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Os diamantes de Namaacha

Os diamantes de Namaacha

Entre as rochosas montanhas que limitam Moçambique e Swazilândia, do lado de cá, em Namaacha vive Anunciação Machava, uma artista muito talentosa. A criadora receia que – da sua fraca actuação no sector – os seus dons desapareçam. Faltam-lhe estímulos, com enfoque para o patrocínio, para expor ao público as suas obras – a música e a moda.

Partindo do princípio de que quanto mais as pessoas crescem, em sentido proporcional, evoluem as suas necessidades, Anunciação Machava recorda-se de que o seu gosto pela música aumentou progressivamente, consoante o passar do tempo, desde que, aos oito anos de idade, começou a tocar uma viola de lata.

Na época, por influência dos seus irmãos mais velhos (um dos quais, Evandre Machava, considerado o músico mais talentoso no município de Namaacha), muito cedo, Anunciação abraçou a arte de cantar tendo, imediatamente, começado a ter alguma ideia do sofrimento que enfrentam os cantores na realização dos seus talentos e sonhos.

“Quando comecei a cantar solicitava aos meus irmãos que me ensinassem a tocar instrumentos musicais. No entanto, ninguém aceitava. Por isso, a partir daí, atrevi-me e segui o caminho de autodidacta. Sem nenhuma ideia sobre as dificuldades que o seguimento de uma carreira artístico-musical envolve, comecei a compor as minhas obras, até que – com o passar do tempo – me dei conta de que para expô-las ao público nunca seria fácil”, refere.

Presentemente, com 24 anos de idade, para além de manter um forte vínculo com as artes – a música e a moda – Anunciação é professora numa escola primária local do município de Namaacha. Dando espaço à concretização do seu sonho, além dos conteúdos curriculares – definidos pelo Estado moçambicano – esta instrutora dá maior enfoque a matérias relacionadas com as artes, à interpretação de composições e à utilização de instrumentos musicais. Embora Anunciação tenha conquistado e ampliado o seu espaço de acção na escola, a possibilidade de actuar perante o público – materializando o seu sonho de infância – ocorreu no Santuário Nossa Senhora de Fátima de Namaacha.

Nessa ocasião, a vocalista era membro do Grupo Coral da Igreja Católica. Foi com base na referida experiência que ela percebeu a necessidade de se profissionalizar na área da música. Como em Namaacha os artistas vivem um cenário de aparente esquecimento – por parte dos dirigentes do seu sector – o sonho de Anunciação virou pesadelo. Nos dias actuais, na tentativa de provar a sua competência a fim de criar as possibilidades de um dia actuar, no mesmo palco, com as estrelas que brilham na cidade de Maputo, de queda em queda, sem sucesso nenhum, a artista não desiste da batalha.

Embora triste e revoltada com a indiferença dos patrocinadores e dos defensores das artes e cultura no país – os quais, na sua opinião, sem exigir nada em troca, deviam apoiar o desenvolvimento desse sector – Anunciação mantém a esperança de um dia concretizar os seus sonhos aos mais alto nível. Anunciação é admiradora confessa da musicista Yolanda Chicane, da banda Kakana: “Aprecio o estilo de música Afro que ela faz”.

Definir prioridades

Agindo contra a sua vontade, impelida pela realidade em que se encontra, Anunciação Machava rendeu-se às dificuldades que enfrentou e acabou por colocar a música em segundo plano: “Eu tinha de encontrar algo para garantir a minha subsistência”. Entretanto, apesar de que a música deixou de fazer parte da sua agenda diária, Anunciação ainda a trata com muito carinho, afinal é a partir dela que exprime os seus pensamentos e sentimentos de indignação.

Por exemplo, nalgumas das suas composições, a artista fala sobre inúmeros aspectos da vida social que retardam o desenvolvimento dos moçambicanos – a SIDA, a pobreza e a violência doméstica considerada por si a maior infracção em relação aos direitos humanos da mulher e da criança. Não é obra do acaso que a cantora investe na educação cívica – focalizando os seus esforços na comunidade em que vive – através do entretenimento musical.

Dificuldades

“Todo o artista se sente valorizado quando há gente que elogia e consome a sua arte”. Foi nestas palavras que Anunciação se prendeu para explicar a sua insatisfação na música. Como se percebe, a partir das suas narrações, as dificuldades são imensas, pois, para além da falta de espaço de actuação, consequentemente, não há mecanismo de divulgação das obras. Anunciação pensa que é provável que esta situação tenha a ver com o facto de “estarmos num distrito muito pequeno. Aqui, as pessoas exploram-nos convidando-nos, muitas vezes, para actuarmos a custo zero”.

Além desse oportunismo protagonizado por individualidades temidas naquele município, os artistas não têm nem um local onde possam produzir, ou mesmo expor os seus trabalhos. Há falta de casas culturais em Namaacha. De igual modo, as mesmas dificuldades que se experimentam na música ocorrem no sector da moda. Há falta de material para costurar as peças.

“De vez em quando as pessoas têm ajudado, mas, embora dela se precise, ninguém merece viver da misericórdia”. Para este ano, Anunciação pensa em começar a gravar as suas músicas. O sonho é grande, mas as condições precárias da sua vida são maiores.

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