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“Queremos mostrar a beleza da cultura islâmica”

“Queremos mostrar a beleza da cultura islâmica”

O primeiro e único grupo de canto coral islâmico moçambicano, Sautul Isslam Coral, actuou recentemente no espaço do Maputo Shopping Center a fim de promover o seu segundo álbum intitulado Paz e Solidariedade. Evento com o mesmo objectivo terá lugar no domingo, dia 14, no Salão da Mesquita Anuaril Isslam. Dado o facto de esta colectividade artística estar a atrair a atenção do público local e estrangeiro, @Verdade conversou com o seu líder, Ussman Rufino, para entender as ideias destes dez jovens que têm de transpor as barreiras dos muçulmanos conservadores para publicar a beleza dessa cultura e religião através das artes.

@Verdade: Fale-nos sobre a história da fundação do Sautul Isslam Coral.

Ussman Rufino: Sautul Isslam Coral significa a voz do ‘Isslam’. Somos um grupo de jovens moçambicanos oriundos de diversos pontos do país (Nampula, Beira, Inhambane e Maputo) formado com o objectivo de fazer chegar ao público a poesia e o canto coral muçulma- nos, entoados na língua portuguesa e árabe. No canto coral islâmico somos os pioneiros em Moçambique e os únicos neste momento a fazer poesia e canto coral em português e nas línguas locais – macua, xichangana e bitonga – a fim de fazer as pessoas perceberem o que é o Islamismo.

Nas nossas músicas, disseminamos mensagens sobre Deus, incluindo uma abordagem acerca da educação e da responsabilidade social como, por exemplo, a temática da paz, dos direitos e deveres dos pais, a guerra, os direitos das crianças bem como preces a favor do bem-estar em Moçambique. Embora façamos uma mistura entre o coral e o Islamismo, não fugimos à regra daquilo que são os timbres musicais islâmicos – o que chamamos cassuídas. Ou seja, a poesia cantada que caracteriza muitos países árabes, cujos artistas são a nossa fonte de inspiração e os cânticos tradicionais que aprendemos na madraça.

@Verdade: O que é a madraça?

Ussman Rufino: É uma das principais escolas de formação dos nossos jovens, muitos dos quais têm um talento nato. Nas madraças também se cultivam bastante as habilidades artísticas e culturais – o canto e a poesia – na condição de uma actividade extracurricular. Nas madraças aprendem-se os cânticos tradicionais islâmicos dos quais nós decidimos sair e abraçar o mais alto nível de profissionalização.

@Verdade: Qual é a composição do grupo?

Ussman Rufino: No total somos 10, dos quais sete são rapazes (Sadik Dadá, Amad Abdul Amad, Ali Assuad, Muhammad Camal, Abdul Cadri, Ali António e Ussman Rufino) e três meninas, nomeadamente Sheinaze Idrisse, Mariamo e Zeituna Amad. Este é o grupo de jovens que se juntou nos finais do ano 2012 com o objectivo de participar no encerramento de uma madraça.

Depois vimos a necessidade de continuar a trabalhar mais, em resultado da calorosa recepção que tivemos. Individualmente, alguns membros do grupo já se dedicavam ao canto. Por isso, a formação do grupo tinha, em certo sentido, o objectivo de ampliar o circuito da nossa actuação e exibir às pessoas o coral islâmico. De todos os modos, o que fortificou a nossa unificação foi a nossa participação no concurso do canto coral Fest Coros, em 2012, em que ficámos classificados na terceira posição.

Nessa época, formámo-nos, edificámo-nos e decidimos trabalhar. Encontrámos naquele certame uma escola em que aprendemos muito durante nove meses, desafiando grupos profissionais. Também enfrentámos muitos desafios, porque nem todos os muçulmanos receberam de boa forma a nossa iniciativa – ver os miúdos a cantar em público e a concorrer com os não muçulmanos. Eles pensavam que nós estávamos a fugir das regras da religião.

No entanto, antes de entrarmos no certame consultámos aos sheiks, que são os nossos conselheiros, e pela sua argumentação percebe- mos que podíamos continuar com o nosso trabalho a fim de mostrar ao não muçulmano como é o ‘Isslam’ e a beleza do nosso canto coral. Nesse sentido, insistimos e fomos habituando as pessoas a conviver connosco. Conseguimos conquistar o terceiro lugar no Fest Coros, tendo sido o grupo revelação do ano, embora nós tenhamos considerado essa experiência vitoriosa.

E foi muito importante porque nos proporcionou oportunidades de actuar para novos públicos e cerimónias. Em 2013, surge o sonho de gravarmos o nosso primeiro trabalho discográfico – o que fundamentou a interrupção da nossa participação no Fest Coros – a fim de nos concentrarmos nesse projecto. Portanto, tal álbum chamou-se Ramadam Mubarak que foi um tributo a todos os que nos apoiam, se bem que estávamos no mês do Ramadão.

