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O que ficou das festas na cidade de Inhambane

O que ficou das festas na cidade de Inhambane

Depois de tudo regressa sempre o sossego. Com pequenos laivos de desvios que são imediatamente abafados por não haver espaço, nesta urbe, para grandes manobras dos fora-da-lei. E agora, que a euforia das festas já se foi, com algumas pessoas a deixarem-se levar pelas emoções até atingirem o êxtase da loucura, esquecendo-se de que o caminho existente ainda pela frente é lodoso, tudo voltou à sua marcha desinteressada. Com as esplanadas vazias, com os mercados acolhendo as mesmas pessoas que vão comprar pouco, com as lojas dos indianos – outrora hegemónicas no comércio – a terem dificuldades para render, e com os marinheiros ensardinhando diariamente as pessoas nas suas precárias embarcações.

Mas Inhambane foi sempre assim. É uma cidade que alguns tentam mudar, mas logo descobrem que este será um local que dita as regras do jogo dos seus habitantes, e nunca será o contrário, ou seja, não são os habitantes a ditarem as regras de jogo da cidade, e muito menos aqueles que virão para aqui. Por exemplo, durante a quadra festiva, onde se esperava um magote de turistas, nacionais e estrangeiros, ou de gente daqui que, vivendo em outros destinos quereriam voltar temporariamente para rever familiares e amigos, e retemperar os espíritos com os cheiros únicos da baía e do palmar, a cidade remexeu-se. Nem tanto. Contava-se com a presença de mais almas, mesmo assim a festa aconteceu.

O ponto mais belo destas águas humanas vindas de muitos rios para desaguarem aqui verificou-se na Praia do Tofo, no dia 1 de Janeiro. Todos foram para lá, ou melhor, quase todos foram para lá, ou melhor ainda, dirigiu-se para lá aquilo a que nos arriscamos a chamar multidão. Uns foram sozinhos, outros levaram apenas a esposa ou o marido, outros ainda juntaram famílias inteiras e amigos e peregrinaram à praia que leva o belíssimo nome de uma mulher (Nhatofo), e que a subversão a transformou em Tofo. Mas não tem problema. Fica assim.

Na verdade aqueles grupos todos que convergiram para a Praia do Tofo pareciam pertencentes à mesma família. Andavam, todos eles, ao mesmo compasso da tranquilidade, da urbanidade, do sossego, da paz, da pós-medernidade. Pareciam bananas do mesmo cacho, maduro e pronto a ser servido após uma lauta refeição, ou, quem sabe, a banana por si só, naquele cacho esplendoroso, poderia ser a lauta refeição em si. As próprias águas da Nhatofo, nesse dia, tiveram um comportamento misericordioso, arrebatador, contrariamente a outras alturas em que se enfurecem, como o próprio Deus, sendo Ele misericordioso, quando lhe provocam sabe trovejar e agir com ira. Mas no dia 1 de Janeiro de 2014, Deus estava lá também, comandando tudo, o mar obedecia-Lhe e as pessoas também. Obedeciam-Lhe.

Quem quisesse passear pela cidade naquele momento não encontrava ninguém e perguntava: para onde foram as pessoas? E a resposta era por demais óbvia: foram a Tofo. E ele também ia para lá. Por isso os carros que tinham enchido a urbe, trazidos por aqueles que queriam vir desfrutar deste paraíso, não paravam de chegar e, cada vez que chegassem, parecia que havia mais espaço para estacionamento. Ninguém vociferava. Não havia as estridentes e sempre inoportunas buzinadelas. A Polícia que actuou no Tofo era verdadeiramente do século XXI. Garbosa, por isso, merece uma estrondosa salva de palmas.

Ninguém queria que anoitecesse. Porém, há aqueles que, com a noite a cair, continuavam a chegar. Mesmo sem casa para dormir, há os que se deitaram na areia, cobertos pelo ulular das ondas. Ficaram ali até amanhecer. Mas outros preferiram partir no crepúsculo do entardecer, de volta às suas casas, deixando aqueles que queriam ir até ao fim, numa espécie de “dont stop”.

Os jovens beberam muito? É provável! Mas não houve sequelas negativas merecedoras de registo. E, por isso mesmo, eles também serão contemplados pelo nosso abraço. Em todo o lado comportaram-se com alto sentido de civismo. Todos se abraçavam como se se conhecessem de algum lado. Nada os impedia de dizerem um “alô”, uns aos outros. E é assim como a vida deve ser levada em todos os cantos. Siyavuma!

Agostinho Trinta não dorme com os jovens

Temos, com certeza, muito respeito pelo bom do governador da província de Inhambane. E, sendo assim, nas suas horas de sesta, sobretudo à noite, merece um repouso absoluto. Mas, durante a quadra festiva, os jovens não deixaram aquele cidadão descansar à vontade.

Paradoxalmente, depois de todo o mar de rosas que vos apresentámos anteriormente, uma grande franja da juventude juntou-se, durante cinco dias ou mais, num local chamado “Prancha”, nome que vem do facto de ali ter havido em tempos uma cerca com rede de tubarão preparada para os banhistas e, no interior da mesma, ter sido colocada uma prancha para saltos para a água. Hoje não existem, nem a cerca, nem a prancha, mas o nome ficou, e os jovens gostam de ir para ali divertir-se durante a noite, contemplando a maravilhosa paisagem oferecida pela baía iluminada através do “neo” da Maxixe e da própria cidade de Inhambane.

Esse lugar pode ser comparado ao “Calçadão” da cidade de Maputo, com a diferença de que fica praticamente nas “barbas” do palácio governamental. E será aí onde vai começar o pomo da discórdia. Os jovens não se lembraram de que ali vive um cidadão que, mesmo sendo vulgar, está investido de poderes invulgares, e lá estiveram eles com as bandeiras completamente despregadas.

Abriram ao máximo o volume das aparelhagens instaladas nos seus automóveis, cujo som se ouvia a distâncias consideráveis, violando a tranquilidade do “boss”. E ele, com toda a razão, não gostou, mandou um ultimato, segundo o qual se os jovens quisessem continuar a desfrutar daquele lugar, então que respeitassem o sossego dos outros. E, aliás, ali perto, há um convento, onde mora o Bispo da Igreja Católica, que também, como todos nós, precisa de ser respeitado na sua privacidade, assim como os hóspedes do Hotel Capitão, também vizinho da “Prancha”. E a poluição sonora é condenável.

Já agora, apelamos aos utentes da “Prancha” para observarem as regras ali estabelecidas. O Conselho Municipal da Cidade de Inhambane instalou colectores de lixo, e é para li onde devem ser atiradas as garrafas vazias, que constituem escória depois de grandes consumos a que a juventude se entrega não só durante as quadras festivas, porque este ritual faz parte da vida dos munícipes daqui, e não só. O que acontece, porém, é que muitos não respeitam essa regra, atirando as garrafas para a baía. Parem com isso, jovens!

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