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Parque dos Continuadores: Um novo centro de “boladas” de Maputo

Está instalado o braço-de-ferro entre a Federação Moçambicana de Atletismo (FMA), a Associação de Atletismo da Cidade de Maputo (AACM) e a empresa Equip. Limitada, propriedade de Rui Tadeu, um antigo dirigente desportivo. Em causa está a gestão do Parque dos Continuadores, uma infra- -estrutura que perdeu o seu valor desportivo, passando agora a funcionar como um centro de negócios chorudos.

 

A 05 de Agosto de 2011, o Tribunal Administrativo ratificou um contrato de concessão do Parque dos Continuadores, válido por cinco anos, entre o Fundo de Promoção Desportiva(FPD), uma instituição pública subordinada ao Ministério da Juventude e Desportos e a empresa privada Equip. Limitada, pertencente ao cidadão Rui Tadeu, um antigo dirigente desportivo moçambicano. No mesmo está estipulado que aquele recinto desportivo, a partir daquela data, passava à gestão privada, forma encontrada pelo Governo moçambicano de preservá-lo e protegê-lo, bem como de garantir uma forma de sustentar o atletismo.

 

No referido acordo entre o Governo e o gestor privado, dentre várias obrigações, ficou decidido que era da competência da Equip.Limitada: desenvolver todas as acções com vista à elaboração do Plano Director do Parque dos Continuadores, de acordo com a sua vocação desportiva e outras actividades económicas, sociais e culturais de interesse mútuo das partes contratantes; não usar os espaços e instalações do parque para fins diferentes do estabelecido na alínea anterior; conservar e proteger, fazendo uso prudente das instalações concedidas, assegurando a sua manutenção corrente; e garantir o uso privilegiado do Parque dos Continuadores à Federação Moçambicana de Atletismo e à Associação de Atletismo da Cidade de Maputo, no concernente à realização de treinos, provas nacionais e internacionais.

Todavia, o cenário que se vive no Parque dos Continuadores é completamente antagónico ao que se pretendia com a sua privatização, chegando a roçar o nível do inadmissível. Este facto não carece de nenhum exercício investigativo, senão de uma mera observação no local e ao conteúdo do referido contrato, ora resgatado nesta semana pelo @Verdade.

Aliás, foi com este propósito de avaliar o cumprimento do referido contrato que na Segunda-feira última (01), a nossa equipa de reportagem efectuou uma visita àquele recinto desportivo. E foi penoso ver a destruição de um famoso bastião do atletismo moçambicano, em detrimento do entretenimento e de outras actividades alheias ao conceito social.

O antagonismo entre o atletismo e a figura de Rui Tadeu

Como primeiro ponto a destacar, foi notória a ruptura de uma relação saudável entre a Federação Moçambicana de Atletismo (FMA), a Associação de Atletismo da Cidade de Maputo (AACM) e o próprio Rui Tadeu, entidades que funcionam no mesmo espaço mas de forma isolada e desarticulada.

Tudo tem origem na usurpação dos escritórios da AACM por parte de Rui Tadeu que, a posteriori, nos mesmos, montou um ginásio que, segundo o que o @Verdade apurou, é também de sua propriedade, cuja finalidade é meramente comercial não servindo, de forma alguma, o atletismo visto que os atletas que acedem àquele espaço são obrigados a pagar.

Todo o material que se encontrava nos escritórios da associação foi deixado ao relento. O resultado desse “despejo” forçado é que grande parte do mesmo ficou destruído, como é o caso das barreiras de corrida, dos colchões para exercícios físicos e de algumas varas de saltos. Improvisou-se, porém, para reduzir o impacto desse acto irresponsável, um escritório de dimensões exíguas que funciona como gabinete da presidente da AACM.

A sede da FMA também não escapou e viu parte da mesma a ser destruída para dar lugar à edificação de uma discoteca e de um bar que, segundo acusam alguns usuários do parque, na verdade, não passa de um prostíbulo. Mas pior do que é isso, é o facto de a empresa do Rui Tadeu vedar o acesso dos balneários aos atletas, em detrimento dos seus convidados especiais para os seus eventos.

Tadeu não ficou por aí. Tratou também de desalojar a Federação Moçambicana dos Desportos para Pessoas Deficientes, arrendando o espaço, conforme provam os anúncios colados à porta dos mesmos. A este organismo, Rui Tadeu não deu alternativas senão emitir um prazo para que encontre outro espaço, bem distante do Parque dos Continuadores. Rui Tadeu nunca, segundo apurou o @Verdade, apoiou, seja lá como fosse, o atletismo. Nem na organização de torneios, nem patrocinando os atletas, muitos dos quais cancelaram várias participações, quer nacionais, quer internacionais devido à falta de fundos.

Contudo, no que diz respeito aos projectos, os pontos exigidos pelo Fundo de Promoção Desportiva e que Rui Tadeu se predispôs a cumprir, no âmbito do que apelidou de “apoio institucional à modalidade de atletismo”, foram os seguintes: ceder espaço gratuito para treinos, para reuniões, para acções de formação; fornecer sinal de Internet aos seus escritórios; oferecer um computador e uma impressora à AACM; pagar juízes de provas de atletismo em todas as competições organizadas pela AACM; subsidiar a equipa que representa o Parque dos Continuadores nas competições nacionais e, por último, apoiar os atletas que se deslocam ao estrangeiro com vista à sua participação competições internacionais.

