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Questões de família

No mundo dos chacais, o pai e a mãe permanecem juntos por toda a vida, e os seus filhotes estão sempre dispostos a colaborar.

O filme de 1973 sobre um assassino que planeia matar o presidente francês tem muitas explicações a dar. Por quase 40 anos, O dia do Chacal vem lançando uma grande sombra sobre a vida dos maravilhosos animais que deram ao vilão do filme a sua alcunha. A palavra “chacal” ainda invoca imagens de malfeitores e terroristas, mas esses estereótipos estão longe da realidade.

Na verdade, os chacais são admiráveis modelos de comportamento. Eles levam uma vida social e cooperativa, e os membros de cada família demonstram lealdade, coragem e generosidade – qualidades reverenciadas pelos humanos. Acima de tudo, os adultos formam casais estáveis.

A monogamia é relativamente incomum no reino animal, e em particular entre os mamíferos, apesar de ser comum nos canídeos – a família que inclui chacais, raposas, coiotes, lobos e cães-selvagens-africanos. Mas porque? Quais são os benefícios da formação de relacionamentos duradouros?

Esta foi uma das primeiras perguntas que a ecologista Patricia D. Moehlman fez quando começou a estudar os chacais no Serengeti (parque da Tanzânia) há mais de 30 anos. Patricia decidiu pesquisar os chacais-de-dorso-prateado (a maioria dos livros e páginas da Internet insiste em dizer que eles têm o “dorso negro”, o que sempre lhe pareceu estranho já que as costas grisalhas destes animais são tão marcantes) e sintetiza neste artigo as suas constatações.

Scorpio e Libra

Eles têm uma capacidade notável de se misturar à paisagem das savanas; então, para ter uma ideia da sua vida familiar, comecei a seguir um macho e uma fêmea, que baptizei de Scorpio e Libra.

Quando encontrei o casal pela primeira vez, Libra tinha seis filhotes recém-nascidos, e durante as três primeiras semanas Scorpio trazia-lhe comida no ninho. Assim que chegava, ela lambia o seu focinho, dando o sinal para que ele regurgitasse o conteúdo do estômago (normalmente ratos-da-pradaria).

Isso permitia que Libra ficasse com as crias e cuidasse delas em intervalos regulares. Mais tarde descobri que Scorpio alimentara também a sua companheira durante a gravidez, para que, a seu modo, ambos nutrissem a prole desde a concepção.

Os papéis de Scorpio e Libra tinham simetria e igualdade. Ambos marcavam e defendiam o seu território, cuidavam um do outro, caçavam juntos e dividiam a comida. Mas havia diferenças no que eles consideravam mais ameaçador para a estabilidade da família.

Scorpio perseguia machos rivais, mas não parecia importar-se com fêmeas invasoras. Libra era exactamente o oposto. Ela expulsava as invasoras imediatamente, enquanto ele apenas observava.

Fiquei admirada com a quantidade de energia que eles punham na sua relação. Pares de chacais ficam juntos por pelo menos cinco anos, o que pode significar uma ligação por toda a vida. Então, o esforço vale a pena.

Formando uma família

Scorpio e Libra escolheram a melhor época para ter uma família: a estação seca no Serengeti (de Junho a Agosto), época em que os roedores, a base da sua dieta, são mais abundantes. Como os cães domésticos, os filhotes de chacal nascem cegos e desdentados.

Os seus olhos abrem-se em cerca de dez dias, e os dentes afiados nascem por volta do mesmo período. É vital que a mãe fique no ninho nas primeiras semanas, para mantê- los aquecidos, alimentados e protegidos.

Nesse estágio, os jovens chacais começam a arriscar saídas a céu aberto e a explorar devagar o seu habitat. Passam a mover-se desajeitadamente, mas, de algum modo, conseguem correr de volta para a entrada da toca quando o pai ou a mãe dá um uivo de alerta.

Fiquei pasmada com a visão de Scorpio e Libra perseguindo sem medo hienas-pintadas bem maiores do que eles e expulsando-as para longe de suas vulneráveis crias, enquanto uivavam e mordiam as suas ancas.

