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O humorista com espírito de cantor

OBITUÁRIO: Morreu Chaguatica Dzero

Aos 50 anos já é o maior humorista moçambicano e na infância tudo o que queria era ser músico. Nelson Coutinho de Sousa é natural de Chimoio e chegou a Maputo para gravar um disco, mas cinco minutos a contar piadas numa festa radiofónica abriram-lhe as portas da Rádio Moçambique. Ainda é do tempo em que se podia chamar o PR de Mariazinha. Hoje, nem pensar…

Chaguatica Dzero continua a ser uma das mentes mais criativas do humor nacional. Aos 50 anos de idade, o seu virtuosismo está longe de se esgotar apenas na arte de contar piadas e fazer sátira. A música é a sua outra paixão e acompanha-o desde miúdo mas o humor é o dom que se lhe cola à pele quando o seu nome vem a terreiro.

Nelson Coutinho de Sousa, ou simplesmente Chaguatica, é mais do que um simples humorista. Despertou para o mundo das artes ainda cedo, quando frequentava uma escola primária na cidade de Chimoio. Mas foi aos 10 anos de idade que começou a dar os primeiros passos no universo da música no agrupamento Oliveira Muge.

“Era um grupo constituído por pessoas adultas e era uma das melhores bandas de música que existia na época”, comenta. Iniciou- se a tocar bateria e, mais tarde, passou a dedilhar guitarra. A paixão pela música ainda se mantém, embora não de forma intensa.

Ainda na infância, fez parte de pequenos grupos teatrais que se apresentavam em datas importantes como as de festas de Natal e do fim do ano. “Sempre fazia papéis cómicos nas peças teatrais. Numa das nossas apresentações, um professor prestou atenção à minha actuação e viu que tinha talento”, conta.

Não deve a sua fama ao escrutínio público e tão-pouco a um mero golpe de sorte, mas graças a uma rara qualidade inata em contar piadas e satirizar a realidade tornou-se o melhor humorista nacional de todos os tempos. Diga-se, Chaguatica é um de poucos artistas capazes de galvanizar a atenção do público sem ter de mostrar o seu rosto.

“Há humoristas cujas piadas só têm graça quando os vemos. Eu, particularmente, nunca precisei de dar a cara para que as pessoas se riam das minhas piadas”, orgulha- se.

Mas fazer humor nunca foi a sua prioridade, até porque o sonho de menino sempre foi tornar-se um grande músico. “Cresci num ambiente no qual os meus pais incentivavam- nos a estudar. Eu estava inclinado para a música e dediquei-me muito a ela”.

A sua entrada no mundo de humor não foi algo pensado. Tudo inicia quando o mercado de música começou a registar momentos difíceis em termos de espectáculos. Com mais de 25 anos de trabalho e uma legião de admiradores, o músico viu-se na desconfortável situação de reinventar a sua carreira porque “a música já não estava a dar”, visto que, por um lado, não havia instrumentos musicais e, por outro, as casas de pasto começaram a apostar nos DJ’s.

Nelson de Sousa deixou de fazer música e passou a trabalhar numa Organização Não Governamental. Aliás, quando podia, fazia algumas actuações mas não passava de hobby. Com o músico Célio Figueiredo, o artista lançou o trabalho discográfico denominado “Haja Amor”.

Mas foi na altura em que veio à cidade de Maputo para gravar o disco que viu as portas do universo das piadas abrirem-se. Chaguatica aproveitou-se duma pausa para, em cinco minutos, numa festa da Rádio Moçambique (RM), onde haviam sido convidados para apresentar as suas músicas, contar algumas anedotas. E o resultado: caiu na graça do público presente. “O humor fez sempre parte de mim, mas nunca o levei a sério”, afirma.

Momentos depois, o artista recebeu um convite do antigo presidente do Conselho de Administração da RM, Manuel Veterano, para fazer um programa radiofónico de humor. Chaguatica não se fez de rogado e aceitou logo o repto, perto de celebrar o seu 30º aniversário.

“Nunca pensei que faria do humor a minha profissão. Sempre achei que seria da música que viveria, embora tenha crescido numa época em que havia muito preconceito à volta da figura de músico. Na altura, ser músico era sinónimo de marginal ou de indivíduo ‘sorumático’ e de vida desregrada. Hoje, a concepção é outra”, comenta.

Porém, antes de levar ao ar o seu próprio projecto, o humorista dava o ar da sua graça num espaço de pouco mais de cinco minutos no programa de Luísa Menezes denominado “30 Por Uma Linha”. Mais tarde, viria a assinar um contrato de exclusividade, que perdura há mais de 12 anos, com a emissora pública.

