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Peças de roupa a leilão nos mercados informais

Peças de roupa a leilão nos mercados informais

Nos principais mercados informais de Nampula, peças de vestuário usado, conhecidas por roupa de calamidade, são vendidas numa espécie de leilão popular, onde o comprador espera pelo lote menor para arrematar. Trata-se de uma forma invulgar que os vendedores encontraram para ganhar uns meticais a mais e desfazerem-se do fardo em menos de um dia.

Um pouco por todos os mercados informais de Nampula o cenário é quase o mesmo: um aglomerado de gente sobressai ao olhos. No centro, um jovem levanta uma peça de roupa e, de seguida, diz o preço aos berros. A primeira impressão é de que se trata de uma mera estratégia de venda, mas, quando nos aproximamos, percebemos que é uma forma diferente de ganhar a vida.

Faltam 10 minutos para as oitos da manhã. Na Cavalaria, um dos maiores mercados de venda de roupa usada na cidade de Nampula, Castro Nacurima, de 26 anos de idade, abre o seu fardo de roupa e vai gritando: “Leilão! Leilão! Leilão!”. Em pouco menos de cinco minutos, uma multidão aproxima-se, até porque se trata de uma oportunidade para obter vestuário a preço acessível.

Com dois ajudantes estrategicamente implantados no meio da multidão, Castro começa com o leilão. A modalidade de venda é feita de forma diferente da de uma arrematação comum. O “leiloeiro” estipula um valor inicial e vai reduzindo. Assim que o lote de interesse da pessoa for anunciado, ela levanta a mão.

Castro retira do saco uma blusa, olha para ela e dita o preço. “Quem leva esta blusa a 35 meticais?”, grita. Ninguém mostra interesse. Reduz o valor para 30, mas os compradores continuam indiferentes. Quando o custo da peça diminui para 20 meticais, três pessoas levantam a mão. Mas apenas uma pode levar para casa. Aliás, assim como num leilão tradicional, quando existe mais de um interessado no mesmo lote, inicia- -se uma disputa.

Entretanto, Castro sobe o preço para 22. Uma mulher, entre a gentia, alça os braços, outra mais ao meio da multidão oferece 25 meticais e o vendedor lança a blusa para a senhora. “Vendido”, diz o jovem. Um dos ajudantes aproxima-se e recolhe o dinheiro. Porém, o comprador tem a prerrogativa de devolver a peça de roupa caso não esteja satisfeito.

O preço é definido na altura e varia de acordo com o estado e a qualidade do vestuário. “Observo a roupa, avalio o valor máximo e vou diminuindo até alguém interessar-se”, conta.

Castro pertence a um grupo de vendedores que optou por uma maneira diferente de comercializar roupa usada. Até porque se trata de uma forma simples e rápida de fazer negócio. Tem sido assim quase todos os dias. “Isto permite-nos ‘despachar’ o fardo em menos de uma semana e ganhar mais do que o normal. Mas, às vezes, saímos a perder”, afirma.

Ao fim do meio-dia, o jovem e os seus ajudantes tinham quase metade do fardo vendido, o que lhes permitiu amealhar 1895 meticais, aproximadamente 80 porcento do custo de aquisição da carga. “Amanhã continuamos. E é provável que consigamos vender toda a roupa”, adianta.

Um fardo de roupa usada custa entre 2500 e três mil meticais. Optando pelo negócio tradicional, os vendedores obtêm até quatro mil, ao fim de três semanas ou um mês, ao passo que optando pela estratégia de leilão, é possível amealhar entre quatro e cinco mil meticais em pouco menos de uma semana.

Preços acessíveis

Esta modalidade de venda tornou-se numa solução para as famílias de baixa renda obterem o maior número de peças de roupa a preços acessíveis. Grande parte, senão todos, dos entusiastas deste tipo de leilão é oriunda dos bairros periféricos da cidade. Helena Salimo, de 31 anos de idade, é uma das muitas mulheres que recorrem a essa prática.

Residente no bairro de Mutauanha, Helena arrematou sete peças de roupa (três blusas, um vestido, uma calça e dois calções para crianças) por menos de 150 meticais. “Sempre optei por esta forma de comprar roupa porque sai mais em conta. Hoje consegui boa roupa a preço acessível”, comenta.

A mesma sorte não teve Angelina da Fonseca, de 29 anos de idade. Residente do bairro de Namutequeliua, ela levava 200 meticais para adquirir roupa para os seus filhos. “Não consegui nada de jeito, apenas comprei duas saias e uma camisa”, lamenta e acrescenta: “Mas nem sempre tem sido assim”.

Arrematar para revender

Nem todos adquirem roupa em leilão popular para uso pessoal. Muitos jovens vendedores ambulantes arrematam algumas peças para revender.

Joel Anibal, de 27 anos de idade, arremata para revender pelas artérias da urbe. É vendedor ambulante há cinco anos. “Não tenho dinheiro para adquirir um fardo, por isso compro roupa nos leilões e vou vender na cidade”, diz.

Esta tem sido a solução da maioria dos pequenos vendedores ambulantes de ganhar o sustento diário, uma actividade que eles consideram “bastante rentável”. “Tenho tido uma boa margem de lucros. Por exemplo, obtenho uma camisa por 25 meticais e vendo a 50”, afirma.

Aníbal investe 500 meticais nesta actividade e, ao fim de cada semana, amealha, em média, 800 meticais. “Graças a este negócio, garanto o sustento da minha família”, diz a terminar.

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