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Passageiros morrem cada vez menos em acidentes aéreos

Passageiros morrem cada vez menos em acidentes aéreos

Uns senhores esbracejam lá à frente e outros fazem o mesmo lá atrás. Os gestos são universais, já ninguém os ouve, só mesmo os “marinheiros” de primeira viagem. Aqueles que acalentam um certo – muito – receio de voar, vão encolhendo os ombros: “Sim, está bem, depois de esmigalhada e incinerada, não haverá uma migalha do meu defunto cérebro que se vá lembrar por onde são as saídas de emergência.

Mas; afinal, parece que a informação pode até revelar-se útil. Nos últimos tempos, sucederam-se casos de desastres de avião em que ainda houve muita gente para quem as monótonas instruções do pessoal de bordo serviram para alguma coisa. Sair pelo próprio pé de um avião estraçalhado no chão ou no mar parece já não ser impossível. O que mudou?

Normas, muitas normas, dizem os especialistas. A aviação é um sector muito regulado, onde tudo passa por uma fina peneira, desde o tecido das cadeiras ao piloto. Mas há mais que isso. Muito repousa na resposta da tecnologia, nos materiais, na redundância dos sistemas, na crescente informatização. É também no treino do pessoal de voo.

É claro que também há alguma sorte, pois o engenho humano não resolve todos os imprevistos. Um ‘ exemplo? Vamos ao último: o avião da Turkish Airlines que se partiu em três na Holanda beneficiou de vários factores para conseguir preservar a vida dos seus passageiros. Além dos sistemas de segurança, o facto de estar no fim da viagem, com pouco combustivel, poderá ter contribuído para que não ardesse. Mas talvez não tenha sido só isso.

O Boeing aterrou em terreno fofo, húmido. Se tivesse embatido em brita ou alcatrão, com as faíscas que provavelmente saltariam com o atrito destes materiais com a fuselagem, teria continuado incólume às chamas? Não se sabe, mas este é um dos tais pormenores imponderáveis que pode mudar todo um desfecho.

Novos materiais

Já todos ouviram que andar de avião é várias vezes mais seguro que andar de carro. Certo, ninguém duvida. Mas o que perturba é pensar que basta um, porque esse não dá qualquer hipótese de se sair de lá de dentro em algum estado que se aproveite. Este grande argumento dos aterrorizados de voar surge abalado com tanta taxa de sobrevivência. Então agora já se pode ter um desastre de avião e continuar por cá para contar como foi o susto?

“A maior parte dos acidentes não são mortíferos, mas esses são menos mediáticos” , assegura Helena Patrocínio, do Sindicato Nacional de Pessoal de Voo da Aviação Civil. Segundo as últimas estatísticas da Agência Europeia para a Segurança da Aviação, desde 1945 que as mortes de passageiros de aviões caíram de cinco por cada 100 milhões de milhas voadas para 0,014.

A contribuir para estes números está também a queda abrupta do número de acidentes de avião. Desde o primeiro fatal de que há registo – o de Orville Wright a 17 de Setembro de 1908, passaram-se 100 anos de investimento na segurança da aviação comercial.

“A aviação ainda é um transporte recente que continua em constante desenvolvimento, a evolução tem sido brutal e deram-se grandes saltos sobretudo nas duas grandes guerras”, diz o comandante Cruz dos Santos, da Associação dos Pilotos Portugueses de Linha Aérea. Hoje há novos materiais que permitern que, em caso de embate, a Absorção da energia seja distribuída de forma uniforme, preservando a estrutura para proteger os passageiros. “Surgiram os ateriais compósitos – a Boieng está agora a usá-los em toda a fuselagem e asas quando antes ezram utilizados apenas em algumas partes”, adianta o piloto.

Estes materiais, que contêm fibras, explica, substituem as ligas metálicas e permitem que as aeronaves, além de ficarem mais leves poupando combustível, consigam resistir melhor aos

choques. “Nem tudo é perfeito, há ainda muito a descobrir pois há problemas a resolver, mas trata-se de saltos tecnológicos que têm feito muito para melhorar a segurança”, adianta.

Um dos grandes golpes fatais dos acidentes é o fogo, alimentado pelo combustível. “O problema é haver uma fonte de ignição por isso, quando se dá um embate, os motores saltam pois são eles que funcionam como um fósforo”, diz Cruz dos Santos. E, de facto, não há imagem de desastre de avião em que não aparece o motor a alguma distância da aeronave.

Restam as faíscas provocadas pelo atrito do avião com o chão. “Utilizam-se materiais menos combustíveis”, diz Victor Fernandes, também piloto, que lembra que, em dez anos, o número de viagens aéreas duplicou mas o número de acidentes caiu e muitos apresentam elevadas taxas de sobrevivência.

“Aprende-se muito com a experiência que se recolhe dos acidentes e a indústria de construção incorpora essas lições” , explica.

Mas o segredo não está só nos materiais. Está também na vigilância. “Tem-se investido muito na segurança aérea mas há também uma grande atenção por parte das autoridades que regulam o sector” , adianta o tenente-coronel Fernando dos Reis, do Gabinete de Investigação de Acidentes e Incidentes.

‘Aprende-se muito com a experiência que se recolhe dos acidentes e a indústria de construção incorpora essas lições” explica o piloto Victor Fernandes

O segredo está em todos os . detalhes: na construção, na atenção à meteorologia, na escolha dos materiais, na formação dos pilotos e das hospedeiras e comissários de bordo, nos sistemas de navegação, na constante vigilância. Na aprendizagem com os erros.

E na peneira, a tal peneira que testa e volta a testar todos os detalhes. Que não permite que o pano das éadeiras liberte materiais tóxicos ou que os pilotos ultrapassem mínimos de segurança.

“Há um constante controlo de qualidade de toda a estrutura, tanto material como humana, tanto a montante como a jusante” , adianta Victor Fernandes.

É uma obsessão por segurança, transversal a toda a indústria, que assiste perplexa aos receios com que muitos a encaram. Porque apesar das boas performances,

das fantásticas estatísticas quando comparadas aos acidentes rodoviários, permanece a ansiedade. “Porque voar não é natural, quando se olha para aquela máquina enorme no ar pensamos que o natural é vir parar cá abaixo”, explica Cruz dos Santos. A que acresce a impotência: “Não estou ao volante, não percebo o que são aqueles barulhos todos, só me resta gritar” , exemplifica.

Mas tranquiliza: “á avião é uma máquina altamente fiável, protegida por sistemas redundantes – quando falha um, ainda resta outro , e toda a indústria é totalmente regulamentada e regulada.” E insiste: “Num carro, quando penso que controlo tudo, esqueço-me de que há centenas de assassinos – bêbados, cansados, inconscientes ou simplesmente inábeis – que me rodeiam.”

 

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