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“O polícia tem de viver”

“O polícia tem de viver”

Há segredos por baixo da farda, na escuridão eterna das profundezas de um agente da lei e ordem? Um lar, uma mulher e filhos tornam um polícia um cidadão comum? Perguntas como estas alimentam o imaginário dos moçambicanos. @Verdade conversou com três agentes e desvendou que não é só uma farda que separa o polícia de um moçambicano anónimo.

A palavra “difícil” fez sempre parte do vocabulário dos agentes da Polícia da República de Moçambique que, a 10 dias da entrada em vigor da cesta básica, levam as mãos à cabeça, apontando para a “insensibilidade do Governo” como o principal entrave à melhoria das condições da polícia. “Ganhamos muito pouco”, diz Alberto Cossa. “Não ganhamos nada”, corrige Tembe. Mas, “não vamos passar fome por causa desse salário miserável. O nosso negócio é outro”, confessa João.

Desde a falta de documentos, transgressões ao código de estrada, electrodomésticos sem documentação, passando por telefones celulares à aparência, tudo serve para interpelar um cidadão e amealhar algum dinheiro. Porém, o vida não corre de feição, uma constatação unânime entre os agentes.

“Aquilo que o Governo aumentou no salário da polícia é uma vergonha”, diz João. Com o aumento de 233 meticais – um saco de arroz de 10 quilos custa 280 meticais –, os agentes passaram a auferir 3175, 20. Porém, ficaram automaticamente excluídos da candidatura à cesta básica. Os cidadãos elegíveis têm de ter 2.500 meticais como salário ou rendimento máximo. No entanto, os agentes da PRM, apesar de acharam que a medida é “ridícula” acreditam que poderia ajudar a minimizar as difi culdades de quem precisa.

Logo ao início da manhã, pouco depois da habitual formatura, já muitos agentes da PRM estão nas ruas à procura de algo para comer. Até porque saco vazio não fica em pé “os bolsos dos cidadãos desatentos” garantem a cesta básica, algum valor para deixar em casa e dinheiro de transporte.

Retrato da corrupção

Cossa ficou viúvo um dia depois de ter entrado para a PRM, em 2002. A sua mulher, Clara Luzenda, morreu no parto da sua primeira e única filha. No primeiro ano, Cossa sofreu muito. Ganhava muito pouco e não tinha com quem deixar a filha. “Não sei o que teria sido de mim sem o apoio das minhas vizinhas”, conta.

De quando é que começou a extorquir dinheiro aos cidadãos não tem memória, mas lembra- -se vagamente da forma. Tem ashes apenas. Uma das imagens mais fortes que lhe vem à memória é a da filha com dias de vida, ao seu colo, à procura do peito materno.

“Tinha de acordá-la a meio da noite para lhe dar o biberão com água de arroz e via a cabeça dela de um lado para o outro à procura da mama… Nessas alturas, sei que não conseguia segurar as lágrimas.”

Como se aquela dor não bastasse e a responsabilidade de ser pai sozinho não fosse suficiente, o destino pregou-lhe nova partida. Três meses depois de perder Clara, Luís viu a filha a perder peso repentinamente. Também assim, de repente, sem mais.

“No dia 1 de Janeiro, a minha filha sentiu-se mal, levei-a para o hospital, e a 7 tivemos alta. Estava desidratada e disseram- -me claramente que tinha de lhe dar leite. Uma lata de leite custava 230 meticais e a minha filha precisava de quatro num mês. Eu não tinha onde ir buscar esse dinheiro. Foi por isso que comecei a extorquir os cidadãos. Tive de escolher entre a vida da minha filha e a minha honestidade.”

Cossa tem 35 anos, Clarinha 9. Vivem ambos para os lados de Kongolote, onde já têm uma rotina instalada. De manhã, Cossa leva a fi lha à escola, a poucos quilómetros de casa, e segue para o trabalho de agente da lei e ordem numa esquadra da cidade de Maputo. Trabalha 24 horas e na sua ausência a filha fica em casa de uma vizinha.

Com o dinheiro que faz na rua, cerca de 300 meticais por dia consegue deixar 600 na casa da vizinha para que cuide da filha. Nas folgas ele é que vai buscá-la às 17h30, dá-lhe banho, prepara o jantar e depois vem o período preferido de ambos, o da brincadeira.

