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“Os meus pais não me aturam como actriz”

Sheila Nhachengo é uma das actrizes mais seguras que o Teatro Girassol possui. Apresenta o Festival do Teatro de Inverno – que este ano celebra a 10ª edição – há cinco anos. Para si, o teatro possui o sentido da vida. No entanto, no meio do seu percurso, há um constrangimento: “Os meus pais não me aturam como actriz”. Estuda Gestão Bancária e Financeira, mas, nos próximos anos, pode-se licenciar de novo em Teatro. Aparecer nos ecrãs, como apresentadora, é o seu sonho profundo. É pena que – em relação ao seu talento – a televisão moçambicana continua míope…

Quando Sheila Nhachengo, de 26 anos de idade, era aluna da 6ª classe, alguns dos seus colegas de escola – que pretendiam montar uma peça teatral – convidaram-na a interpretar o papel da protagonista da estória Uma Miúda Violentada pelos Pais.

Animada pela ideia, a potencial actriz – uma menina obediente – consultou os seus pais sobre o assunto. No entanto, agindo contra as suas expectativas, a sua resposta foi desfavorável – não. “E que no seu entender, eu devia centrar-me nos estudos porque o teatro era uma actividade realizada por pessoas marginais. Não prestava para nada. Na altura, compreendi que era mestre obedecer ao meu pai, mas ao mesmo tempo nasceu em mim uma irritação, um rancor por causa das limitações que se impunham”, considera ao mesmo tempo que argumenta que “eu queria sentir-me importante; estar no palco e impressionar a comunidade escolar”.

Em decorrência do episódio, Sheila Nhachengo – a protagonista de O Quarto, uma obra sobre a homossexualidade – revela que “comecei a perceber que, em parte, eu gostava da arte de representar e chamar a atenção das pessoas porque, basicamente, o papel do apresentador é esse. Ele é uma pessoa exemplar, em quem as demais se devem espelhar”.

Lutar por um sonho

O sonho de fazer teatro sempre acompanhou a vida de Sheila. Mas, em 2006, altura em que a actriz ingressa no Instituto Comercial de Maputo – onde conheceu o seu confrade, o actor Miló Eusébio – a primeira preocupação da actriz foi informar-se sobre a existência (ou não) de uma agremiação ou núcleo de estudantes na instituição. Afinal, devia dar prosseguimento à materialização da sua pretensão.

Na altura, o Festival de Teatro do Inverno – criado em 2003 – já possuía três anos. Miló fazia parte do Grupo de Teatro Girassol, mentor da iniciativa. A sua colectividade precisava de actrizes. E, dependendo da sua reacção ao convite – que foi favorável – Sheila podia ser uma delas.

“Como já há bastante tempo eu queria fazer teatro, não pensei duas vezes. Aceitei o convite. Para mim, naquela época, como não percebia as diferenças entre um grupo de teatro profissional e o amador, o Girassol pertencia à segunda categoria. Tratava-se de uma colectividade grande que realizava as suas actividades no Teatro Mapiko, da Casa Velha. Então, isso era muito importante”, recorda-se a actriz.

De uma ou de outra forma, o capítulo mais desafiador do enredo não foi aceitar o convite. Por essa razão, a actriz, que se iniciou no teatro com a peça Ciclo Vicioso, esclarece que “decidi enfrentar os meus pais. Disse, para mim, venha o que vier, eu vou fazer parte deste grupo”.

Um desamparo no lugar de apoio

Se até nos dias actuais – volvidos sete anos desde que contracenou em o Ciclo Vicioso – os seus familiares chamam Sheila por Cacilda, uma das personagens, o que na sua percepção é sintoma de que a experiência é inolvidável, de forma positiva. Por outro lado, a falta de apoio dos seus pais marcou-lhe pela negativa.

Esta peripécia merece um comentário de Sheila. Diz ela: “os meus pais não me conhecem em palco. Os dois são contra o teatro. Só o resto da família é que me apoia. Então, sem o estímulo dos meus progenitores que são as pessoas que mais importam na vida, sem o encorajamento de alguns amigos que não são amantes da cultura, fiquei um pouco sozinha. Houve vezes em que eu só me sentia bem quando estivesse no grupo”.

