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SELO: A saga da Moça Ibn Bique – Por Fernando Absalão Chaúque

Sou uma linda moça. Moça de cabelos cintilantes, pele doce, curvas macias, lábios de seda, seios avultados que lembram duas papaias beijando o útero da terra. Ando alheada de mim que às vezes esqueço o meu próprio nome, razão pela qual, alguns já me atribuíram alcunhas como: Pérola dos Indícios, Pátria animada, etc.

Fui nascida há muitos anos, mas a minha beleza nunca se apaga. A cada dia que passa fico mais exuberante que antes. No entanto, a beleza que carrego só me atrai maldades, quer dizer: apesar de ser linda, a minha vida sempre foi a mais feia do planeta; porque nunca tive nem se quer um segundinho de felicidade. Por exemplo, tornei-me mãe ainda na minha miúda adolescência, e, hoje, o que me mantém vivo é apenas a minha família, especialmente os meus filhos: o Salves, o Zizumbeze, a Ravuma e a Umbeluza, os únicos que o tempo ainda não engoliu.

Desde os anos remotos, vários homens têm-me lançado olhares com o objectivo de transformar-me em pão para os seus famintos músculos.

Primeiramente, um homem chamado Khoisan fez de mim a sua presa preciosa. Diariamente, desbravava-me as entranhas, farejava os seus prazeres na rica savana que dormia na minha epiderme.

Depois, o Bantu roubou-me do Khoisan e fez de mim a sua sereia favorita. No inicio, nos meus poros férteis desenvolveu a agricultura fálica para produzir cereais como a mapira e a mexoeira. Mais tarde, o Sr. Bantu, no meu colo começou a desenvolver a metalurgia do ferro meloso, a olaria do êxtase e a tecelagem do prazer humano.

Passado algum tempo, um homem que morava nos madzimbabwes se apaixonou por mim e decidiu me levar à sua terra que se chamava ‘’estado do Zimbabwe’’. Ele, por sua vez: no meu tronco nu descobriu a mineração orgíaca e a metalurgia do ouro. Mas, depois, desapareceu sem nenhum adeus deixando-me nas mãos de um outro que se chamava Nyantsimba Mutota. A minha junção com o Nyantsimba deu origem a uma nova família que foi dominada “dinastia dos Mwenemutapas”.

Em seguida, um homem que desde há muitos anos sonhava em me conhecer se ancorou nas minhas margens, trazendo consigo toda a sua família. O tal, Chamava-se Vasquito Vataghama tinha remado contra maré incontáveis dias e noites. Deste modo, logo que chegou exibiu a sua bravura no meu leito e chamou os seus amigos, o António Enês, os indianos, etc. No meu útero ergueu a sua bandeira, plantou a sua língua e entoou epopeias lusitanas.

O Português domou-me, escravizou-me, em fim: explorou por inteiro o meu corpo, ouro, marfim e a minha gente. Sim!! O Tuga até sabia vender Humanos. Arriiii!!! Dele nunca me esquecerei, porque me cicatrizou o corpo, a alma, o espírito e a mente. Ensinou-me a semântica do “xibalo” e o peso do “imposto de palhota” na minha própria terra. Além disso, teve a coragem de dar-me um outro nome: Moça Ultramarina Portuguesa. Ah!! Satanyoco-lhe infinitamente.

Por causa da crueldade do Tuguês tive de procurar amantes. Em primeiro lugar conheci o Sochangane que até à sua morte não me conseguiu tirar do jugo do Tuga. Passado algum tempo, vários homens como Gungunyane, Maguiguane, Mahazula e tantos outros lutaram por mim, porém, não me conseguiram arrancar das mãos do lusitano.

Não tardou que eu conhecesse um homem chamado FRELIMO, este veio com mais força, intelectualidade e, finalmente, conseguiu me libertar do colonialismo. Juntos erguemos o nosso lar que primeiramente era monogâmico, mas isso durou pouco tempo. Isto é, actualmente sou democrática, aliás, poliandra, tenho um parceiro oficial, FRELIMO, e dois amantes, RENAMO e MDM.

Agora ando muito insegura, intimidada e rezando que nenhum outro homem me venha escravizar de novo, porque muitos descobriram que dos meus seios já goteja petróleo e gás em abundância.

Para terminar, deixo-vos com algumas perguntas de reflexão: será que o meu parceiro oficial cuida bem de mim? E se for a troca-lo por um dos amantes, a minha vida poderá melhorar ou piorar?

Por Fernando Absalão Chaúque

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