Quem o ouve pode pensar que conseguiu ser corrupto com a maior facilidade do mundo, mas na realidade não lhe é fácil falar do que aconteceu, embora nunca saia da pose de um biscateiro bem-disposto. Confessa que quando extorquiu os primeiros 200 meticais, se sentiu “vazio”. “Parece que não estamos nem neste mundo nem no outro. Mas o cabrito come onde está amarrado”, descreve. Seguiu-se “uma revolta muito grande e uma sensação de injustiça”.

Afinal, um agente da polícia tem de ter meios para ganhar a vida. O juramento é meramente cosmético. A necessidade é sempre maior do que a moral. Nos treinos, tudo correu “normalmente”. Cossa queria ser um agente exemplar, mas até ser corrupto “para viver” levou pouco tempo. Nada fazia prever que a necessidade levasse a este desfecho.

Eu fui sempre corrupto

Após vestir a farda, Tembe passou a olhar para “todos os cidadãos” como se fossem “potenciais carteiras”, confessa numa gargalhada. Com o total apoio dos agentes com mais anos na corporação, transformou-se num “mestre” na extorsão. “É sempre fácil tirar o dinheiro porque os moçambicanos não conhecem os seus direitos, assim como têm medo de uma farda.

“Felizmente, há muitos sinais de trânsito pouco visíveis na cidade de Maputo.” Há um ano, comecei a trabalhar com a Polícia de Trânsito, com quem jamais quero deixar de colaborar. E, apesar de saber que o que faz é errado, acha-se no direito de ganhar ‘o seu dinheiro.’ “Se há pessoas que têm mobílias de 1.2 milhão de meticiais porque é que o Tembe não pode pelo menos comer carne em casa?”, questiona.

Tembe diz que sente que, apesar do salário magro, jamais deixaria de ser polícia e explica que deste que está na PRM passou a encarar o trabalho de outra forma, como algo para “gerar dinheiro e melhorar a vida do polícia”. Mas, se “a vontade de enriquecer é agora maior”, o medo de morrer também o é. “Acho que ainda hoje não acredito que consigo dar boa alimentação à minha família. Tenho um medo constante de tudo desmoronar.

A culpa é da negligência do Governo

“Há polícias que passam fome quando entram na corporação, mas também há aqueles que são corruptos porque é a sua forma de vida. Isto funciona como alerta. Por isso, os serviços sociais deviam acompanhar de perto os horários e providenciar alimentação aos agentes”, explica João. “Não teríamos necessidade de comer na rua se a messe da polícia funcionasse.

“Acham normal que uma esquadra tenha um centro social que cobra 50 meticais por refeição?”, pergunta. 3175 meticais dá para 63 pratos. “Se considerarmos que um polícia trabalha 15 dias por mês e toma duas refeições por dia, no fi m do mês ele terá gasto 1500 meticais. Vocês acham que um agregado familiar de 5 pessoas pode viver com 1675 meticais num mês?”, questiona.

Na PRM, a pobreza é igual ou maior do que a média do país. Ainda assim, João sabe que a corrupção não se explica assim de forma tão linear. A sociedade e a imprensa sempre alertaram para a existência de agentes mal formados e corruptos.

Porém, “não foi por ignorar esses valores que comecei a extorquir dinheiro aos cidadãos e aceitar subornos. Como qualquer pessoa tenho ambições. Se não me tivesse virado não teria construído nem um quarto no meu terreno. Hoje tenho uma casa de dois pisos e não posso negar que isso é dinheiro da corrupção”, confessa e acrescenta: “isso é como tudo na vida. Há quem vive de amealhar 10, 20 ou 30 meticais, como também agentes que vivem de negócios de 50 ou 100 mil meticais.”

Efectivamente, um polícia tem as mesmas preocupações de pai e de homem de família por cumprir. João tem noção de que “há coisas” que não vai conseguir exigir dos filhos “como um pai exemplar”. Como, por exemplo, sobre honestidade, integridade e valores fundamentais, diz, a rir, concluindo, que “por força das circunstâncias, nem eu voltei a ser honesto por ser polícia nem os meus filhos serão educados em circunstâncias normais, entre aspas.” No entanto, diz que tem sorte, porque os filhos não querem ser polícias.

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