Além do mais, desde sempre nos comprometemos com a responsabilidade social. Nesse sentido, em 2013, a par de outras organizações, criámos um evento a fim de angariar bens para apoiar as vítimas das cheias no país. Essa experiência revelou que também tínhamos um papel social relevante. No mesmo ano, em Julho, realizámos uma campanha a favor das crianças órfãs e vulneráveis. É por isso que (tendo em conta que o nosso país viveu um período de instabilidade) também estamos comprometidos com a manutenção da paz.

@Verdade: Significa que é a propósito dessa percepção que criaram o dis- co Paz e Solidariedade, recentemente lançado em Maputo?

Ussman Rufino: Sim, porque como o que nós sabemos fazer melhor é cantar, decidimos utilizar este recurso para suplicarmos pela paz. Nesse sentido, começámos a gravar novas músicas que compõem o novo disco com o título Paz e Solidariedade.

Tivemos a participação de alguns sheiks que sempre nos apoiaram, bem como de artistas como Ali Faque e do Coral Spirit Voice. Tivemos a sorte de firmar uma pareceria que nos garantiu que o disco Paz e Solidariedade fosse editado em Portugal, o que constituiu a realização de um sonho. Mas também abriu-se a necessidade de se promover esta obra, daí que se estão realizar estes concertos.

@Verdade: Como é que foi o feedback em relação ao concerto de sábado?

Ussman Rufino: É positivo até porque muitas pessoas, surpresas, revelaram-nos que nunca nos tinham visto. Agora estamos a fazer de tudo – explorando todos os meios – para consolidarmos essa amizade com o público. Oxalá que no próximo domingo, dia 14, o nosso evento de apresentação do disco Paz e Solidariedade tenha uma grande recepção pública.

@Verdade: Fale-nos dos constrangimentos que o grupo enfrentou ao longo desse tempo, na sua relação com os públicos.

Ussman Rufino: Realmente, temos uma experiência positiva, embora nem tudo tenha corrido bem até os dias actuais. Por isso, imediatamente, decidimos ser independentes e assim trabalhamos. De todos os modos, também precisamos de algumas parcerias. E o público recebe-nos com algum espanto porque somos novos. Um aspecto relevante é que já começámos a dar frutos positivos. O evento do sábado foi uma experiência renovada, porque até a esta data só aparecíamos em cerimónias fechadas como casamentos e os da comunidade muçulmana.

É em resultado disso, porque são poucos os não muçulmanos que conhecem o grupo. Felizmente, há organizações do Estado que nos convidam para fazermos parte dos seus eventos como foi o caso da II Conferência das Religiões. De forma constrangedora e negativa, acontece o nosso relacionamento com a parte mais extrema da comunidade muçulmana que, em Moçambique, ainda não convive naturalmente com a ideia de existir um grupo coral islâmico que faça concertos, participando em eventos televisivos.

Os muçulmanos conservadores são críticos ao facto de estarmos a cantar para o público, ao mesmo tempo que estamos a introduzir nas nossas cassuídas os instrumentos musicais seculares – o piano, a guitarra – que, de acordo com a lei islâmica, não podem ser utilizados além da percussão. Pensamos que, dia após dia, vamos fazer as pessoas entender o nosso objectivo – mostrar ao mundo uma parte bonita dos muçulmanos, até porque estava a faltar este componente artístico-cultural que anima as pessoas em diversas circunstâncias.

@Verdade: Qual é a vantagem de associarem a poesia, o teatro e o canto nas vossas actuações?

Ussman Rufino: É uma experiência que requer um grande desempenho do próprio grupo, o que é desvantajoso porque nós ainda não dominamos o te- atro. Por isso, só elaboramos as peças para os actores de outros grupos interpretá-las. A poesia e o canto não nos constrangem de forma nenhuma, porque já temos essa iniciação a partir da madraça.

@Verdade: Qual é que foi a tiragem do disco Paz e Solida- riedade e como tem sido recebido?

Ussman Rufino: Fizemos mil exemplares, dos quais já vendemos metade. A outra metade será distribuída em Tete, Beira e Nampula onde, se tudo correr bem, iremos actuar. Uma boa surpresa é que por causa do impacto que o nosso trabalho está a ter recebemos um convite para realizarmos concertos em Angola, o que engorda as nossas expectativas.

@Verdade: Fale-me sobre as vossas expectativas e planos para o futuro.

Ussman Rufino: O nosso futuro já está a acontecer, porque nos sentimos a caminho da concretização de muitos dos nossos planos como, por exemplo, a posse de um estúdio melhorado. Para além de Angola já temos outro convite para actuar em Portugal. Era importante que realizássemos concertos em todo o nosso país, a fim de abrirem-se as portas dos PALOPs bem como da comunidade dos países árabes, onde se encontram os artistas em que também nos inspiramos.

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