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“Quando não há liberdade não há criação”

“Quando não há liberdade não há criação”

Ramon Esono Ebalé, ilustrador de banda desenhada da Guiné Equatorial, esteve esta semana em Maputo a convite da embaixada de Espanha no nosso país. Ramón inaugurou, no dia 27 de Abril, a sua exposição ‘Bocas Silenciadas’ na galeria do ENAV, na rua do Bagamoyo, participou numa palestra e grafi tou um mural na Escola de Artes Visuais em parceria com o grafi teiro moçambicano Bruno. Após os últimos retoques no mural, conversou com @ Verdade. Aqui ficam os pontos mais ‘quentes’ da conversa.

@ Verdade – O que o trouxe aqui a Maputo?

Ramón Esono (RE) – Tudo se ficou a dever a uma reunião de vontades. Quem me trouxe, a embaixada espanhola em Maputo, viu no meu trabalho e nas minhas obras um bom aliciante para ir falando com a população através das obras, das imagens. Depois houve também a vontade de conhecer um pouco mais a geografia africana. Aqui senti-me em casa. Mas já não vou falar naquilo que me trouxe a Maputo mas sim naquilo que levo de Maputo.

@ Verdade – E o que leva de Maputo?

(RE) – Sem dúvida que levo as pessoas e o país. Estou certo de que vou deixar cá fi car a Frelimo ou então subiria com ela no avião para jogá-la cá para baixo, mas no avião não se pode abrir janelas (risos).

@ Verdade – Porque diz que deixa aqui a Frelimo?

(RE) – Porque o regime da Frelimo, como o que vigora na Guiné-Equatorial ou outro semelhante limitam o desenvolvimento das pessoas como seres humanos. A Frelimo, tal como o PGDE (Partido Democrático da Guiné Equatorial), limitam a liberdade e, quando não há liberdade, é muito difícil ser-se criativo.

@ Verdade – Pode apresentar- -se enquanto artista?

(RE) – Sou um desenhador humorista. Utilizo nos meus trabalhos rotulador, lápis, polígrafo e papel.

@ Verdade – Desenvolve também a sua actividade como cartoonista?

(RE) – Sim tenho várias obras nesse campo. Baptizei-as de curta-metragem cómica, porque vivi até há um mês na Guiné Equatorial e por isso não tenho muito material. Mas agora tenho um projecto para fazer uma longa-metragem e materializá- lo em livro.

@ Verdade – Onde se podem ver os seus trabalhos?

(RE) – Embora não esteja muita actualizada o melhor sítio é na minha página de Internet www. ramonyqueso.info. Daqui a um mês terei muito mais coisas.

@ Verdade – Publica habitualmente na imprensa?

(RE) – Desenhos não. Publico mais cartas e artigos de opinião. Estou a invadir um mundo que efectivamente não é o meu.

@ Verdade – Na imprensa da Guiné-Equatorial?

(RE) – Não, na Guiné Equatorial não há imprensa minimamente livre para publicar este tipo de escritos. Publico na Web, nos blogues.

@ Verdade – Como é que um artista como o Ramón, que preza tanto a liberdade, trabalha na Guiné Equatorial nos dias de hoje?

(RE) – Não é nada fácil. Eu, como todos os outros, só expus os meus trabalhos nos centros culturais estrangeiros, mais concretamente o francês e o espanhol, únicos locais onde um artista livre tem a oportunidade de expor as suas obras.

@ Verdade – As suas obras já foram alvo de censura?

(RE) – A minha primeira obra alvo de censura foi exercida por parte dos espanhóis, concretamente do director do centro cultural espanhol em Malabo. Suprimiram-me textos que acompanhavam as obras. Disseram- me que havia palavras muito fortes. A obra chamava- -se “Os Assassinos da Minha Inteligência”.

@ Verdade – Porque é que a sua obra é tão interventiva politicamente?

(RE) – A Guiné Equatorial ascendeu à independência em 1968 e, desde então, ora com Macías, tio de Teodoro Obiang, ora com este último, nunca viveu nenhum momento em liberdade e democracia. Por isso tenho muita sede de liberdade. Sei que a liberdade é muito difícil de atingir, não é plena em nenhuma parte do mundo, mas o básico tem de se ter e nós na Guiné Equatorial não temos. O meu estado de ânimo é muito crítico para com o regime, por isso plasmo isso directamente nas minhas obras.

@Verdade – Pode falar-nos um pouco desta obra no mural?

(RE) – É uma obra conjunta, minha e do Bruno, um grafi teiro moçambicano. Representa o constante massacre, tanto de ideias como de pessoas, a que alguém é submetido. Há uma pessoa que está no chão a ser violentada pela bota e pelas recordações que lhe vão passando. Do outro lado estão umas mãos que tentam resgatá-lo para que não continue a sofrer desta maneira. A última parte é representada por uns monstros fantasmagóricos. A história do mural está centrada nesta personagem que está a ser agredida. O resto entra mais num contexto do grafi to urbano, a especialidade do Bruno.

@ Verdade – Isto passa-se no continente africano?

(RE) – O meu trabalho centra- -se realmente no espaço onde até agora vivi, que é a Guiné- -Equatorial, mas os problemas são gerais, globais. É um tema universal.

@ Verdade – O português foi recentemente decretado como língua ofi cial na Guiné Equatorial. Como vê essa medida?

(RE) – Foi mais um capricho do presidente Obiang. Ninguém fala português. A única pessoa que fala esta língua é a segunda esposa do presidente que é natural de São Tomé e Príncipe e os seus filhos. A Guiné Equatorial não é lusófona, aliás está muito longe dos países lusófonos.

@ Verdade – Que projectos tem para o futuro próximo?

Espero ver brevemente lançada a obra de banda desenhada “Estou rodeado de ditadores”. Agora vou para o Paraguai, onde a minha mulher foi colocada como funcionária do Ministério dos Assuntos Exteriores espanhóis, e lá tenho mais tempo disponível para trabalhar neste projecto.

@ Verdade – Tem esperança de que o seu país viva algum dia em democracia?

Tenho que ter esperança. Os guineenses deviam preparar-se para viver sem o regime de Teodoro Obiang, isto é, as pessoas deviam começar a assumir as suas responsabilidades. As mudanças não são fáceis, a liberdade não se dá, conquista-se.

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