“Hoje o humor é bastante filtrado”

Quando começou a dar os primeiros passos como humorista, Chaguatica não acreditava no sucesso do seu trabalho, que foi ganhando alento à medida que o tempo ia passando. Com um assaz e peculiar sentido de humor mesclado de grandeza criativa, fez – e continua a fazê-lo – o país inteiro soltar gargalhadas com a realidade da sociedade moçambicana que ele, como ninguém, sabe ficcionar.

Os pequenos insólitos do quotidiano dos moçambicanos e as questões ou figuras ligadas à política nacional eram os temas que dominavam o programa. Se no passado podia fazer sátira de assuntos políticos e sociais do país sem ter de se preocupar, actualmente a situação é “um bocado difícil pois nem tudo o que fazemos chega ao público”, acrescenta: “Hoje, o tipo de humor é bastante filtrado”.

Mas o que preocupa o humorista não é apenas o controlo do tipo de anedotas que se devem fazer, mas a falta de senso de humor dos governantes. “Os políticos de hoje não têm senso de humor e sentem-se ofendidos com qualquer tipo de piada. Antigamente, isto é, no governo de Chissano podia-se fazer graça com qualquer dirigente e ninguém se ofendia. Já apelidei o presidente Chissano de Mariazinha por várias vezes, hoje nem sequer se deve pensar em fazer uma coisa idêntica”, lamenta.

Agora, a situação resume-se apenas em fazer sátiras de pequenos assuntos sociais. “É preciso rirmos de nós mesmos. Rir é uma terapia, é saudável”, diz.

Riso Não Paga Imposto

O “Riso Não Paga Imposto” é o primeiro programa radiofónico dedicado ao humor. Desenhado por Luísa Menezes, o programa tem um perfil que vai mudando de acordo com as situações ou a realidade. “Nem sempre aquilo que chega ao público é tudo aquilo que queremos”, lamenta.

Chaguatica convidou diversos jovens emergentes no mundo de humor, como, por exemplo, Ring Ring, Búfalo, Watsongo e Mito Munguambe, para fazerem parte do programa e ajudou grande parte deles a chegar à ribalta. “No início, o programa era feito por um locutor e, mais tarde, nós passamos a fazê-lo. Com o tempo, a rádio dispensou outros e ficámos apenas eu e o Ring Ring”, conta.

Conduzido por Chaguatica Dzero, o “Riso Não Paga Imposto” começou por ter cinco minutos diários de duração, passou por trinta por semana e, depressa, chegou a uma hora semanal. Tempos depois, voltou aos trinta minutos semanais e, presentemente, dispõe de apenas 15 minutos.

Os temas do programa são definidos durante a semana, ou seja, os humoristas procuram os assuntos e fazem uma concentração para de – finir o conteúdo. Nas terças-feiras, é gravado, de seguida passa pelo director do programa que edita o teor, e só depois disso vai ao ar todos os domingos de manhã. “A audiência caiu porque o programa esteve durante um ano fora do ar e também a hora e o dia de semana de emissão não é ideal, pois sabe-se que aos domingos grande parte das pessoas está na igreja”, afirma.

Ao longo da sua carreira como humorista, Chaguatica diz já ter passado por momentos nada agradáveis por causa das graças que fez. “Muitos ouvintes ligavam para a Rádio para repudiar algumas anedotas ou sátira que fazíamos de certas pessoas. Já fui punido com 10 dias sem salário”. Mas o mais desagradável é o facto de “muita gente não levar a sério o Nelson de Sousa por causa de Chaguatica Dzero” – expressão nhungué que literalmente significa “juízo quebrado”.

Nascido a 21 de Janeiro de 1961 em Ribáuè, província de Nampula, Chaguatica cresceu entre Sofala e Manica. Olha para o futuro da arte de fazer rir com optimismo, pois, segundo ele, “existem jovens humoristas com muito talento e força de vontade”.

O humorista colecciona duas distinções – Melhor Humorista de Ano 2002 e 2003 –, sete álbuns lançados e pretende editar uma colectânea com as suas melhores piadas e sátiras. “Durante cinco anos não lancei nenhum álbum e tenho muito material. Estou a estudar uma forma de fazer um CD”, revela.

Pai de três filhos, um dos quais puxou o lado de músico do seu progenitor, diz que, apesar de ser difícil, é “possível viver” fazendo humor. Mas não é só de humor que Chaguatica vive, nos tempos livres o também músico toca em casas de pasto.

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