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Pandza: O voto

A dobradiça reclamou a violência com que se abriu a porta. Foi um repentino gemido magoando o silêncio frio da madrugada. A luz amarela do candeeiro a petróleo entornou-se para o areal do pátio escuro assustando os animais nocturnos. A bruma também se assustou e cedeu quando o homem saiu em disparada atravessando o quintal.

Os gatos do telhado e as corujas estranharam o estilo caricato com que o homem atravessou o quintal. A urgência da situação obrigava-o a correr mas os músculos apertando as nádegas para conter a eminente explosão intestinal não o deixavam. Nem sequer respirava para não perder o controlo da situação.

De jornal na mão e caminhar esquisito o homem chegou ao outro lado do quintal, abriu a porta da latrina com brutalidade, em dois tempos arreou os calções e agachou-se para o alívio. Um estrondo violento estremeceu a madrugada. O enorme buraco da latrina fez uma caixa de ressonância e ampliou os sons das borrifadas ao mínimo detalhe. Uma pausa, respiração curta e rápida, como se estivesse em trabalho de parto e de novo outro estrondo.

Outra pausa, respiração, o terceiro trovão foi mais demorado e violento. Finda a primeira etapa do alívio, o homem relaxou e manteve-se agachado. No silêncio oco da madrugada, para além da respiração ouviam-se também pingos de líquidos remanescentes que se desprendiam das traseiras, e o zumbido revoltado de algumas moscas, lá de dentro do buraco da latrina, a murmurarem pelo sono interrompido, outras, ainda ébrias de sono, atropelavam em voos cegos a traseira húmida e respingante do homem ofegante, que recuperava o fôlego para outras etapas de descarga.

Descalço, com os calções na mão e trajando uma velha camisete, só agora percebeu o frio da madrugada arrepiar-lhe a pele como se lhe espetassem agulhas em cada poro. Reparou no paradoxo de estar transpirado a tremer de frio, quando olhou para o braço pendurado no joelho.

Prolongou o olhar até a mão que segurava o jornal, eis que na primeira página com todo o destaque do mundo, a imagem sorridente de um político parecia rir-se dele, daquela pose inglória de defecante. Reconheceu o homem. Não era a mesma foto mas era o mesmo sorriso e era a mesma pessoa estampada na sua velha camiseta com escrita “vota!”.

Ainda se lembra daquela tarde de Verão em que o fulano apareceu por ali distribuindo capulanas e camisetas, abraçando as pessoas e fazendo promessas a preço de votos. Veio em malta, com carros e bandeiras, cantando e dançando, sorrindo e acenando.

Quando o luxo dos carros infestou a poeira do subúrbio, o político sacudiu-se, ajustando-se nas banhas, passou a mão duas vezes pelo ombro limpando a possível poeira, esticou a barriga para dar um ar magistral e lançou-se à passarele do areal, desfilando com todo garbo do corpo que pendia para trás equilibrando a enorme barriga.

Hoje, com este frio, mais uma daquelas camisetas de campanha para se agasalhar, ou uma capulana com a foto do candidato para cobrir as ancas da esposa ou o sono das crianças, faria jeito, pensou, olhando para o jornal com o retrato do político, com um riso que parecia troçar dele, da sua pequenez, da sua posição inglória de defecante, da sua condição de povo, eleitorado, de ter acreditado, um dia, nas suas promessas eleitorais.

Sentiu uma revolta que de tão forte lhe desembrulhou os intestinos e recomeçou a revolução na barriga. Prendeu a respiração. O frio desconfortava. A vida é um intestino grosso, o mundo uma enorme e intensa diarreia.

O homem fechou os olhos e fez um último esforço. Ouviu-se um rasgão, um som grave e assustador que aos poucos se ia tornando agudo, a espremer-lhe os intestinos que quase espreitaram cá para fora. O homem transpirou apesar do frio da madrugada.

Quando amanhecer será dia de nova campanha eleitoral. Vai receber camisetas e capulanas para agasalhar a família, depois será dia de votos, mas o voto ele podia fazer agora: Rasgou uma porção do jornal com a imagem sorridente do político e fê-lo beijar-lhe as partes borrifadas, limpando-se.

Depois dobrou o papel como se dobra um boletim de votos, e voltou a limpar-se, e, como se o introduzisse na urna de votos, meteu o papel no buraco da latrina.

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