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“Os meus pais roubaram-me o futuro e hoje sou segunda esposa do homem que me retirou da escola” moçambicana forçada a casar com 11 anos e mãe desde os 12 anos de idade

“Os meus pais roubaram-me o futuro e hoje sou segunda esposa do homem que me retirou da escola” moçambicana forçada a casar com 11 anos e mãe desde os 12 anos de idade

No Moçambique real, fora das salas climatizadas onde decorrem os incontáveis seminários e outras reuniões, ignora-se o mal que os casamentos precoces, que são ilegais, causam na vida das raparigas como Rosinha que com apenas 11 anos de idade foi forçada a casar com um homem que tinha o dobro da sua idade. “Os meus pais roubaram-me o futuro e hoje sou a segunda esposa do homem que me retirou da escola, onde eu estava a me preparar para a vida” revela ao @Verdade a moçambicana que é mãe de três filhos, o primogénito já com seis anos de idade.

O ritual repete-se, quando as meninas têm o seu primeiro ciclo menstrual são levadas pelos pais para serem submetidas aos ritos de iniciação.

Destino idêntico teve Rosinha, tinha 11 anos de idade quando teve a sua primeira menstruação e recorda-se que assim que os seus progenitores souberam trataram rapidamente para que fosse levada a realizar os seus ritos, uma cerimónia tradicional comum entre moçambicanos originários das Regiões Centro e Norte e onde mulheres adultas ensinam as crianças, entre outras coisas, a respeitar os mais velhos, como tratar a casa e como cuidar do homem.

Após os ritos, os pais “disseram-me que tinha de casar, porque não havia mais condições para continuar a estudar”, revela ao @Verdade a agora jovem mãe que estudava na 5ª classe, corria o ano de 2009, na Escola Primária de Mutanapo, no distrito de Ribáuè, na província de Nampula.

O casamento prematuro é umas das principais causas das raparigas deixarem de ir à escola, “as taxas de desistência continuam em meninas, particularmente no Norte e Centro do país?” declarou na semana finda o ministro da Educação e Desenvolvimento Humano, Jorge Ferrão, no enésimo seminário sobre o assunto.

Estudos realizados pela Organização Não Governamental WLSA Moçambique concluíram existir uma relação entre os casamentos prematuros e os ritos de iniciação pois, “Durante os ritos são transmitidos às meninas conhecimentos sobre a relação sexual e a forma como devem comportar-se para agradar a um homem; Às meninas é ensinado que não devem ter medo dos homens e como devem agir quando lhes são entregues; O sexo das meninas é arroz e milho. Muitas famílias dizem às crianças, depois dos ritos que elas têm de comprar o material escolar e trazer comida para casa; As meninas aprendem a obedecer e a nunca dizerem não, quando o parceiro lhes pede sexo; e As meninas aprendem que o mais importante na vida é ter um marido e filhos”.

Em Ribáuè as uniões entre meninas e homens adultos acontecem sem haver necessidade de alguma contrapartida material ou financeira para a família de noiva ou mesma para ela, as raparigas são obrigadas a casar porque são consideradas mulheres, após os ritos, e para não perderem a oportunidade que surge quando um homem mostra o seu interesse em desposa-la.

“Era criança (11 anos) e o meu marido tinha 22 anos”

O casamento antes dos 18 anos de idade é proibido por Lei em Moçambique contudo a Lei da Família de 2004 admite, no número 2 do artigo 30, que a “mulher ou homem com mais de dezasseis anos, a título excepcional, pode contrair casamento, quando ocorram circunstâncias de reconhecido interesse público e familiar e houver consentimento dos pais ou dos legais representantes”.

Foto de Leonardo Gasolina“Era criança (11 anos) e o meu marido tinha 22 anos. Além da diferença de idade entre nós, ele já tinha experiência sexual”, conta Rosita que disse ter sofrido muito. “Nos primeiros dias foi muito duro. Sentia muitas dores na vagina, na hora de penetração e durante o acto sexual. Chorava de dores, mas o meu marido insistia”.

A nossa entrevistada confidenciou ter relatado o seu drama à sua mãe mas esta explicou-lhe que “era algo passageiro”.

Cerca de um ano após o início da união Rosita engravidou e tornou-se mãe de uma menina. Tinha 14 anos de idade quando deu à luz ao seu segundo filho e, com 16 anos, voltou a ser mãe.

Mas as crianças em vez de trazerem felicidade ao lar de Rosinha parece terem contribuído para o afastamento do seu companheiro que arranjou uma outra mulher, também menor de idade, que acabou por desposar e que mantém há quatro anos. “Eu não estou feliz pelo facto de ter que partilhar um homem”, lamenta a jovem mãe que não tem dúvidas quem são os responsáveis do seu calvário, “tudo por causa dos meus pais!”

“Ele (o marido) já não me dá atenção como antes. Fico aqui em casa durante noites só com crianças. Há vezes que penso que os meus pais fizeram mal ao me entregar aquele homem para casar. Sinto que devia ter continuado a estudar, se calhar não teria esta vida”, acredita.

“Com o passar do tempo, casei-me com outra mulher, sem ter que me separar da Rosinha”

A bigamia é crime em Moçambique porém as autoridades quase não aplicam o artigo 206 do Código Penal. O @Verdade falou com o marido da Rosinha, um jovem de 29 anos que interrompeu a 7ª classe e é camponês.

Segundo o jovem, que a seu pedido omitimos a identificação, a decisão de constituir família não foi sua mas foi pressionado pelos progenitores a encontrar uma mulher para se casar, alegadamente, porque já tinha idade para tal, não obstante ser ainda estudante e não possuir fontes de rendimento regular.

“Quando deixei de estudar por falta de condições, passei a fazer machambas. Na altura, cultivava milho e feijão cute. A maior parte da colheita vendia e o dinheiro comprava minha roupa. Depois tive que ceder a pressão dos meus pais e casei-me com a minha primeira mulher, Rosinha” relata o nosso entrevistado que reconhece ter uma segunda esposa. “Com o passar do tempo, casei-me com outra mulher, sem ter que me separar da Rosinha, porque gosto dela”.

“O que tenho feito é tentar repartir tudo por igual para as duas mulheres” afirma o jovem polígamo com naturalidade.

Já o pai de Rosita esclareceu ao @Verdade que ela foi a sua quarta filha a casar precocemente, “vivemos, desde há muito, assim. Fui casar-me com a minha mulher seguindo esta regra. Agora é que estamos a ouvir que não é uma boa prática. Tem havido reuniões e somos informados que devemos deixar as nossas filhas estudar”, declara Caetano dos Santos.

O ancião, que é camponês, pobre e além de Rosita teve outros dez filhos, reconheceu ao @Verdade ter errado ao forçar as suas filhas para casarem-se muito cedo e apelou aos outros pais para que evitem tal prática costumeira em Moçambique.

A esperança de Rosinha é que a menina dos seus olhos, que estuda a 1ª classe na Escola Primária de Mutanapo, não tenha o mesmo destino que o seu embora o seu esposo não dê primazia aos estudos e chegando até desencoraja-la.

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