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Selo: O país que sou – escrito por Álvaro Fausto Taruma

Entristeço-me sempre que me revejo neste trapezista solitário no circo cada vez mais vazio e assustador de onde só se aplaudem os malabaristas desenfreados da democracia. Assusto-me, e é com esse susto que me fulmino cada vez mais que avariam, quase constantemente, os motores da razão dos nossos governantes. E me é suicida esta vontade súbita de caminhar por entre a estreita corda que é o ténue chão do meu país.

E também pelo perigo que salvamos com o inocente sangue que se incrusta sempre que se calam eles frente à ecuménica mesa do diálogo. Morro devagar cada vez mais que piso este traço sideral que é o húmus da minha nação, da larga extensão territorial em reboliço. Do medo que é de andar sobre as explosivas minas à flor suave dos pés, e ter que segurar a alma entre os dedos e tecer de outras matérias o coração.

Decerto é belo o meu país mas deste modo custa-me ver-lhe com a magia que empresto ao meu olhar, e não se espante no dia que tão cedo vier a bater-lhe à porta com uma carta de demissão nas mãos. Pois pensei, erradamente, que o fogo da paz pudesse arder tão alto, em labaredas laboriosamente trabalhadas, sem faúlhas com falhas que nos pudessem prender à prisão claustrofóbica da escuridão.

Reexpeço-me no vermelho desta pátria que me pariu, em parto soberbamente anestesiado, suponho, porque já não lhe doem os 16 anos de espera com a barriga da miséria onde os nados fortemente armados faziam do útero e das vísceras o campo de uma batalha fratricida, empunhando punhais e morteiros pelas entranhas. Doeu-me, e dói-me fulminantemente esta realidade, tão triste, quanto o triste imigrante que me tornei neste cemitério de loucos. E pergunto-me o porquê de se perpetuam as Kalash’s na nossa bandeira, que pretendíamos uma bandeira iluminada, de luz elaborada, e que tão alto flamejasse para todos os filhos desta pátria amada.

Hoje sou um pútrido andarilho nas velhas ruas da capital, a dormir e a acordar por entre o tecto da ilusão, sem a adiada esperança, sem o mínimo tostão nos bolsos, sem nada, só com o erótico desejo de acrescentar em frente à primeiríssima letra desta terra (Maputo) ou para depois apartar a sílaba inicial, e seguidamente repetir-lhe o nome no feminino, a ver se lhe enfio no cu o pouco que me falta nesta desconsertada cabeça de um louco.

Por estas alturas penso no meu filho menor, de três anos, que me nasceu da curiosidade mecânica do tesão, muito antes do carburador informático da consciência se fazer aos mercados, de calculadora no bolso, para comprar fraldas descartáveis que depois do quente e frenético mijo vão cordialmente ao lixo, pois a mulher que de mim engravidou já não aceita cobrir-lhe com os restos de capulana que meticulosamente rasgados, antes, amparavam a nudez dos bebés.

E também à compra do leite porque uma mulher em Moçambique já não se dá ao luxo de amamentar do seu colostro porque desse modo podem murchar os reclames publicitários do seu corpo à lua quente dos lábios minguantes do recém-nascido, e uma mãe não se pode expor ao perigo de saindo, ela, à rua, com os seus saiotes, dias depois de dar à luz, não se rever nos olhos pornográficos dos homens em um novo potencial engravidador.

Penso também na minha futura enteada porque a mulher com quem sonho de sol a sol, e por quem me masturbo todas as noites, tem uma linda filha quase à flor da adolescência, com uma ingénua delicadeza quase igual à da mãe com quem me imagino na pele macia de que se veste, nós dois felizes no banho de todas as manhãs, e depois aquelas mãos porcelânicas a colocar à mesa o chá e a ensaiar aquele sorriso que é este mar que inunda e retrai o meu duríssimo pepino inglês na adubada plantação da púbis.

Penso em como seríamos felizes, eu, a mulher e os filhos. O Eric, o primogénito, de quem há pouco vos falei, que ganhou esse nome graças aos óculos redondos de Eric Clapton, mesmo à moda do John Lenon, que na verdade detesto por me trazerem cá um ar afeminado, e também pelos discos que colecciono do Eric B, parceiro do negro liricista nova-iorquino Rakim, este último, parteiro da consciência de Nasir Jones, autor da canção Africa Must Wake Up, ao lado do filho mais branco de Bob Marley.

Como seríamos realmente felizes e unidos em frente à mesa farta ao almoço, com as verduras da nossa horta e uma adestrada galinha-do-mato banhada em leite de coco com um bocado de pó de amendoim, um achar de piripíri com mangas verdes, azeite e vinagre, um colorau indiano gentilmente cedido pelas mãos mercantis do Jamaradan, adicionando-se um sal à medida da minha hipertensão. Tudo isso habilidosamente temperado num fogareiro à lenha pelas mãos mestras de mim com o auxílio do manual de memória das refeições da minha mãe, professora de profissão e cozinheira por vocação. E é por isso que não me envergonho de esta mulher com a qual sonho não saber cozinhar.

E já degustando a sobremesa, tâmaras dulcíssimas oferecidas pelo Abdul Adá, madrugador amigo de todas as infâncias, falaríamos de paz, fraternidade, socialismo, compreensão, perdão, tolerância e amor, muito longe dos fantasmas da guerra. Muito longe de pensar naquelas imagens para além do interior da fotografia com crianças à mingua de pão, bebendo da milimétrica chuva acumulada no buraco desalcatroado de uma estrada, alimentando-se de insectos refugiados em cascas de árvores e defecando por entre cadáveres mortos à balas.

Muito longe das elegias diárias, do assombroso sonido dos mísseis e bazucas que no sínodo eucarístico dos exércitos, os homens pelo arrebol ressuscitam a noite para decepar as mãos dos seus irmãos, assar-lhes as orelhas e guisar-lhes as tripas. Morro sim, e morro claramente de vergonha porque a minha terra é este país que sou. País este que é um sudário de sangue com que se nos quer enterrar ainda vivos e com o núcleo vital ainda a pulsar ao peito.

 

Escrito por Álvaro Fausto Taruma

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