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SELO: A voz de um outro – Por Iner Muchine

Amontoei, infinitamente, mil noites de profunda meditação, exercício que me muniu de vontade de passa o tempo numa ilha tão distante quanto o futuro: a memória de um recluso. Honestamente, foi assustador ter que embarcar, servente de um regresso incerto, para um lugar demasiado obscuro. No entanto, há que crer que entre as memórias desses indivíduos, ainda que repletas de actos autenticamente obscenos, podem estar hospedadas as maiores histórias de superação, iniquidade e acima de tudo grandes verdades.

Tirei parte do dia, dentro das minhas funções profissão de jornalista, e dirigi-me à uma prisão. No primeiro instante entre os muros infinitamente altos, minha alma foi atravessada por um terramoto: estremeci vertiginosamente. Ali moviam-se “ventos do apocalipse”. O homem que se dignou a encaminhar-me à pessoa com a qual iria passar a tarde chamava-se Rui e apareceu prontamente. Partimos rumo ao que me levava. Depois de vários corredores, cada um mais longo que o outro, detivemo-nos num compartimento silencioso, penumbroso, que minimamente permitia a invasão solar.

Estava diante de nós um homem voltado de costas. Já me tinham dito que chamava-se Matateu Kupha. Percebia-se que vivia para lá da idade: vivia momentos de compensação. Era sua vida elástica? Não soube. O facto foi que lentamente foi expondo o rosto. Parecia-me que pretendia simpatizar-se embora não me conhecesse. O fulano que me acompanhava estava disposto a deixar-nos-á sós ? a mim e ao Matateu ? mas eu sobrepus-me:

– Fique!

Estava conscientemente ciente de que os desconhecidos sempre são bichos, até que se prove o contrário.

Seguiram-se momentos de cordiais apresentações, culminando com a exposição da razão pela qual eu estava ali: saber o que resta na memória de um ex-prisioneiro e qual era a história desse homem sóbrio?

– Nada mais prodigioso ? dizia Kupha ? que procurar vislumbrar uma pomba branca entre os malignos corvos que empoleirados, moram na minha consciência. Era bom que o fizessem mais vezes, sobre tudo aos outros colegas que pendulam entre a liberdade e a perdição.

Se calhar não era esse o mundo, não era essa distância que devia intrometer-se entre os actos e a voz do remorso. Eu sonho com a distorção do sentido no qual a lógica orienta-se. Era bom que a moral fosse o pano de fundo do que pensamos e fazemos, se calhar um dia, num lugar distante, perceber-se-á que o arrependimento deve vencer previamente o mal.

Todos representamos um animal tanto selvagem quanto feroz, dentre os quais durante uma longa temporada da vida eu representei o próprio homem e essa postura, essa apanágio incontornável, só serviu para repelir-me ainda mais de tudo e de todos. Neste momento, Sou tão solitários, que dou graças aos fungos e as demais parasitas que passam os longos dias comigo.

Quero dizer que muitas pessoas olham com maus olhos os contornos que a nossa vida tem. Mas os males que perpetramos advieram de uma causa, que no momento, preenchia cabalmente um abismo na nossa alma.

De um tempo para cá tenho levado a cabo veementes leituras com vista a colorir um certo espaço dentro de mim. Ainda assim, teimo em convencer-me que as coisas mais belas que tenho lido, visto e acompanhado quotidianamente, são vencidas pelo que carrego; pelas visões mas ignóbeis que vêem dum passado forçosamente presente. Hoje quando fecho os olhos, os que de meus macabros actos sucumbiram, mordem-me, cospem-me e em função disso, contorço-me arduamente. Se calhar até grito buscando despertar. As tantas, desperto e Eis que o pesadelo propriamente dito é o que vivo.

Há um ponto elevado cá na prisão. Tenho caminhado solitariamente até lá sempre ao aterrar da noite. Parece paradoxal que disponha de tanta liberdade, não parece? De facto esse liberalismo descende necessariamente de eu já ter esgotado a infinita pena de 45 anos, por ter feito o que não devia: tirado a vida de um juiz que julgara três casos que, contudo pesavam-me, de entre os quais o assassinato de três padres, em plena semana santa. Porém, já envelhecido, detenho-me diante desse lugar altivo e assisto o lento por do sol. Sou a plateia mais reduzida do mundo. Até Acredito que eu é que ponho o sol com os olhos, em gesto de gratidão pois, este é que em plenas manhas mais frias, traz-me uma significativa Porção de luz que, entretanto, transforma-se num espaço de jogos similares ao Xadrez que pratico sozinho e sempre perco. Caem-me lágrimas quando o sol já à meia-orla, vai-se como se engolido pelo horizonte, e surge no fundo de mim uma incerteza que povoa-me e apaga o sonho de ser um individuo do amanhã.

