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Putin está pronto para invadir Ucrânia e as tropas tomam a Crimeia

O presidente russo, Vladimir Putin, pediu e conseguiu, este sábado (1), a aprovação do seu Parlamento para invadir a Ucrânia, onde as suas tropas aparentemente já tomaram a península da Crimeia, rejeitando apelos ocidentais para contenção.

As conversas sobre confronto ou guerra total espalharam-se rapidamente por toda a Ucrânia, com os manifestantes pró-Moscovo a levantarem a bandeira da Rússia nos prédios do governo em várias cidades e os políticos antirussos a pedirem mobilização.

O primeiro-ministro da Ucrânia, Arseniy Yatseniuk, disse que uma intervenção militar russa levaria à guerra e ao fim de qualquer relação com Moscovo. Ele pediu uma solução política. A afirmação aberta de Putin sobre o direito de enviar tropas para um país de 46 milhões de habitantes na Europa Central criou o maior impasse entre a Rússia e o Ocidente desde a Guerra Fria.

A medida também rejeita o apelo de líderes ocidentais por uma não intervenção russa, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que na véspera pronunciou um discurso transmitido pela televisão para avisar Moscovo das consequências de uma eventual acção.

Tropas sem identificação, mas claramente russas – algumas em veículos com placas registadas na Rússia – já tomaram a Crimeia, uma península isolada no Mar Negro onde Moscovo tem uma base militar. As novas autoridades de Kiev não têm sido capazes de intervir na região.

O Ocidente pediu uma resposta, mas até agora isso tem sido limitado a palavras de raiva de Washington e seus aliados europeus. Uma autoridade dos EUA disse que o secretário de Defesa norte-americano, Chuck Hagel, conversou com o seu homólogo russo, Sergei Shoigu.

O funcionário disse que não houve mudança de postura militar dos EUA. A chefe de Relações Exteriores da União Europeia, Catherine Ashton, afirmou que a aprovação russa para o uso da força na Ucrânia representava uma escalada injustificada e exortou Moscovo a não enviar tropas ao país vizinho.

Da Suécia, o chanceler Carl Bildt disse que a acção russa era “claramente contra a lei internacional”. O presidente tcheco, Milos Zeman, lembrou a invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968.

“Necessidade urgente de alívio (da tensão) na Crimeia”, pediu o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), Anders Fogh Rasmussen, em mensagem no Twitter.

“Os aliados da NATO continuam a acompanhar de perto.” A Grã-Bretanha convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas para este sábado com o objectivo de discutir os acontecimentos na Ucrânia.

Putin pediu ao Parlamento para aprovar o uso da força “em conexão com a situação extraordinária na Ucrânia, a ameaça à vida dos cidadãos da Federação Russa, os nossos compatriotas” e para proteger a Frota do Mar Negro na Crimeia. A Câmara Alta rapidamente aprovou o pedido de forma unânime numa votação que foi transmitida pela TV.

A autorização durará “até a normalização da situação sociopolítica no país”, disse Putin no seu pedido. A sua justificativa – a necessidade de proteger os cidadãos russos – era a mesma que ele usou para lançar uma invasão da Geórgia, onde as forças russas tomaram duas regiões separatistas e reconheceram-nas como independentes em 2008.

Até agora não houve nenhum sinal de acção militar russa na Ucrânia para além da Crimeia, a única parte do país com uma maioria étnica russa, que em muitas vezes expressou intenções separatistas. Enquanto a tensão aumentava neste sábado, as manifestações tornaram-se violentas nas cidades do leste, onde a maioria das pessoas, embora etnicamente ucraniana, fala russo, e muitas apoiam Moscovo e o presidente deposto Viktor Yanukovich.

“A guerra chegou”

Apesar de não haver dúvidas de que as tropas não identificadas que já tomaram a Crimeia sejam russas, o Kremlin ainda não confirmou abertamente. Um porta-voz do governo russo disse que Putin ainda não tinha decidido sobre a intervenção e que ainda esperava evitar uma nova escalada.

O ritmo acelerado dos acontecimentos abalou os novos líderes da Ucrânia, que tomaram o poder num país à beira da falência quando Yanukovich fugiu de Kiev na semana passada depois de a polícia matar dezenas de manifestantes da oposição na capital do país.

A crise na Ucrânia começou em Novembro do ano passado, quando Yanukovich, sob pressão de Moscovo, desistiu de assinar um pacto de livre comércio com a UE para estreitar os laços com a Rússia.  Depois do anúncio do pedido de Putin para intervir, o presidente interino da Ucrânia, Oleksander Turchynov, convocou uma reunião dos seus chefes de segurança.

Vitaly Klitschko, outro líder da oposição, pediu uma mobilização geral. Na Praça da Independência de Kiev, onde os manifestantes acamparam durante meses em protesto contra Yanukovich, um filme de Segunda Guerra Mundial sobre a Crimeia era exibido numa tela gigante.

O ex-ministro do Interior Yuri Lutsenko interrompeu para anunciar: “A guerra chegou.” Na Crimeia em si, a chegada das tropas foi aplaudida pela maioria russa. Na cidade costeira de Balaclava, as famílias posaram para fotos com os soldados.

“Eu quero viver com a Rússia. Eu quero me juntar à Rússia”, disse Alla Batura, de 71 anos, que viveu em Sebastopol por 50 anos. “Eles são bons… estão a proteger-nos, assim sentimos-nos seguros.”

Mas nem todo mundo estava tranquilo. Inna, balconista de 21 anos, disse: “Estou em estado de choque. Não entendo o que diabos é isso… As pessoas dizem que eles vieram aqui para protegerem-nos. Quem sabe?”

Para muitos na Ucrânia, a perspectiva de um conflito militar era arrepiante. “Quando um eslavo luta contra outro eslavo, o resultado é devastador”, disse Natalia Kuharchuk, uma contadora em Kiev. “Que Deus nos salve.”

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