Os filhotes de chacal passam horas a brincar juntos. Brincadeiras de pega-pega, lutas e ataques de surpresa ajudam- -nos a desenvolver os músculos e as habilidades necessárias à sobrevivência na vida adulta. Quando o recreio finalmente termina, eles esticam-se ao lado do ninho, esperando impacientes que os pais voltem da caça com o estômago cheio.

Os filhotes excitados correm então ao seu encontro, abanando o rabo e estremecendo de alegria, antes de lamber o nariz dos adultos para pedir um jantar regurgitado. Scorpio e Libra dividiam o seu território com dois adultos jovens: um macho que chamei de Orion e uma fêmea, Tamu.

Ambos eram estudadamente submissos, sempre encontrando os “maiorais” com a cabeça baixa, postura corporal idem e o rabo abanando bastante. Com frequência eles deitavam- -se com a barriga para cima à frente dos seus superiores, o que seria recompensado com uma sessão de carícias pelo casal mais velho.

Dois mais dois

Ficou imediatamente aparente que os dois adultos jovens ajudavam bastante Scorpio e Libra. Eles ofereciam comida a ela durante a lactação e aos filhotes quando eles saíam do ninho, além de perseguir hienas que se aproximassem demais. E a presença de Orion e Tamu permitia ao casal deixar os filhotes para caçar mais longe. Pesquisas mostraram que duplas de chacais têm muito mais sucesso na caça de gazelas do que adultos solitários.

Suspeitei que Orion e Tamu pudessem ser filhotes crescidos da ninhada que Scorpio e Libra tiveram no ano anterior. A minha pesquisa subsequente confirmou esse palpite: os chacais tendem a ficar com os pais para ajudar a criar a ninhada seguinte. Mas se um adulto jovem é capaz de se reproduzir aos 11 meses, então porque esses dois indivíduos ficaram em vez de encontrar parceiros e começar famílias novas?

Uma razão é que é difícil para os chacais jovens ganhar territórios e parceiras. Permanecendo ao lado dos país, eles podem desfrutar dos benefícios de viver num ambiente seguro e estável – da mesma forma que humanos de 20 e poucos anos que ainda não saíram da casa da família.

Por exemplo, quando segui Orion, percebi que ele costumava aventurar-se além dos limites naturais da sua família. Talvez procurasse um lugar para se estabelecer, ou uma parceira em potencial.

Mas os machos territoriais dos arredores expulsavam-no, e ele fugia com o rabo entre as pernas. Então, por vários meses, ele e Tamu ficaram no seu território natal, brincando com os seus irmãos, acariciando-os, protegendo- os das hienas e trazendo- lhes comida.

Os chacais jovens que ficam em casa por mais seis meses também aprendem habilidades importantes, desde técnicas de caça até como escapar de predadores e cuidar dos filhotes. No meu estudo, a maior parte dos indivíduos que continuaram com os pais saiu com aproximadamente 18 meses, quando haviam ganhado maturidade e experiências valiosas.

Amigos fiéis

Ainda preciso de explicar porque os chacais são estritamente monogâmicos. A resposta está nestas estatísticas inacreditáveis: apesar de uma fêmea poder dar à luz até nove filhotes, um casal consegue manter vivo apenas um por ninhada até a fase adulta. Então as contribuições do pai são cruciais: se ele não se devotar à família, nenhum filhote sobrevive.

As famílias de chacais com ajudantes também são um factor a ser considerado, já que nelas mais filhotes sobrevivem – às vezes até seis. Os jovens adultos que ajudam os pais a cuidar dos mais novos também colhem benefícios.

Já que um macho e uma fêmea se unem por toda a vida, as suas ninhadas têm irmãos e irmãs “completos”. Ou seja, ajudantes como Orion e Tamu têm tanta semelhança com os irmãos mais novos como terão com os seus filhotes. Estão a cuidar dos seus próprios genes.

Os laços de parentesco são tudo para um chacal-de-dorso- -prateado. A espécie dá uma visão fascinante do modo como a monogamia e o cuidado cooperativo com as crias evoluíram, e talvez possa contribuir para uma melhor compreensão de aspectos do nosso próprio comportamento.

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