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Os mistérios de uma escola assombrada

Se quiserem ver o problema estancado, é preciso procurar um médico (tradicional) para fazer a purificação da escola, senão qualquer dia as estudantes podem cair de vez. Temos de pôr a Ciência de lado, porque existem certos fenómenos que não se podem interpretar cientificamente – Aurélio Morais, porta-voz da Associação de Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO).

Uma onda de desmaios que apenas ataca alunas está a agitar a Escola Secundária Quisse Mavota, um pacato estabelecimento dos arredores de Maputo, que atrai as atenções da Imprensa há uma semana, quando se registaram os primeiros casos. O director da escola, Artur Dombo, disse que até ao momento desmaiaram 15 estudantes, todos do sexo feminino.

Mas populares e a Imprensa falam em mais de 20 casos. Canais de televisão, repórteres de jornais e rádios, responsáveis do Ministério da Saúde, polícias, curandeiros e até deputados têm rumado à escola, à procura de uma explicação para o estranho fenómeno. Após os primeiros desmaios, começaram a correr várias versões sobre o acontecimento, mas a mais ouvida é a de que a escola foi erguida sobre um cemitério familiar da aristocracia tradicional da zona, “Os Magaia”.

“Os Magaia”, de acordo com essa versão, foram ignorados na cerimónia de pedido da bênção para o sucesso da construção da escola e estão irritados. Alguns relatos Julieta Bata, 17 anos, desmaiou há uma semana e relatou o seu caso nos seguintes termos: “Eu estava na sala e depois escutei um barulho nos meus ouvidos, parecia que alguém estava a gritar, dizendo coisas. Quando saí da sala já estava a perder ar, alguém me prendeu nos pés e comecei a fazer força, fiquei tonta, cai e não consegui lembrar de mais nada”.

Fátima Langa, 32 anos, que vende doces numa banca improvisada à entrada da escola, diz-se preocupada com a situação, em nome das mães que têm as suas filhas a estudar na “Quisse Mavota”. “Na quinta-feira, começaram os desmaios. Vi enfermeiros e pastores religiosos a entrar na escola”, disse Fátima Langa. Preocupado com a repercussão que os casos poderão ter na actividade lectiva, o director da escola garantiu que “as aulas estão a correr normalmente”.

O Ministério da Saúde prefere remeter explicações sobre o fenómeno para a próxima semana, depois de concluídos os exames às alunas. O pensamento da AMETRAMO Mas a Associação de Médicos Tradicionais de Moçambique (AMETRAMO) já tem uma explicação. Aurélio Morais, porta-voz, disse que tudo se deve a uma “reivindicação dos espíritos”, devido ao desrespeito das autoridades governamentais em relação às questões tradicionais.

“É preciso respeitar os locais onde sabemos que havia ossadas. Somos africanos, temos outras lógicas de funcionamento”, disse Aurélio Morais, médico tradicional. “Se quiserem ver o problema estancado, é preciso procurar um médico para fazer a purificação da escola”, senão qualquer dia as estudantes “podem cair de vez”, avisou. “Temos de pôr a Ciência de lado”, porque “existem certos fenómenos que não se podem interpretar cientificamente”, disse.

Questionado sobre o porquê de os desmaios ocorrerem somente nas alunas, Aurélio Morais referiu que “tem sido prática dos espíritos utilizarem as mulheres”. Apesar de alguns sociólogos e psicólogos admitirem que se trate de uma histeria colectiva, a socióloga Judite Chipenembe disse que “o desmaio é uma coisa física” e que não vê um factor social com peso suficiente que provoque a situação, defendendo antes que se façam exames à estrutura do edifício, para detectar eventuais produtos tóxicos, e também à alimentação usual das alunas.

A escola foi inaugurada em 2006 e o cemitério familiar, com nove campas, foi destruído no ano anterior. Em Junho e Julho de 2006 também já tinham ocorrido desmaios em série.

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