Num outro desenvolvimento, Sheila Nhachengo deixou – em nós – a impressão de que, de facto, a sua relação com o teatro advém das suas entranhas. “O meu pai é uma pessoa que não deixa os filhos fazerem nada de que ele não gosta. Portanto, a ideia de fazer teatro foi a primeira coisa em relação à qual eu consegui desobedecê-lo. Não obstante, até hoje, ele não convive pacificamente com o facto. Ele não quer que eu faça teatro, mas já aceita. Por isso ele nunca foi assistir a nenhuma das minhas actuações”.

Entretanto, ainda que a Associação Cultural Girassol tenha sido – nos primeiros anos da sua relação com as artes cénicas – o contexto que a confortava, sobre a sua inserção Sheila Nhachengo esboça uma observação peculiar.

“No grupo, algumas pessoas acolheram-me bem, outras não. O que sucede é que quando você é novo numa colectividade e, imediatamente, começa a ganhar algum destaque, há sempre quem não se contenta com a realidade. Por isso, só comecei a explorar o Grupo de Teatro Girassol alguns anos depois quando já me sentia segura. Ou seja, na altura em que eu já tinha a consciência de que sabia fazer teatro. Nessa ocasião, além de conhecimentos básicos, eu já tinha alguma autoconfiança”.

Afeição pela televisão

Sheila Nhachengo – que também participou na peça Onde Estavas?, uma história sobre os direitos humanos – admira a apresentadora de televisão brasileira, de programas infantis, Eliana. Em Moçambique, maravilhava-se com a naturalidade com que o malogrado Victor José apresentava os seus programas. Nisso encontra-se a génese da sua paixão – ainda não concretizada – pela televisão.

“Eles têm uma maneira muito espontânea e natural de apresentar, principalmente o Victor. Assistia aos seus programas e gostava imenso. Foi assim que eu comecei a dar conta de que amava a arte de representar/apresentar e de fazer algo que as pessoas vejam e gostem”.

Em certa ocasião, numa das actividades da Associação Cultural Girassol – realizadas nos bairros – que coincidiu com a data da celebração do seu aniversário, 01 de Abril, Sheila implorou para que o seu presente fosse a possibilidade de ser a apresentadora do programa. “Na altura, eu já ficava muito atenta ao que o Vaz Ponja – o primeiro apresentador das actividades da colectividade – fazia”, explica.

Assim, “nasceu a minha relação com a apresentação do Festival do Teatro de Inverno. Penso que se percebeu que eu tinha algum talento para o efeito, e propuseram-me para que apresentasse a IV edição do evento com o Vaz. No ano seguinte, ele começou a não ter tempo e deixou-me apresentar o evento sozinha”.

Por diversas razões, o autor destas linhas é uma pessoa que acompanha a carreira de Sheila Nhacheongo, incluindo o Festival do Teatro de Inverno. Como tal, se questionasse à actriz sobre se ela não tem o sonho de trabalhar – como apresentadora de programas – na televisão, não seria obra do acaso.

Sheila suporta um público, o do Teatro Mapiko da Casa velha, que é simplesmente barulhento. Aliás, sobre isso, ela observa: “não gosto desse palco! Aqui, na Casa Velha, as pessoas sentem-se íntimas em relação ao palco. Isso, associado ao facto de o local não possuir tecto, dá-lhes muita liberdade”.

É deste modo que a actriz – que faz um comentário verdadeiro – se esquiva da pergunta. Insistimos! Pensámos que tivesse alguma ambição em relação à televisão. Sheila (re)inventa gargalhadas.

Instala um silêncio e desabafa: “Tenho uma grande ambição! Mas acho que agora ela está a afrouxar porque o tempo está a passar, as ocupações a aumentar, a idade a evoluir. Começo a perceber que posso não ter tempo para trabalhar como tal. Mas confesso que tenho uma louca paixão por abraçar a área de apresentadora de televisão”.

Contracenar a peça O Quarto – com personagens e temática fortes, o que exigiu dela um grande esforço – valeu-lhe o amadurecimento e a conquista da segurança no palco.

Por isso, “assim que eu terminar a minha licenciatura na área de Gestão Financeira e Bancária, vou fazer outra – na Escola de Comunicação e Artes – em Teatro”, afirma Sheila, antes de sentenciar que “eu ainda acho que os apresentadores de televisão devem ser actores de teatro também”.

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