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Quando a dança se torna uma força…

Em 2006, altura em que tinha 14 anos, a viver longe da sua mãe, Lidénio Daúdo tornou-se órfão de pai. A partir daí, a incerteza do seu destino era (quase) um facto. Entretanto, a par do apoio do seu tio, o artista encontrou nas danças tradicionais uma força contra as adversidades da vida. É com base nelas que, no seu dia-a-dia, luta contra os obstáculos da vida…

Na sequência da morte do seu pai, em 2006, as peripécias que se seguiram – com destaque para o desamparo, já que a sua mãe vivia em Maputo – podiam ter sido uma fatalidade na sua vida. No entanto, o destino, para quem nele acredita, não quis que assim fosse. Lidénio Daúdo, um dos bailarinos mais apreciados na cidade de Nampula, foi acolhido por um dos seus tios e, imediatamente, começou a praticar a dança a fim de sustentar os seus estudos.

Inicialmente, explorava as coreografias modernas mas depois o bailarino entendeu que – por uma questão de personalidade e identidade cultural – devia praticar danças tradicionais. No Museu Nacional de Etnologia, em Nampula, associou-se aos Radical Dance, dando, assim, início a uma carreira que já possui sete anos.

Refira-se que, quando surgiu, a colectividade era composta por 26 pessoas que realizavam concertos em diversos locais da urbe, com enfoque para as ocasiões festivas como, por exemplo, a celebração do dia da cidade.

Em cada actuação, os jovens ganham algum dinheiro que repartem por igual. É com base nele que Lidénio investe na aquisição de material escolar, incluindo o vestuário. “Quando o meu pai, a única pessoa que financiava as despesas escolares, faleceu entendi que não devia desistir de estudar por causa das dificuldades que apareceram. Por isso, comecei a praticar a dança para ganhar algum dinheiro a fim de dar continuidade à minha instrução”, recorda.

Desde o princípio, os Radical Dance têm sido uma colectividade artística bem-sucedida, estando associado ao referido sucesso o constante crescimento do grupo. Aliás, o impacto objectivo da sua evolução foi a necessidade de a formação subdividir os bailarinos entre os subgrupos de dança moderna e tradicional. Lidénio decidiu associar-se ao segundo: “Sinto-me bem nele”, comenta.

Na verdade, como na sua génese os Radical Dance praticavam a dança moderna, a segmentação da colectividade significou a origem de um novo grupo, bem como a ampliação da sua esfera de acção. O movimento artístico cresceu até que, por várias vezes, acabou por tornar- -se tradição a realização de actuações em vários distritos da província de Nampula.

Em 2010, a 20 de Março, o agrupamento – que desde o princípio preserva os seus 26 elementos – decidiu criar a Associação Cultural Ekhano Sa Miravo com sede nas instalações do Museu Nacional de Etnologia.

Com o surgimento dessa agremiação, o grupo ficou mais coeso e unido, passando a realizar actividades teatrais – nas quais Lidénio é actor – para disseminar mensagens sobre o combate ao HIV/SIDA em defesa da vida.

Com a evolução dos Radical Dance, os sonhos de Lidénio tornam-se fecundos. “Gostaria de ser um grande actor de teatro”, refere ao mesmo tempo que se congratula pelo facto de – nalgumas peças teatrais da sua agremiação – ser protagonista. “Estou seguro de que um dia concretizarei o meu sonho”.

O batuque, a timbila, a marimba e o chocalho têm sido os instrumentos mais utilizados pelo grupo nas suas actuações. Aliás, de acordo com Lidénio, é nas sonoridades produzidas por essas ferramentas que a (sua) satisfação de um artista em concerto se concretiza: “Quando estou no palco sinto-me como se estivesse no paraíso. Esqueço todos os problemas que se encontram na minha mente, perco a vergonha e envolvo-me nessa manifestação artístico- cultural”.

O envolvimento de Lidénio na dança é profundo de tal sorte que o artista revela que, por e para ela, é capaz de abrir mão de um emprego bom se a condição for abdicar da arte. O que moveria um homem a manifestar tal comportamento? Ao que tudo indica há razões sublimes.

“Apostei nas danças tradicionais porque notei que na sociedade actual, a maior parte dos jovens moçambicanos está a deixar esse movimento cultural morrer. Por isso, pretendo resgatar parte importante da nossa cultura através da dança”, diz ao mesmo tempo que especula que “os jovens sentem de praticar essa expressão artística porque pensam que se trata de algo ultrapassado”.

É por essa razão que Lidénio afirma que, a par de todas as virtudes que as danças tradicionais nacionais possuem, ele quer demonstrar através delas a possibilidade de explorá-las para lutar contra as dificuldades da vida.

Entretanto, diga-se, na região norte do país o grupo de Lidénio pratica a dança tradicional Insiripuithi e as relacionadas com a música Vumba. Do sul de Moçambique, a Marrabenta não é excluída pela Associação Cultural Ekhano Sa Miravo. O grupo está a ensaiar a Rumba, outra dança praticada na Zambézia e em Nampula.

Os planos da colectividade – sobretudo, a inclusão no seu reportório de novas modalidades de dança, com enfoque para o Mapiko (do planalto da Moeda) – são obstruídos por falta de instrumentos musicais. É essa a realidade que influencia de forma negativa as suas actividades. Além de que, desde a sua fundação, a colectividade nunca beneficiou de apoio financeiro de nenhuma entidade.

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