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O plano está um “fracasso”

O plano está um “fracasso”

Se, por um lado, cresce o interesse, por parte dos que das artes dependem para sustentarem as suas famílias – artistas e vendedores das obras – , de produzirem trabalhos e venderem nos diversos cantos da urbe, por outro, uma certa inexplicável situação impede que os visados façam as suas actividades sem sobressaltos. “Mas o que adianta termos um ponto de venda seguro se não temos o que nos move para este lugar – o dinheiro? Sentimo-nos enganados. O Governo iludiu-nos”, afirmam os vendedores de obras de arte na Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia de Maputo (FEIMA).

Numa época em que o cavalo era o meio de transporte mais rápido para se chegar a um destino, costumava-se dizer que o castigo vinha deste animal, mas sempre voltava a pé. A ser verdade, como também acreditamos, falso não me parece ser que às vezes, ou quase sempre, em momentos de dificuldades, procuramos encontrar um culpado pela nossa desgraça.

Por exemplo, a quem num desabafo e por motivo do seu descontentamento já me contou: “sabe, o maior castigo que já tive em toda a vida foi de me terem matriculado num internato, pois em casa, embora me faltasse comida e outras condições básicas, tinha a liberdade. Mas, em contra-senso, no asilo davam-nos, quase, tudo, menos o que mais precisávamos – a autonomia”.

Na verdade, a realidade que se vive na FEIMA, pelos vendedores de obras de arte, é deveras constrangedora. Quer quisessem quer não, nos meados de 2010, os comerciantes de várias gerações que vendem, quase, todos os tipos de obras de arte foram evacuados dos seus pontos estratégicos onde vendem os seus produtos para afixarem-se na FEIMA, inaugurada no dia 10 de Novembro do mesmo ano. Administrada pelo Governo, a iniciativa visava, até certo ponto, unir os indivíduos e, sobretudo, protegê-los.

Com pompa e circunstância, num ambiente caracterizado pela ausência dos consumidores das artes, segundo eles, devido à falta de publicidade do local e, pior ainda, por estar mal localizado, nota-se que os vendedores estão entregues à sua sorte. Por essa razão, irritados com esta insensibilidade que os gestores têm para com o lugar e com eles mesmos, homens e mulheres da área, aceitaram conversar com o @Verdade para dizer o que anda à sua volta.

No percurso dos diálogos pôde-se entender ainda que, embora sob quatro paredes e “teto”, que lhes oferece segurança das suas obras e de si próprios, há algum descontentamento que deriva, diga-se, do desconhecimento das realidades e do distanciamento que se revela pelo facto de o Estado limitar-se em dar um metro de espaço para cada comerciante.

Entretanto, Zefanias Pedro Macuacua, vendedor de obras de arte há sensivelmente sete anos, entende que, por um lado, todos os problemas levantados pelos diversos interlocutores relacionam-se com a desvalorização da arte e, por outro, ela está sujeita à marginalização porque “os mercados dos referidos trabalhos estão sempre distantes do povoado. E isso não é estratégico. Mas, infelizmente, nunca colocam uma empresa – que devia estar distante das comunidades – `fora da mão´”.

Contudo, ainda no seu discurso, Macuacua refira que desde que começou a vender na rua, nunca antes tinha passado pelas dificuldades que enfrenta actualmente. Antes da FEIMA, o homem a que nos referimos vendia na praça 25 de Junho, na zona baixa da capital moçambicana.

“Eu, por exemplo, ainda faço o meu negócio, aos sábados, na baixa da cidade. Lá as pessoas compram todos os dias e sem problemas. Não importa se a pessoa está a trabalhar, a passear ou se é negro, branco. Mas aqui, dentro destas redes da FEIMA, as pessoas saem de casa com programa de virem comprar certas obras. E isso não pode acontecer porque não é comida. Nunca se podem fazer rancho de obras de arte. Isto tem de ser como uma mulher, tem que haver estímulo instantâneo”. Mas, “infelizmente deferentemente de fora, que vendia todos os dias, aqui é possível vir e passar o dia em vão. A verdade é que dependemos mais da sorte”.

Não é o conforto que preocupa os “despachantes” da arte que se encontravam espalhados pelos cantos de Maputo. Arcílio Daniel Neves, com 20 anos de trabalho, considerou que o Governo tem de começar a pensar em “vender” a imagem da FEIMA para que seja reconhecidamente ponto das artes e cultura de Maputo. Neves, desfrutando da experiência que tem, contradiz a ideia dos seus colegas e afirma que “a vida fora da feira não era tão perfeita”, citando exemplos da chuva, dos vândalos e de outros problemas. “Mas agora ao menos temos onde guardar o nosso produto com segurança”.

E não lhe faltam argumentos: “é verdade que as coisas não estão como a gente previa, mas o que se pode fazer agora é estudar melhores formas de publicitar o lugar, através das televisões e de panfletos espalhados pelos hotéis, casas de pasto, entre outros lugares”.

Por sua vez, Anselmo Chaúque, vendedor há quase uma década, diz que “foi graças ao meu antigo ponto de venda que consegui erguer a minha casa. Lá estava em frente de um restaurante e, por isso, havia muita clientela. Mas desde que fomos colocados aqui já não consigo sequer nem sequer comprar um saco de cimento para terminar a casa. Estranhamente, aqui, é possível ficar um mês sem vender nada”.

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