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O legítimo filho da mãe hipocrisia

O legítimo filho da mãe hipocrisia

É impossível circular pelas ruas da vila de Mueda na província de Cabo Delgado e não encontrar vestígios do Massacre de 16 de Junho de 1960. As ruas, as casas e a própria natureza permanecem verdadeiros museus daquela imperdoável carnificina. Esta história é tão comum ouvir dos habitantes como o nome de Ângelo, um electrotécnico de mão cheia daquele ponto do país.

Mas não é do reparador de aparelhos de som que vamos nos debruçar, e sim de Ângelo José Maria, um atleta que desde o ano de 2002 reina nas pistas de corrida na zona Norte do país e que agora luta pelo reconhecimento a nível nacional. Mais, o Ângelo atleta passou pelos campeonatos nacionais de atletismo de 200 na Beira e de 2009 em Pemba, tendo terminado na quarta posição nos 10 000 metros e segunda nos 15 quilómetros de estrada.

Com 30 anos de idade, entrou no mundo do atletismo há sensivelmente dez anos. O seu talento foi despoletado na escola quando competia nos jogos escolares daquela província nortenha do país. A sua estreia foi apadrinhada pelo então treinador Samuel Namacoma, que viria a perder a vida em Junho de 2003, um ano depois de ter lançado o jovem atleta.

Sem clube e sem técnico, o atleta ficou tão abalado que chegou a pensar em desistir da fresca carreira. No entanto, herdou do finado um livro sobre as técnicas de corrida que o fez acreditar no sucesso, mesmo sem condições.

A sua primeira aparição como federado foi no Campeonato Provincial de Atletismo de Cabo Delgado, tendo, num conjunto de 12 atletas, vencido a competição e garantido a sua qualificação para o campeonato nacional do mesmo ano.

De 2002 até o presente, Ângelo Maria participou em diversos campeonatos (provinciais, regionais e nacionais), mas é nas léguas (meias maratonas) onde mais se destacou e é sobejamente conhecido como um vencedor nato por ter conquistado medalhas de ouro em todas as competições nas quais participou, com destaque para as do dia da cidade de Pemba, da cidade de Nampula, as das festividades do primeiro de Dezembro em Chiúre e o Campeonato Regional de Atletismo, organizado pela Petromoc.

Ganhar sem clube, sem apoio e sem treinador

Ângelo nunca teve clube. Desde a morte do treinador a quem considera pai, nunca teve o auxílio de ninguém. Participa e ganha todos os certames por esforço e mérito próprios.

Desde o equipamento que veste até às deslocações, tudo é custeado pelo pouco que ganha da sua pequena oficina de reparação de aparelhos, apesar de existir em Cabo Delgado um governo provincial, uma Direcção da Juventude e Desportos e uma classe empresarial. Tudo chega a custar-lhe por competição entre 5 000 e 20 000 meticais.

Da Associação Provincial de Atletismo pouco ou nada se espera até porque é uma agremiação que se ficou pelo nome, uma vez que em nenhum clube de Cabo Delgado é praticada a modalidade de atletismo.

Apesar das glórias, nunca recebeu das mãos do Governo nenhum tipo de apoio, embora seja o mesmo que se vangloria de ter um atleta na província que vence as corridas regionais.

Em 2004, embora tenha vencido todas as meias maratonas que teve pela frente, com destaque para a do dia da cidade de Nampula, não participou no Campeonato Nacional de Atletismo por falta de dinheiro. O mesmo cenário repetiu-se em 2010 em Tete depois de, no ano anterior, ter ficado em segundo lugar na prova nacional que decorreu na cidade de Pemba.

Não obstante tenha provado ter aptidão para a modalidade, o jovem atleta não participou na X Edição dos Jogos Africanos por falta de clube. Esforços nesse sentido redundaram num fracasso pelo simples facto de em Cabo Delgado não existir nenhum clube que se dedique ao atletismo.

Penhorou a mota para vir a Maputo

Ângelo foi convidado telefonicamente pela Associação Provincial de Atletismo de Cabo Delgado para participar no Campeonato Nacional de Atletismo, que decorre desde o dia 2 e que se prolongará até ao dia 07 do corrente mês no Estádio Nacional do Zimpeto nas corridas dos 5 000 e 10 000 metros.

Contudo, ninguém se responsabilizou pela vinda do atleta a Maputo que, por amor à camisola, decidiu penhorar o seu único meio de transporte, a motorizada, em troca de um empréstimo de 10 000 meticais, os quais deve reembolsar quando regressar, embora esteja ciente de que, mesmo ganhando as duas medalhas, não terá nenhum prémio monetário.

A referida motorizada custou 21 000 meticais, amealhados ao longo de muitos anos de trabalho. Porém, já em Maputo, o atleta de Cabo Delgado corre num outro sentido: procurar os 10 mil meticais para reaver a motorizada, visto que o seu maior sonho é conquistar o lugar de Lurdes Mutola.

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