Para continuarmos  a fazer jornalismo independente dos políticos e da vontade dos anunciantes o @Verdade passou a ter um preço.

 
ADVERTISEMENT

O pior dos pesadelos…

O pior dos pesadelos...

As causas, o desespero e os prejuízos do dilúvio que atingiu o coração de Maputo, a província mais próspera e desenvolvida de Moçambique. Entrar no Quarteirão 38, em Laulane, um dos bairros do distrito municipal nº 4 da cidade de Maputo, depois do dilúvio que pôs a capital do país de pernas para o ar, é como desandar o caminho que o ser humano percorreu nos últimos séculos para dignificar a sua existência. Ou, ao menos, a de alguns porque lamentavelmente, segue havendo, hoje em dia, milhões de moçambicanos cujas condições de vida conseguem que uns sintam vergonha de desfrutar das incontáveis comodidades de que dispõe a zona nobre da cidade de Maputo.

Que Moçambique pertence a um grupo de países em vias de desenvolvimento – o chamado terceiro mundo – tornase mais palpável quando se pisa o quarteirão 38: naquela parcela que foi, no dia 27 de Janeiro, um dos lugares que mais sofreu com os efeitos da chuva, 87 agregados familiares estão a viver em condições aberrantes, sem água e sem luz. À entrada um lodo putrefacto chega às narinas depois de meio dia de chuva que agora dá lugar a um calor sufocante que produz, em contacto com as poças de água que ficaram para contar a história, um fedor que faria um matilha de cães vomitar.

Aliás, a força das águas derrubou parcialmente 18 residências e cinco ficaram completamente destruídas. Alguns postes ainda jazem no chão, o tubo que levava água ao quarteirão rompeu e o precioso líquido parou de jorrar.

No dia 27 de Janeiro, apenas no distrito urbano nº 4 caíram 42 milhões de litros de água. Sim, milhões – o suficiente para abastecer a cidade de Maputo durante uma semana. Outra comparação é ainda mais impressionante: se esse volume hídrico fosse despejado dentro de uma torre com uma base de 1 metro quadrado de área, a construção teria de ter quatro mil e duzentos quilómetros de altura – quase duas vezes a distância entre Maputo e Beira.

 

Um mal nunca vem só

A primeira das 17 casas derrubadas por tamanho horror foi a de Fausto Vasco Wallate, natural da Zambézia. Na quarta-feira, a terra deslizou e levou uma parte da casa, soterrando-a. Os filhos de Vasco e o seu irmão escaparam da morte. Vasco, que também é proprietário de um estabelecimento de venda de bebidas, num espaço contíguo à casa que desabou, estava na cidade quando soube do desastre. Contudo, o comerciante zambeziano bem pode agradecer a um poste de alta tensão que foi colocado no vértice da sua residência, pois não fosse aquela construção a destruição teria sido total e completa. Ironia ou não, Vasco não viu com bom olhos, no passado, a colocação do poste de energia ao pé da sua residência.

Porém, como os desígnios do destino são insondáveis, foi aquele poste que segurou uma parte da sua casa ao solo: “nem sequer o bar teria sobrado”, refere. Contas feitas na cidade de Maputo indicam que 1500 casas ficaram inundadas, 17 escolas e 29 estabelecimentos comerciais. Dos 700 hectares da área das zonas verdes, metade da área total ficou afectada. Houve também a destruição de diques e pequenas pontes de acesso às zonas verdes, e abertura de crateras. A linha de Limpopo ficou afectada em dois pontos no bairro de Laulane, precisamente no Q38. O comboio, esse, ficou dois dias sem circular.

Há 20 casas destruídas ao nível da cidade, e no Q38 foram 18. De referir que a tragédia só fio possível por causa do perfil geográfico das zonas afectadas. Por exemplo, a camada superficial que recobre o solo, em Laulane, é de composição argilosa – o que faz com que se desloque mais facilmente. Ou seja, com o encharcamento pela chuva forte e constante, essa camada ficou mais pesada. Some-se a isso a inexistência de um sistema de drenagem, as ocupações desordenadas e o resultado é a erosão e, por outro lado, a consequente destruição de habitações. A tormenta levou vidas e deixou, no seu lugar, histórias pungentes. Matilde, de 13 anos, foi arrastada pelas águas. Ernesto, de 16 anos, viu tudo e conta: “A poucos metros do portão, ouvi um estrondo. Ao olhar para trás, vi Matilde na varanda. Sai daí, gritei”.

Não deu tempo. A varanda veio abaixo e levou a adolescente consigo. Matilde caiu com estrondo e a força das águas levou-a rua abaixo. Tentou tirá-la da corrente, mas dois novos desabamentos se sucederam. Quando, com ajuda de João, de 24 anos, conseguiram tirá-la da água viram que tinha sofrido ferimentos ligeiros. Hoje, Matilde dorme abraçada à boneca que ficou sem os dois braços. “Ainda não parei de chorar”, disse. Na parte mais afectada do Q38, mais especificamente na parte baixa, foi onde se registou o maior número de desabamentos: 14. Alfredo Mfumo, camionista, de 45 anos, perdeu a casa e os seus dois cães, Rex e Sasha. Mfumo regressava de Nampula quando soube da enchente.

Largou o camião no mercado do Xiquelene e arrastouse 4 quilómetros com água nos joelhos, até descobrir que a sua casa já não existia. O corpo do seu primeiro cão, Rex, foi encontrado a boiar pelos vizinhos. O da Sasha ainda está possivelmente debaixo dos escombros. “Só sobrei eu”, chorou Mfumo para quem os cães eram os únicos parentes. No mesmo dia, a chuva destruiu outra casa na mesma rua. Um murro desfez-se sobre a casa erguida no terreno ocupado há mais de três décadas pelos Matsolo. Sob uma viga da casa, jaz o televisor que o filho mais velho de Zefanias Matsolo trouxe da vizinha África do Sul, no último Natal. Paíto conseguiu escapar, mas ainda se lembra do primeiro programa que viu: “Pirlim Pim Pim”.

O Q38 virou um inferno e os seus residentes sabem que a chuva vai acordá-los em sobressalto, despertando o Moçambique que não vai aos grandes eventos, que não conhece o “Coconuts”, não bebe “wisky” velho, não tem um todo-o-terreno e conta “off-shore”, nem é servido em bandejas de prata. Esse Maputo, desenraizado, agoniza em contrastes e, ainda assim, sorri.

Bairros problemáticos

Os prejuízos económicos das chuvas não podem ser calculados em toda a sua extensão. O Município estima, a título de exemplo, que um projecto de saneamento para o bairro da Polana-Caniço custa pouco mais de 15 milhões de euros. Porém, a cidade de Maputo tem muitos bairros problemáticos. No Distrito Urbano nº 2: Chamanculo, Minkadjuine e Munhuana; Distrito nº 3: Mafalala, Urbanização e Maxaquene; no Distrito nº 4: Costa do Sol, Laulane e Albazine; no Distrito nº 5: Luís Cabral, Inhagóia, 25 de Junho e George Dimitrov. Ao todo, a cidade de Maputo conta com 15 bairros que carecem de um sistema de saneamento eficaz.

WhatsApp
Facebook
Twitter
LinkedIn
Telegram

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

error: Content is protected !!