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Obras e autoridade

A recente aprovação da lei da defesa do consumidor poderia ser bem-vinda, não fosse o caso de o defendido não existir, não ter rosto nem voz. Ou, simplesmente, não ter consciência de si próprio. Portanto, a figura do que chamaríamos consumidor é aquela espécie humana que pede desculpas por tudo e diz obrigado por nada. Num destes projectos de melhorar a face do nosso chão, decorrem em Maputo obras de reabilitação da estrada para a Machava, a que vai dispensando a portagem. Com o empreendimento anexam-se danos e prejuízos. meses e começaram na zona do Hospital Geral da Machava.

Por aquilo que se vê, a velocidade é mínima e o ritmo desarticulado. Numa primeira fase, fez-se um trabalho de reabilitação com certa profundidade e de forma aparentemente rápida. Isto é, realizou-se uma operação que não implicou grandes transtornos na circulação rodoviária. No entanto, o que veio a acontecer nas últimas semanas é algo que tem ar de improviso, pois tem um sentido de orientação que indicia estar-se perante um outro projecto, cujo desenho surgiu do “já agora”.

A estrada foi fechada a partir do Estádio da Machava, sem se ter efectuado um estudo concreto das vias alternativas para os diversos destinos. Portanto, deixou-se praticamente ao critério dos automobilistas ir encontrando saídas. Constitui, no mínimo, obrigação do município usar todos os meios disponíveis para alertar os cidadãos sobre este tipo de intervenções que alteram o ambiente de actividade das pessoas. Não é indiferente ao automobilista ir por uma rua ou por outra, pois os percursos são desenhados de acordo com os interesses a satisfazer em cada ponto.

Para mais, o conhecimento que as pessoas têm da cidade está associado a trajectos definidos, que são estas ruas e avenidas. Portanto, quando o Município encerra temporariamente uma via deve transferir o conjunto de facilidades e referências para a via alternativa, de modo que os utentes saibam como proceder nas novas circunstâncias para alcançar os tradicionais resultados. Mas não tem sido esta a nossa prática. Basta colocar barreiras e pôr uns rapazes e umas raparigas com bandeirolas, cumpriuse o dever.

Os transportes públicos e privados colectivos, que servem a maioria dos habitantes da nossa capital não merecem da edilidade qualquer atenção especial nestes casos. Quer isso dizer que ninguém se preocupa em criar nessa rota alternativa as paragens obrigatórias, que tentem colmatar o transtorno provocado pela mudança. Em consequência, só a criatividade dos “chapas” e da população permite desenhar um novo quadro de hábitos. Vamos tentar dar uma ideia mínima dos danos e prejuízos que tão mal avisada atitude tem produzido.

A primeira menção vai para a quantidade de combustível que se gasta no novo percurso, que é vinte vezes superior ao troço encerrado. Com ocasiões em que atinge as cinquenta vezes. Para mais e pela estreiteza dos atalhos alternativos, os engarrafamentos são tais que vão quarenta e cinco minutos para fazer o que, em circunstâncias normais, consome três minutos.

São transtornos que o bom senso recomenda que edilidade deveria tomar em conta, no respeito que deve ao consumidor. Ainda por cima contribuinte das fundamentais taxas para a operacionalidade municipal.Para o comum do cidadão, foi uma mudança drástica do próprio tempo, tornando-se uma grandeza para outras medições. Com efeito, está-se na situação de adiantar duas horas em relação ao fuso horário de Moçambique para poder cumprir algum horário. Sobre este tipo de consequência não houve qualquer esclarecimento. Quanto ao geral da população residente, os produtores desta verdura que a cidade consome, tanto o desvio à esquerda quanto à direita produziram danos catastróficos.

Foram quantidades enormes de lavras danificadas, quer por acção directa de transformar canteiros em estrada e ou passeio, quer pelas camadas de poeira que se abateram sobre as culturas e de forma definitiva. O certo é que as populações dessas zonas perderam o sustento e por muito tempo. Com efeito, para essas centenas de famílias foi quebrado um ciclo produtivo que garantia o sustento do agregado e que havia sido erguido com fundos provenientes deste crédito agiota que move as economias das populações. Naturalmente que esta abordagem vai apontando o dedo ao Município, mas não quer isto dizer que a CMC, empresa que executa a obra, não deva ter qualquer responsabilidade nestes atropelos.

Antes pelo contrário. Tanto mais que deveria ela ter efectuado um estudo detalhado destas viabilidades, dar a devida publicidade às alternativas, incluindo a publicação de um mapa indicando as novas trajectórias, usando para isso os meios de comunicação de maior circulação na capital. Nada disso fez, porque o consumidor moçambicano não tem sido respeitado e quem tem qualquer obra pública adjudicada veste autoridade e dita as leis do lugar.

O que vai acontecendo neste país é o seguinte: qualquer trabalhador das Águas de Maputo pode fechar a estrada para perseguir um tubo que sai da casa do amigo ou da amante, qualquer um da EDM pode fazer o mesmo sem problemas. A TDM, a Televisa ou até uma funerária podem, por iniciativa de um trabalhador, desviar a estrada por tempo indeterminado. E os pilantras, além de trabalharem devagar, ainda “curtem” o fim-de-semana. Com a estrada encerrada.

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