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Pancho Guedes: arquitectura e mundivivências pessoais

Um humanista, observador, pintor e escultor de edifícios. São algumas das palavras que os amigos e pessoas mais próximas usam para descrever Amâncio d’Alpoim Miranda Guedes, ou simplesmente Pancho Guedes, o arquitecto que concretizou a construção de perto de 400 edifícios dos 700 projectados em Moçambique.

“Sem a mão enfeitiçada do arquitecto Pancho Guedes nunca teria sido iluminado nestes caminhos incertos da vida”. Estas palavras, que se podem ler a dada altura no catálogo da exposição “Pancho Guedes – a aventura da arquitectura, o desafio ao formalismo”, são do pintor Malangatana que foi descoberto pelo arquitecto na década de ‘60. Na mesa redonda sob o tema “Pancho Guedes e Maputo: arquitectura e mundivivências pessoais” que teve lugar no Consulado Geral de Portugal, no passado dia 8, o conceituado pintor moçambicano falou da convivência, mas também não poupou elogios àquele que considera o seu mestre:

“É um humanista e observador que deve ser aproveitado como antropólogo”, sugeriu. Malangatana comentou que as assimetrias que existiam na época colonial entre a zona de caniço e a de cimento preocupavam sobremaneira o arquitecto, o que o levou a publicar um artigo no qual denunciava a falta de condições básicas de higiene e habitabilidade na periferia da então Lourenço Marques, tendo recebido diversas críticas. “Ele preocupava-se com a cidade de caniço e queria torná-la de cimento”, disse. Pancho Guedes tinha a ideia de criar uma cidade unificada, mas por falta de recursos não chegou a concretizar todos os seus projectos. Ainda de acordo com Malangatana, Pancho Guedes era um homem apaixonado pelos objectos de escultura ligados à cultura africana, ou seja, integrava-se seriamente na cultura e o reflexo disso via-se nas suas obras.

“Pancho Guedes apresentou- me a Eduardo C. Mondlane a quem pedi que me levasse para os Estados Unidos e ele recusou-se. Guedes ficou muito contente e hoje percebo o porquê de tanta alegria, afinal, ele e Mondlane não queriam que eu sofresse influências externas”. Segundo o escritor moçambicano Luís Bernardo Honwana, quando Pancho Guedes se fazia presente nas manifestações culturais na zona suburbana procurava uma identificação e estabelecia com os residentes uma relação de igualdade numa época em que a convivência era condicionada pela cor da pele.

“O arquitecto Miranda Guedes vivia a pensar e a desenhar um projecto para cidade de caniço”, comentou Honwana e também afirmou que Guedes e Mondlane apoiaram a formação académica de muitos moçambicanos, os quais hoje estão à frente do destino deste país. Para o arquitecto José Forjaz, Guedes é uma pessoa culta e o seu interesse pela cultura moçambicana era tão forte que o levou a criar estímulos necessários para reproduzir o que via. E, segundo Alda Costa, o seu sonho era tornar-se pintor, porém, a sua mãe o desencorajou afirmando que a pintura não era uma profissão. Contudo, ele viu na arquitectura uma forma de expressar o pintor e escultor que havia nele.

O legado

Pancho deixou um enorme legado não somente em Moçambique mas também em Angola, África de Sul e Portugal. “O seu trabalho é de uma enorme dimensão e está espalhado por toda a cidade de Maputo”, disse o director da Faculdade de Arquitectura, o arquitecto Luís Lage, que acrescentou ainda que a exposição patente no Consulado Geral de Portugal em Maputo é apenas um gesto de reconhecimento pelo seu trabalho. “É uma retribuição pelo que ele fez para esta cidade e para o país”, disse. Pancho Guedes projectou residências, fábricas, templos e agências de bancos.

Dentre os templos que desenhou destacam-se a Igreja da Sagrada Família na Machava, Metodista Wesleyana, o Centro Anglicano e Igreja S. Cipriano em Chamamculo e também a catedral de palhota e uma escola clandestina de enfermagem construída com paus e palha. E das agências bancárias, pode-se ver a sua criatividade no edifício onde actualmente funciona a sede do Standard Bank. “É um património importante e que enriquece o país e deveria tirar-se proveito em termos de turismo”, observou a Cônsul Geral de Portugal, Graça Pereira, tendo ainda afirmado que há muita gente que vem a Moçambique apenas para apreciar as obras de Pancho Guedes.

“Vale a pena preservar este património, pois, o país só ganha com a preservação”, defendeu. A representante do Ministério da Cultura, Solange Macamo, afirmou que há muitas lições a tirar das obras de Pancho e elas devem ser exploradas com fins académicos, educativos e também turísticos. “É um orgulho, para nós moçambicanos, sabermos que temos obras de inestimável valor”, comentou, tendo de seguida elogiado: “ele é mais artista que arquitecto”. Por sua vez, o historiador Yussuf Adam disse que a Faculdade de Arquitectura deveria trabalhar para um reconhecimento académico porque ele deu uma grande contribuição para a cidade de Maputo.

“Deu oportunidade para aprender e desenvolver capacidades a várias pessoas. A maior parte das suas obras está neste país e faz parte da história”, disse Adam, que terminou afirmando que “Pancho Guedes pertence-nos e devemos reivindicá-lo”. Importa referir que a Faculdade de Arquitectura, em colaboração com o Concelho Municipal de Maputo estão a fazer uma inventariação das obras de Pancho Guedes.

Durante a mesa redonda enquadrada na exibição da exposição em tributo ao arquitecto, propôs-se-lhe a atribuição do título Doutor Honoris Causa, e anunciou-se o lançamento de um desdobrável de bolso com a lista das casas de Guedes em Maputo e a sua localização no mapa; lançamento de um concurso de fotografia sobre as casas; a passagem de um documentário de 30 minutos sobre o arquitecto e o lançamento de um site bilingue onde ficará alojada a exposição que está patente ao público desde 4 de Março e se prolongará por todo o mês de Abril.

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