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EDITORIAL: Quem é o Nero do MDM?

Já não bastavam as fragilidades que, ano após ano, se avolumam na Renamo – o maior partido da oposição moçambicana – que passou de uma alternativa de Governo nos pleitos eleitorais de 1994 e 1999 para nem sequer fazer sombra à Frelimo, como prova o resultado das últimas eleições de 2009, agora é a vez da terceira força política do país, na qual muitos depositavam esperanças para o futuro, viver um processo semelhante.

Falo do MDM (Movimento Democrático de Moçambique). Em menos de três anos este partido com assento parlamentar – possui uma bancada de oito deputados – não tem mostrado ser uma alternativa credível à Frelimo e hoje as suas fi guras mais conhecidas fazem jus ao símbolo do partido: vivem como galos numa capoeira.

É do senso comum que, deixando dois galos na mesma capoeira, a luta pelo poleiro termina invariavelmente com a morte de um deles. Ironicamente, é o que hoje está a acontecer no partido do galo. A luta entre facções desceu do poleiro e actualmente lava-se roupa suja nos jornais, o que diz bem do extremo a que as coisas chegaram a nível interno.

Quando as ‘coisas’ chegam aos jornais é sinal que já não há volta-face a dar e a ruptura é inevitável. É o que hoje está a acontecer ao MDM, o partido em que muitos moçambicanos, sobretudo os jovens urbanos, depositavam as suas esperanças. Não foi por acaso que Daviz Simango obteve cerca de 25% entre a população esclarecida da capital nas últimas eleições.

Não foi por acaso que a comunidade internacional bateu o pé quando o Conselho Constitucional (CC) invalidou inúmeras listas do MDM, impedindo este partido de concorrer em metade do país. Aliás, esta arbitrariedade do CC valeu durante meses a incerteza em relação aos 45% do Orçamento Geral do Estado (OGE) que provêm dos doadores.

E hoje o que assistimos nos jornais? Assistimos a um chorrilho de acusações de ditadura, de compadrio, de gestão familiar, de traição, de autismo, de falta de diálogo, por parte da cúpula do MDM em relação aos seus militantes. Seguramente que não foi este MDM que fez deslocar para Sofala toda a artilharia pesada da Frelimo nas autárquicas de 2008 no intuito desesperado de arrebatar o município ao então candidato independente.

Seguramente que não foi este MDM que esmagou na Beira, um ano depois, os dois maiores partidos deste país, reduzindo a Renamo – chegou a ter 80% em anteriores pleitos – a uma presença residual.

Seguramente que não foi este MDM que conseguiu a proeza de formar uma aliança contra-natura à qual se deu o nome de Frenamo (Frelimo / Renamo), unindo dois inimigos ancestrais que se combateram mutuamente durante mais de 15 anos.

Hoje, para mal da democracia moçambicana, este MDM deixou de existir. Actualmente, este partido transformou-se num saco de gatos, onde as diferentes alas se vão arranhando na imprensa, desgastando forças onde não deviam. Enquanto isso, tal como o imperador Nero tocava cítara enquanto assistia ao espectáculo de Roma a arder, a Frelimo vai tocando batuque enquanto os galos lutam. Mas se no caso de Nero foi ele próprio que ordenou o incêndio de Roma, já no caso do MDM a resposta à pergunta “Quem pegou fogo à capoeira?” não é assim tão simples de desvendar. Faites vos jeux.*

*Expressão francesa que signifi ca ‘façam as vossas apostas’.

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