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“Os homens falharam na Zâmbia”

Edit Nawakwi, de 52 anos, rompeu várias barreiras na política de Zâmbia nas últimas duas décadas. A última foi converter-se na única mulher a disputar a presidência nas eleições de 20 de Setembro entre 15 candidatos.

Ela é muito conhecida no ambiente político. Em 1997, foi a primeira mulher à frente do Ministério das Finanças deste país da África subsaariana.

Edit e outros companheiros abandonaram o governante Movimento por uma Democracia Multipartidária em 2001, quando se opuseram à tentativa do Presidente Fredrick Chiluba (1943-2011) de se apresentar para um terceiro mandato.

Depois criaram o Fórum para um Desenvolvimento Democrático e Edit foi eleita vice-presidente. Em 2005, assumiu a sua presidência, sendo a primeira mulher a ocupar esse cargo num partido político.

IPS: O que tinha em mente quando decidiu pedir autorização para ser candidata à presidência?

EDIT NAWAKWI: Enquanto caminhava para a sala do presidente do tribunal perguntava-me: “porque faço isso? Sou boa para esta tarefa?”. Mas quando olhei para os meus partidários e vi o seu entusiasmo, aumentei a minha confiança. Creio que a Zâmbia está pronta para ter uma presidente. Apenas uma mulher pode gerar uma mudança real no país.

IPS: O que se pode fazer para mudar a mentalidade das pessoas, a percepção negativa e os estereótipos sobre as mulheres?

EN: Temos os mesmos direitos que os homens, e aspirar à presidência não deve ser excepção. Quando estive à frente do Ministério das Finanças, as pessoas faziam-me todo o tipo de perguntas negativas por ser mulher. Ocupei o cargo durante uma das fases mais difíceis da história do país, mas consegui conter a situação. Fui ministra das Finanças quando o país esteve na pior situação económica.

Recordo o dia em que tinha de pagar meio milhão de dólares e o Governo não tinha dinheiro. Tive de pedir emprestado a um dos nossos bancos comerciais. Procurávamos liberalizar a economia, mas o país não tinha entrada de divisas. Fui uma das privilegiadas que conseguiu instaurar um programa de ajuste estrutural.

A Libéria teve a melhor governante (Ellen Johnson Sirleaf) pós-confl ito e que conseguiu gerir a economia. Não se trata apenas da economia, mas também da atitude das pessoas. Estaremos muito melhor se África reconhecer que um dos seus maiores valores é constituído por mulheres. Veja o que ocorre na Líbia, Somália e todas as matanças. Quem toma as decisões? O instinto maternal não permitiria isso, como mães não permitiríamos.

IPS: A senhora é a única mulher a candidatar-se à presidência e a única à frente de um partido político na Zâmbia. É um sinal de que as mulheres não estão preparadas para o desafi o?

EN: Temos de começar por algo. Sou um produto do lobby feminino numa sociedade muito patriarcal como a nossa. É preciso mudar a mentalidade de que há certas coisas que as mulheres não podem fazer. Fui eleita presidente do meu partido de forma democrática numa convenção na qual competia com cinco homens e todos reconheceram que eu era melhor. Ao derrubar barreiras aparecem mais companheiras.

IPS: O que fará de diferente na campanha? EN: Nada, nem ninguém, me deterão agora. Creio que a Zâmbia só poderá ser salva por uma mulher e que o país está pronto para uma presidente. Muitos homens entraram em pânico quando souberam que me ia candidatar.

Trabalharei e actuarei como fiz quando era ministra. Os dirigentes actuais são da época da luta pela libertação. Precisamos de líderes do Século 21. Quando chegarmos ao governo, redigiremos uma Constituição que contemple os direitos de todas as pessoas, incluindo mulheres e deficientes.

IPS: Quais serão as principais políticas de sua plataforma eleitoral? EN: Pretendemos descentralizar os poderes económico e político, para que o nosso povo tenha possibilidades de decidir sobre o desenvolvimento. Acredito fervorosamente no poder que significa o povo para o país. A qualidade de vida é baixa, apesar de sermos um dos Estados mais ricos do mundo.

Não há uma iniciativa deliberada para colocar a população no centro da política económica. Isso porque temos um Governo centralizado desde a época da colónia, quando a distribuição de recursos acontecia como era feita na Grã-Bretanha, o que lamentavelmente gerou corrupção, porque a riqueza concentrou-se nas mãos de uns poucos.

Com a descentralização, até os membros do parlamento se interessarão em servir as populações locais porque para lá irão os recursos. As economias de maior êxito são assim.

IPS: Como pretende descentralizar a Zâmbia?

EN: Creio que pelo bem da responsabilidade e da transparência é necessário garantir que o planeamento proceda dos distritos. Gostaríamos que o ministro das Finanças proponha orçamentos para eles, que serão os encarregados de coordenar a distribuição dos recursos.

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