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Os dois cantaram e exaltaram a africanidade

Os dois cantaram e exaltaram a africanidade

Na verdade, era quase certo que, ao contrário do que aconteceu em Maio do ano em curso quando Salif Keita cancelou a sua participação no Festival AZGO, agendado para a cidade de Maputo, devido a problemas de saúde, desta vez, “A voz dourada de África” não falharia. Sete meses depois, Keita escalou o palco do Centro Cultural Universitário, na capital do país, num evento que contou com a participação do músico moçambicano Roberto Chitsondzo. Na noite de sexta-feira (14) os dois cantaram e exaltaram a (nossa) africanidade.

Aos tradicionalistas atentos, do centro e norte de Moçambique e, eventualmente, de outras partes do continente africano, a aparição de um pangolim numa determinada comunidade é tida como sinónimo de bênção. É sorte e prosperidade. O animal é mítico, pois a sua raridade e o seu formato físico pouco comum faz com que determinadas pessoas o estimem bastante.

Salif, um homem de pujança, querido por todos e, infelizmente, conhecido só por alguns, não difere deste bicho, diga-se, imaculado. De uma ou de outra forma, até o momento, lembramo-nos somente de duas actuações que o astro fez na Pérola do Índigo: a primeira foi em 2004 num show que teve lugar no Cine África e a segunda aconteceu na passada sexta-feira.

Na verdade, não se trata de uma comparação entre o pangolim e o músico maliano Salif Keita, mas a sua preciosidade e o afecto que conquistou dos seus fãs do mundo inteiro, devido à sua lírica e ao trabalho que tem desempenhado para ajudar pessoas da sua condição, levam-nos a recorrer aos mitos deste animal comum aos continentes asiático e africano. Mas, de qualquer modo, Salif é um homem exemplar, firme e sonhador.

Nascido em Djoliba, no Mali, a 25 de Agosto de 1949, Keita foi rejeitado pelo seu pai, devido à falta de pigmentação na pele, pois acredita-se que os albinos são pessoas de mau agoiro e têm poderes maléficos.

Atraso e má qualidade de som, dois pecados irremissíveis

O espectáculo que decorreu na última sexta-feira, em Maputo, é, de certa forma, uma revelação da irresponsabilidade que alguns produtores de eventos têm. O atraso e a má qualidade de som – dois pecados que, a cada dia, têm sido alvo dos organizadores de eventos de diversão na cidade de Maputo -, já deixam a desejar. Mas, ao que tudo indica, atrasar é quase uma doutrina, um costume que ninguém larga neste país. Por isso, mas acima de tudo pela necessidade de assistirmos à actuação de um dos consagrados músicos de África, senão do mundo, continuamos reféns desta maldição e, não obstante, permanecemos no local.

É, na verdade, preocupante que mesmo tratando-se de um visitante as pessoas persistam com alguns hábitos que, de certa forma, mancham a imagem do país e do respectivo povo. Afinal de contas, para quem é estrangeiro e se depara com esta situação fica claro que “os moçambicanos são irresponsáveis”. De certo modo, embora não seja sobre isso que queremos relatar, importa enaltecer que a actuação de Salif Keita estava marcada para iniciar às 19.30 horas e só arrancou uma hora depois, deixando o público acumulado na porta, fora da sala, durante mais de meia hora.

Além da falta do cumprimento do horário, os ruídos do som, devido, se calhar, à má ligação de feios das colunas ou de qualquer aparelho, preocuparam tanto o músico como as demais pessoas que para lá se dirigiram. A dado momento, enquanto actuava, Keita ficou surpreendido com falhas técnicas que se registavam na aparelhagem. No palco, para além do incómodo som, o medo tomava conta dos actuantes.

A primeira actuação foi de Roberto Chitsondzo

“É muito gratificante para qualquer um fazer parte de um concerto de Salif Keita. Em todo o mundo, poucos são os que têm o privilégio de partilhar o palco com este ícone da música africana”, disse Roberto Chitsondzo, depois da sua actuação. Com mais de meia hora de interpretação, Chitsondzo soube preparar o público e, em algumas vezes, tentou mostrar alguns passos de dança.

Não se pode negar que o filho de Gaza sabe dançar, mas preferimos falar da sua música que supera esta vertente. A lírica do vocalista de Ghorwane transcende a visão social. Diríamos que o artista é “omniatento”. Às vezes é religioso, apaixonado, defensor das mulheres, e noutras um homem incomum que não se prende a “coisas da terra”. Por exemplo, numa das músicas e por sinal novas do autor, em tsonga, Chitsondzo diz: “vieste ao mundo sem nada. Portanto, voltarás de mãos vazias”.

Nessa obra, o cantor de Massotcha fala dos indivíduos possessivos e materialistas. Em entrevista ao @Verdade o músico revelou-nos que a música faz parte do seu novo trabalho discográfico que, brevemente, estará nas prateleiras do país. Contudo, Chitsondzo disse estar satisfeito por estar a cantar e a partilhar o palco com Keita. E argumenta: “Pela sua condição física e pelo trabalho que vem desenvolvendo a nível de África, em particular, e do mundo, no geral, é, para nós, gratificante”.

O show de Keita

Sinceramente, para quem foi ao Centro Cultural Universitário com a mesma expectativa que a nossa ficou totalmente indignado. A verdade é que foram vários os motivos para que cada um reclamasse à sua maneira. Por exemplo, a falta de alguns membros da banda, como o baterista, o saxofonista e o trompetista, e o cansaço que visivelmente tomava a força da figura de cartaz foram os mais notáveis defeitos da actuação de Keita.

É triste, na verdade preocupante, este facto de não se poder ter a devida satisfação num evento preparado com pompa. Pior ainda quando o artista não se mostra realizado perante os seus fãs, pois o objectivo de alguns indivíduos que se fizeram ao local do espectáculo não era só ouvir as músicas, mas partilhar o momento único que os une. Não há sombra de dúvidas de que a presença de Salif Keita numa determinada região é sinónimo de satisfação e de muita honra. Mas se tentássemos analisar o show que teve lugar na sexta-feira, diríamos que Salif (não só ele) não foi sincero.

Embora fosse o meu primeiro concerto ao vivo de Keita, sem nenhum conhecimento sobre as suas exigências, quando o músico subiu no palco a fim de actuar constatamos a falta de alguns instrumentos necessário para a execução das suas melodias, diga-se de passagem, melancólicas. Por essa razão o artista viu-se obrigado a ter que utilizar uma técnica menos querida pelos apreciadores dos espectáculos ao vivo designado “playback”. Mas, ao que tudo indica, foi a única alternativa que teve para entreter os moçambicanos.

Na verdade, havia-se alinhado diversas músicas com temas interessantes, sobretudo porque a lírica das suas músicas não muda. Africa e Yamore, esta última gravada com a finada cantora cabo-verdiana Cesária Évora, foram os temas que melhor agitaram o público. É inquestionável a capacidade de cantar deste artista e das suas solistas, aliás das suas cantoras. Eles produzem uma música que é uma narrativa crescente que fascina e retrata a verdadeira face de África e do seu povo.

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