasião. O leão não se torna predador pela existência ocasional do antílope. O é independentemente da presença da presa.

É preciso educar o menino, o adolescente, o adulto, o director da escola, o político, o pai, o presidente a compreender que suas acções na sociedade perpetuam sistemática e estruturalmente a violência contra as mulheres. É preciso educá-los a compreender que as mulheres são humanamente iguais ao homens e têm o direito às mesmas liberdades. É preciso educá-los a dessexualizar, a desmercantilizar e a desobjectivar o corpo feminino.

É o machismo que devemos proibir e não as saias…

EÉ precisamos que construamos, mulheres e homens, um país onde ninguém seja julgado pelo tamanho da sua saia.

Por Boaventura Monjane

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on pinterest
Pinterest

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Related Posts

error: Content is protected !!