A destruição da pista e as “farras” de costume

Uma das obrigações que a empresa de Rui Tadeu tinha, quando em 2011 assumiu a gestão privada do Parque dos Continuadores, era de melhorar a pista de atletismo daquele recinto. Debalde. Vencido o prazo de 10 anos, desde que o tapete foi montado em meados de 1997, Rui Tadeu só desgastou ainda mais o pouco que sobrava para os treinos dos atletas.

Como? Através dos camiões de grande tonelagem que, no lugar de trazerem a boa nova aos praticantes da modalidade, invadem o parque nos dias de espectáculos promovidos por aquele empresário, junto de seus parceiros, tal como se deu quando o controverso empresário angolano Bento Kangamba veio realizar um evento naquele recinto. Sobre os eventos culturais, o @Verdade soube que, numa só noite, a empresa de Rui Tadeu chega a facturar perto de 50 000 dólares.

As vozes da indignação

No fim da visita, o @Verdade falou com os responsáveis da Federação Moçambicana de Atletismo (FMA) e da Associação de Atletismo da Cidade de Maputo (AACM), como forma de perceber o que se está a passar no Parque dos Continuadores.

Telmo Mascarenhas, director técnico da FMA

“Este problema não pode ser visto de forma isolada. É preciso contextualizá-lo desde o ano 2000, aquando das cheias que devastaram o campo do Costa do Sol. Aquele clube, na altura dirigido por Rui Tadeu, solicitou o uso do Parque dos Continuadores para treinos da sua equipa principal e, por solidariedade, houve anuência por parte do Ministério da Juventude e Desportos.

Todavia, se calhar porque a ganância falou mais alto do que o homem, ele demonstrou vontade de se apoderar do parque. Porém, encontrou uma forte oposição da nossa federação. No nosso entender, por esta razão histórica, não se pode dizer, em nenhum momento, que ele esteja a cumprir com alguma directiva do Fundo Promoção Desportiva (FPD). Pelo contrário, ele terá influenciado aquele organismo a ceder-lhe o espaço, na esperança de ver o parque bem gerido e, dessa forma, ver o atletismo a evoluir.

No entanto, até ao momento, volvidos três anos, esta privatização não nos beneficiou em nada. Trouxe-nos mais problemas e, como federação, não podemos fazer nada senão obedecer ao que foi acordado entre o Ministério da Juventude e Desportos e o próprio Rui Tadeu. Os negócios aqui instalados lucram milhões e milhões mas, para o atletismo, conforme rege o contrato, não se direcciona um tostão sequer”.

Ludovina Vasconcelos, presidente da AACM

“É muito triste o que se assiste aqui. O que acontece é que há uma tendência de se acabar definitivamente com o atletismo neste local. Senão repare: primeiro retiraram-nos o armazém; em seguida os nossos escritórios e, agora, tudo fazem para danificar por completo a pista com os camiões, sem contar com as taxas que nos cobravam para a utilização deste parque.

O mais estranho nisto é que, muito recentemente, recebemos um despacho que diz que devíamos utilizar o Estádio Nacional do Zimpeto (ENZ), mas, quando lá chegámos, deparámos com outras condições, em que fomos obrigados a pagar uma taxa elevadíssima pelo uso, enquanto temos uma casa aqui.

Além do mais, o ENZ fica muito longe e para lá chegar, treinar e voltar, o atleta tem de despender cerca de seis horas por dia, contra apenas duas aqui no Parque dos Continuadores. Todo este cenário em volta deste recinto assombrou o atletismo na cidade de Maputo, onde perdemos 50% do total de praticantes da modalidade”.

Rui Tadeu responde

O @Verdade quis também ouvir a versão de Rui Tadeu, apontado como o verdadeiro culpado de todo este panorama caótico que se instalou no Parque dos Continuadores. Para começar, Tadeu explicou os contornos do contrato, tendo feito questão de lembrar que o Parque dos Continuadores é propriedade do Fundo de Promoção Desportiva, instituição que em 2011 contratou a sua empresa, a Equip.

Limitada, para administrar o recinto devido à sua iminente destruição. Rui Tadeu, por sua vez, na qualidade de sócio-gerente da concessionária, tinha por obrigação apresentar uma proposta para uma gestão saudável do património, incluindo a componente comercial para sustentar o atletismo.

“O FPD aprovou o projecto e deu- -nos cinco anos para cuidar deste parque” concluiu a fonte. Confrontado com os factos ora narrados neste artigo, Tadeu declarou não existir nada de anormal no recinto e que tudo o que se faz tem em vista arrecadar mais fundos para apoiar o atletismo, até porque ainda faltam dois anos para o cumprimento do contrato. “Tudo o que fazemos é para melhorar este espaço. É preciso perceber que nós recebemo-lo assim das mãos do Governo, nem pior, nem melhor. Estamos a fazer o nosso trabalho”, sentenciou.

No entanto, sobre as acusações que pesam contra si, como o responsável pela destruição do Parque dos Continuadores, Rui Tadeu respondeu: “tudo isso não passa de uma campanha para manchar o meu nome em público, levada a cabo por algumas pessoas de má-fé. Tudo isso que se diz sobre mim é absolutamente falso”.

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