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Panama Papers mostram que futuro do jornalismo está na colaboração

A colaboração entre veículos de comunicação é a melhor forma de fazer jornalismo investigativo no mundo moderno, disse em entrevista à Agência Efe Marina Walker Guevara, que coordenou os 400 jornalistas que revelaram os casos de corrupção ocultos nos chamados Panama Papers.

Guevara é a subdiretora do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), uma organização com sede em Washington integrada por 200 jornalistas de 65 países à qual o jornal alemão “Süddeutsche Zeitung” recorreu em busca de ajuda quando recebeu os documentos confidenciais do escritório Mossack Fonseca.

O divulgação de documentos da firma de advogados panamenha revelou a ocultação de propriedades de empresas inscritas em paraísos fiscais, activos, lucros e evasão de impostos por parte de chefes de Estado e de governo, políticos, empresários, atletas e artistas, entre outros.

“Dois jornalistas do ‘Süddeutsche Zeitung’ receberam os documentos e entraram em contacto com o ICIJ para que os ajudássemos a armar a repercussão internacional. Eles deram-se conta de que aquilo era maior que eles. O mesmo teria acontecido com 99% dos jornalistas que tivessem recebido um dado desta magnitude”, lembrou Guevara.

A direcção do ICIJ, que participou recentemente de um painel sobre jornalismo investigativo na Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA), activou sua rede mundial de profissionais após receber os mais de 11,5 milhões de documentos no ano passado.

A jornalista espanhola Mar Cabra, que dirige a equipe de análise de dados do ICIJ, foi a primeira a colocar mãos à obra. “Sem Mar Cabra, que é a editora de dados, nada disto teria sido possível. A ela e a sua equipe devemos o fato de que estes 11,5 milhões de documentos possam ser legíveis e compartilhados. Foi uma tarefa titânica”, contou Guevara, que acrescentou que muitos documentos estavam em formato PDF e não era possível fazer buscas neles.

Cabra e sua equipe “processaram os dados, os tornaram legíveis” e depois os disponibilizaram em uma “plataforma segura”, à qual puderam acessar jornalistas de diferentes países e fazer buscas “como se fosse o Google”, comparou Guevara.

A subdiretora do ICIJ coordenou 376 jornalistas de 109 veículos de comunicação em 76 países aos quais transmitiu a mensagem de que “para fazer um grande barulho, primeiro é preciso ter um grande silêncio”. E os jornalistas na rede mantiveram silêncio até 3 de Abril deste ano, quando foram publicados de forma simultânea os primeiros resultados da investigação sobre os Panama Papers.

“As repercussões foram globais, desde investigações criminais nos Estados Unidos da América e outros países até a renúncia de autoridades e iniciativas para que não se possa esconder quem é o dono de uma empresa, que em última instância é a base dos paraísos fiscais”, declarou Guevara, comemorando o fato de que estejam sendo dados passos “rumo a uma maior transparência”.

Nesse sentindo, Guevara disse crer que a colaboração entre veículos de comunicação é “a forma de fazer jornalismo investigativo no mundo moderno”.

“Fui a directora da orquestra, e para mim foi fundamental que a colaboração funcionasse e que funcionasse bem, que as pessoas se dessem bem, que não houvesse conflitos”, detalhou.

Os quase 400 jornalistas que fizeram parte da investigação se conectavam a uma espécie de sala de redacção digital na qual discutiam os passos a seguir.

“Tentei que os jornalistas fossem sentindo que, se eles forem os receptores do próximo vazamento, devem vir ao ICIJ ou uma rede similar para compartilhá-lo, porque se deram conta de que é a maneira que funciona melhor”, afirmou.

Além de fazer com que seus integrantes se “dessem bem”, Guevara destacou que seu objetivo foi que a rede trabalhasse de maneira eficiente para criar resultados e unir tudo em prol do bem comum.

Guevara e sua equipe no ICIJ exploram agora formas de utilizar a energia em sua rede global para fazer outras investigações que não envolvam só vazamentos, mas também dados públicos.

“A necessidade de contar melhor as histórias nos une, histórias que são globais, que são complexas, que requerem desse olhar que é multipaís, que é multilinguístico e que também necessita de diferentes habilidades”, reforçou.

A coordenadora dos Panama Papers ressaltou ainda que a união entre veículos de comunicação os fortalece, “porque os ricos e poderosos do mundo podem facilmente calar um veículo ou dois, mas quando são 109, todos juntos trabalhando o mesmo tema é outra coisa”.

“Podem tapar um buraco, mas há outros 100 buracos e outros 100 jornalistas que vão publicar a história, e isso mostra o poder do trabalho em equipe e da colaboração”, concluiu a subdiretora do ICIJ.

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