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SELO: Onde anda a nossa Polícia de Trânsito? escrito por Paula Duarte

Sou uma cidadã nascida e criada em Maputo, que gosta de sair à noite nesta nossa linda e maravilhosa cidade de Maputo com alguma frequência. Há cerca de dois anos deixei de sair na minha viatura ao fim-de-semana à noite e passei a sair de táxi, não só para estar confortável em beber um copo de vinho ou outro, mas também porque num percurso mínimo – cerca de três quilómetros (por exemplo, da Estação de Caminhos-de-Ferro até ao Hotel Cardoso) – o número de operações “stop” da nossa polícia de protecção é desgastante. Um trajecto que pode ser feito em sete minutos acaba por levar entre 30 minutos e uma hora.

Tenho notado nos últimos seis meses que o número de operações “stop” aumentou consideravelmente e até de táxi o cidadão é mandado parar hoje em dia. Facto que não condeno, pois entendo o trabalho da polícia de protecção como sendo em prol da segurança dos cidadãos e “o ladrão também pode andar de táxi”.

O que condeno é a atitude de extorsão da “nossa polícia de protecção”, cada vez mais descarada e sem qualquer pudor ou preocupação. Sim, refiro-me à polícia de segurança – vulgo “cinzentinhos” – e não à Polícia de Trânsito. De facto, este ano – já vamos em Junho – não fui mandada parar pela Polícia de Trânsito uma única vez; seja de táxi ou em viaturas de amigos. Mas a nossa polícia de protecção monta verdadeiras operações de “stop”, exigindo cartas de condução e livretes de viaturas, triângulo, colete reflector, enfim…

Se a memória não me falha, o artigo 10 não menciona nas várias alíneas onde refere as entidades a quem compete a fiscalização do cumprimento das disposições daquele Código a polícia de protecção.

Quando está tudo em ordem, a “nossa querida polícia” de protecção sugere um teste de alcoolemia. Telefona (ou simula que telefona para a Polícia de Trânsito) e como estes últimos demoram a aparecer (ou não foram contactados) somos instados à ir à esquadra do Hospital Central de Maputo para o famoso teste. Claro está que antes desta sugestão, questionaram-me sempre (ou ao condutor da viatura em concreto) se não queremos “resolver” a questão ali mesmo. Face à recusa, lá tenho ido com os meus amigos, pelo menos duas vezes por mês, à esquadra do hospital; à velocidade de 10 quilómetros por hora e com os agentes da polícia de protecção a pé a acompanharem a viatura.

Podia relatar aqui um sem número de episódios vivenciados por mim e por amigos meus nas ruas de Maputo ao longo dos últimos meses, sempre protagonizados pela “nossa querida polícia” de protecção – tenho uma amiga que ia de táxi para casa e a quem foi exigido um teste de alcoolemia; depois de cerca de 15 minutos de discussão, lá a deixaram seguir.

A última semana de qualquer mês, altura em que a maior parte dos cidadãos recebe os seus salários, quase equivale à “abertura da época de caça”, com brigadas da polícia de protecção em todos os cruzamentos, ruas, ruelas e recantos da cidade; alguns vão directos ao assunto e pedem logo “refresco” – no Verão – ou “café” – no Inverno.

Enfim, tenho a certeza de que vários cidadãos conseguem rever-se nas situações que relatei ou em outras mais sérias ou mais graves. E foi uma situação “mais grave” que vivi nesta última quinta-feira à noite e que me levou a escrever.

Fui jantar ao Marítimo com uma amiga e um amigo que veio a Maputo por uma semana. A caminho de casa – saí na minha viatura – e em frente ao portão de acesso ao Centro de Conferências Joaquim Chissano, ao lado do Radisson Blue Hotel, fui mandada parar por dois “cinzentinhos” de lanterna em riste – e sem qualquer identificação, excepto a farda cinzento-escura! Pediram-me a carta e o livrete da viatura e em seguida os documentos de identificação dos dois passageiros. Quando estavam em posse de toda a documentação, um deles tornou-se mais agressivo na maneira de dirigir-se a nós e referiu que tinham de revistar a viatura.