Senti um silêncio condensado que demorou-se alguns minutos que não contei. Rui, perspicazmente, entendeu o que se passava e já não estava ao meu lado quando olhei por distracção. Esperei por ele com a mesma mestria que esperei nascer, até que regressara com uma garrafa que, pelo aspecto, continha uma bebida seca. Eu estava certo, afinal para grandes viagens de barco, há que se aumentar o oceano. Assim que tomou, Matateu parecia procurar a respiração certa e o momento de pausa.

Dinatal é um parente meu que, de tanta frustração, já nem sei que grau nos une. Tenho recebido constantemente algumas cartas a respeito de sei lá o quê: não têm respeito, aliás não continham nenhum assunto definido. Não sei explicar ao certo. Confesso que os seus primeiros escritos, assim que chegavam eu os rasgava antes que me desse o trabalho de ler. Tudo engravidava-me de pudor e aversão. Lançava os desajeitados pedaços ao chão. Murmurava desesperada e perdidamente. Durante uma data de vezes foi assim: Uma, duas, depois três, quatro… Foram muitas cartas rasgadas ignorantemente. No sexto ano, algo que nunca soube ao certo, impeliu-me a lê-las. Comecei por reconstruir as primeiras cartas.

A primeira que li foi a segunda. Dinatal nessa altura simplesmente ajudava-me matematicamente a decompor o tempo. Entre as fendas percebia-se “ VI ano, segundo mês e quatro dias; escrevo-te as 13:41.” E assim foi até ao vigésimo terceiro ano. Era o modelo do hino genuíno. De alguma forma percebia que ainda havia alguém que dedicava alguns dias, horas, minutos ou as fracções de tempo mais expeças buscando dar-me alguma felicidade. Entretanto, desde o vigésimo quarto ano passaram-se meses sem que as recebesse. Uma desolação estalou-se em mim. Perdi peso, moscas pousavam pisavam-me, faltou-me higiene, tanta que os dentes frontais ficaram sem o escasso encanto que ostentavam, até que cederam, dando espaço a um orifício apocalíptico. Não ousava desabotoar um sorriso sequer: estava, no entanto, declarada a veemente crise. Passaram-se outros meses e eu caminhava a trote largo à um estado terminal, apoderado por uma data de enfermidades fatais.

Eu pereceria se numa manha fria de Junho ? o que já era habitual ? não se tivesse intrometido por de baixo da porta, um papel dobrado com jeito. Meus olhos gatinharam em direcção ao enigma. Passaram-se dias sem que o mexesse por falta de forcas. Um dia, movido pelo estrupido vindo do corredor, fiz-me ao papel, desdobrei-o e pus-me a ler jovialmente. Eram poemas de Carlos Drummond de Andrade, todavia vindo de outra pessoa e não de Dinatal. Depois de umas tantas cartas recebidas com a mesma frequência com que recebia as outras, vindas de um desconhecido, comecei a reagir, confrontando as abomináveis enfermidades pelas quais padecia. Venci uma malária, uma anemia que me urdia um esqueleto com sangue, uma gripe bovina e as restantes nem as soube que existiam. Já sorria, embora com um sorriso completamente escancarado.

As cartas que recebia, ora identificadas pelo nome de Clara Melo, continham máximas de filósofos, frases nobres e grandes poemas. Passei a conviver com, por exemplo, Sócrates, Martin Luther King Jr., José Saramago, Óscar Wild, Noémia de Souza, Eduardo Galiano, etc.. Ganhei o hábito de responde-las. De facto era um autêntico absurdo, por que essas respostas permaneciam aqui comigo sem nunca partir. Ainda que, como disse, se definisse como uma grande insanidade, esse instante conferia-me um jubiloso sossego, capaz de derrubar todos os adamastores com os quais lutava. Assim suportei tantos anos.

Hoje, embora com a pena cumprida, continuo cá na prisão e não me sinto apto a abandona-la. Quiçá a morte antecipe o dia em que me sentirei reabilitado para fazer parte da sociedade, mas aguardo pacientemente a concretização da minha vontade de sentir-me bem comigo mesmo e com os demais. É normal que não excite saudades pois, para existir saudade deve existir tempo e, para mim, o meu tempo foi a minha pena.

Estou feliz. Ultimamente tenho visto figuras “arranha-céus” dando sua compareça por cá razões que desconheço. Mas pelo tempo que instalam-se, parece-me que lá fora a justiça esta sendo feita. Um antigo ministro fez uma turbulenta aparição. Igualmente, a sua excelência ex-presidente de uma bancada. Todos esses chegaram depois de quem? Da sua excelência eu, se me permitem. A chegada dessas pessoas pode ser, queira Deus, um holofote que anuncia uma geração que vá perceba o seguinte: para um desenvolvimento plenamente equilibrado, é fundamental que sejamos, a princípio, todos pobres.

Eu só queria que me ouvissem e deixassem-me conhecer Dinatal e Clara Melo. Caíram lágrimas durante longos momentos sem conta.

Três semanas mais tarde, essa reportagem fez parte do jornal e, por conseguinte, dada grande aderência, a mentalidade das pessoas mudou acentuadamente.

Por Iner Muchine

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