Mandaram-nos sair e abrir todas as portas. Enquanto fui abrir a parte traseira reparei que mandaram o meu amigo abrir a carteira e depois vi um dos polícias com uma nota de 50.00 dólares junto aos nossos documentos. Mandaram-me também abrir cada divisória da minha carteira de documentos e em seguida dirigiram-se à parte traseira da minha viatura que começaram a revistar. Aperceberam-se de que existe um compartimento por baixo do tapete – onde fica o triângulo, chave de rodas e afins – e mandaram abrir.

Muito envergonhadamente confesso que não sei – entretanto já aprendi – como abrir tal compartimento. Os dois agentes começaram a falar em tom de voz mais elevado e agressivo enquanto iam vasculhando a parte traseira do carro, exigindo que eu abrisse aquele compartimento imediatamente. Vi aproximar-se uma viatura, mandei parar e pedi ajuda. De imediato os dois agentes referiram não ser necessária qualquer ajuda e mandaram seguir a outra viatura. Entregaram- nos os documentos e o mais agressivo dos dois começou a andar em direcção à praia e desapareceu na escuridão.

O outro “simulou” que atendeu uma chamada telefónica, e começou a andar também em direcção à praia. Ficámos parados, eu e os meus amigos, na berma da estrada com as portas do carro todas abertas. Conforme devolvi os documentos, apercebeu-se o meu amigo de que o dinheiro que tinha sido retirado da carteira tinha desaparecido: 50 dólares. Tentei chamar o outro agente que se dirigia ainda à praia; este não respondeu e desapareceu também na escuridão.

Dirigimo-nos de imediato à esquadra da Julius Nyerere e depois de relatarmos a ocorrência ao agente de serviço, este referiu que a área do Radisson Blue Hotel está fora da jurisdição daquela esquadra, pelo que deveríamos dirigir-nos à esquadra da Mao Tse Tung. Chegados a esta esquadra relatámos a ocorrência a dois agentes que estavam de serviço e estes muito eficientemente tentaram chamar uma viatura para ir ao local e tentar identificar os dois agentes e recuperar o dinheiro. Ao fim de 10 minutos ofereci-me para levá-los na minha viatura.

Percorremos a marginal e não conseguimos localizar os dois agentes que tinham acabado de “assaltar-nos”. Fomos até à esquadra do Bairro Trunfo para tentar saber se seriam agentes afectos àquela esquadra e depois à esquadra da Kim Il Sung – aparentemente existe um problema de sobreposição de jurisdição e a zona do Radisson Blue Hotel é uma área de confluência da jurisdição das quatro esquadras que visitámos naquela noite.

Na sexta-feira à noite saí com uns amigos, em viatura própria, e fomos mandados parar exactamente no mesmo local. Reconheci um dos agentes, no meio dos seis ou oito que se encontravam naquele local; contactei de imediato um dos agentes da esquadra da Mao Tsé Tung que nos acompanhou no périplo nocturno pelas esquadras da cidade – e simpaticamente facultou-nos o número de contacto. Estava de folga e aconselhou-me a dirigir-me àquela esquadra, onde foi participada a ocorrência na quinta-feira à noite. Assim o fiz.

Neste momento não sei se foram identificados os dois agentes e tomadas quaisquer medidas. Sinto raiva e vergonha por ver um amigo que veio ao meu país por uma semana ser roubado descaradamente e por uma autoridade.

Onde anda a nossa Polícia de Trânsito que nos deixa à mercê de agentes da polícia de protecção, sem qualquer noção das regras do Código de Estrada (quiçá das regras que regem a própria profissão) e sequiosos de fazerem uns trocados à custa dos que vivem e dos que visitam a nossa linda cidade de Maputo?

Precisamos de ajuda urgentemente e não podemos continuar calados dia após dia face a estas situações.

Cumprimentos.

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