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O homem que quer acabar com a Suíça

Graças ao filho que quer modernizar a Líbia, o governante há mais anos no poder reaproximou-se do Ocidente. Graças a outro descendente conhecido pelas piores razões, o coronel voltou à retórica beligerante. “Sou um líder internacional, o decano dos chefes árabes, o rei dos reis de África e imã dos muçulmanos”, disse Muammar Kadhafi no ano passado, durante uma cimeira da Liga Árabe.

O acesso de humildade ocorreu após ter chamado “produto britânico” ao rei saudita Abdallah e de o anfitrião, o emir do Qatar, ter tentado acalmá-lo. É este o mesmo homem a quem os seus admiradores elogiam o facto de nunca se ter autopromovido ao topo da hierarquia militar, de só ter ascendido de capitão a coronel. E é apenas uma das facetas de uma personalidade tão berrante quanto as suas roupas ou com tantos aspectos contraditórios quanto o número de formas com que o seu nome se escreve no alfabeto latino (quem se dedicou a esta contabilidade encontrou mais de 30 variantes). Após alguns anos na sombra, Kadhafi voltou à ribalta mediática, tendo agora Hugo Chávez como competidor ao nível das diatribes.

Ainda nos encontros com os homólogos árabes ficaram para a história as ocasiões em que apareceu de luva branca na mão direita para não cumprimentar “mãos ensanguentadas”, ou quando atirou com o fumo de um charuto ao antecessor de Adballah, Fahd, ou ainda quando classificou israelitas e palestinianos de “idiotas”. O seu mais recente cavalo de batalha é a Suíça. A origem do conflito data do Verão de 2008. Um dos seus oito filhos, Hannibal – tornado famoso por certa vez ter conduzido em contramão, a alta velocidade, pelo centro de Paris – foi detido com a mulher em Genebra, na sequência de dois empregados se terem queixado de maus tratos. As queixas foram retiradas mas a vingança não se fez esperar.

As filiais líbias das empresas suíças Nestlé e ABB fecharam, os voos comerciais entre os dois países foram cancelados, milhões e milhões de dólares foram sacados dos bancos helvéticos, e o petróleo, os produtos farmacêuticos e os relógios deixaram de ser trocados. Dois empresários suíços foram presos na Líbia, acusados de estarem no país de forma ilegal e de manterem actividades proibidas.

Um deles já voltou para casa, mas o outro continua a cumprir pena de prisão. A Suíça tem uma lista de 188 líbios que não podem entrar no país (e por estar no espaço Schengen, também estão proibidos de pisar boa parte do solo europeu); em contrapartida, os europeus não entram na Líbia. Dissolver a Suíça De nada valeu a ida a Tripoli do então Presidente suíço Hanz-Rudolf Merz, para aplacar a ira dos dirigentes líbios. No mesmo mês, Hannibal, segundo o diário Tages-Anzeiger, afirmou que se tivesse armas nucleares iria “varrer a Suíça do mapa”. O pai, mais imaginativo, propôs que a Confederação Helvética fosse dissolvida e dividida entre a Alemanha, a França e a Itália.

E há dias, a propósito da proibição por referendo da construção de minaretes, decidiu lançar uma jihad (guerra santa). “Uma jihad contra a Suíça, contra o sionismo, contra a agressão estrangeira não é terrorismo”, defendeu. Mas o coronel está longe de ser visto como uma autoridade islâmica. “Não tem credibilidade para fazer este apelo porque apenas se representa a si próprio, nem sequer o seu povo”, contrapôs de imediato o anterior porta-voz da mesquita de Genebra, Hafid Ouardiri. O braço de ferro com a Suíça representa um retrocesso na imagem do “guia da grande revolução da Grande Jamahiriya Socialista Popular Árabe da Líbia”, as designações oficiais do seu posto e do seu país (Jamahiriya é um termo cunhado pelo próprio e que significa ‘Estado das massas’).

Em 2003, após a deposição do regime de Saddam Hussein, Kadhafi afirmou renunciar ao programa de armas de destruição maciça. Recebeu o Primeiro-Ministro britânico Tony Blair e a secretária de Estado dos Estados Unidos da América Condoleezza Rice. Para trás pareciam ficar, em definitivo, os dias de ostracismo em que chegou a ser mimoseado de “cão louco” pelo Presidente Ronald Reagan, que em 1986 ordenou um ataque aéreo a unidades militares líbias e à residência do ‘irmão guia’. Bettino Craxi, então Primeiro- Ministro italiano, avisou Kadhafi do raid, mas este não conseguiu evitar a morte de uma filha adoptiva.

O actor-Presidente norteamericano reagiu então a um atentado à bomba numa discoteca em Berlim que vitimou cidadãos dos EUA. Antes do final dos anos ´90, o regime líbio esteve ainda por trás de dois atentados em aviões, o voo Pan Am 103 que explodiu por cima de Lockerbie, na Escócia, e o UTA 772 que rebentou quando sobrevoava o Saara. Os actos terroristas fizeram 440 mortos e valeram à Líbia sanções da ONU. O Jovem Conspirador Kadhafi e a Líbia são casos únicos no mundo.

O que não é necessariamente um elogio. Filho de beduínos, Muammar Abu Minyar al- Kadhafi nasceu no deserto, em Sirt, no ano em que a Itália fascista se retirou (1942). Pouco se sabe da sua infância. A BBC conta que o seu pai e um tio faziam parte da resistência e que foram presos pela potência colonial. Já com a Líbia independente e monárquica, o jovem Muammar teve como primeiro inspirador Nasser, o Presidente do vizinho Egipto que tinha como bandeira o pan-arabismo, a unidade dos povos árabes. Quando entrou na academia militar, em 1963, Muammar formou um grupo conspirador com o objectivo de derrubar o regime pró-ocidental. E assim o fez seis anos depois, aos 27 anos, tendo aproveitado a ausência do rei Idris do país. O golpe foi pacífico, o que deu ao líder e guia da revolução uma aparência cool complementada já então pelo seu fraquinho por óculos escuros. A verdadeira face do regime foi entretanto exposta.

A comunidade italiana recebeu ordem de expulsão, os partidos políticos foram proibidos e o país ganhou fama de apoiar causas radicais, como, por exemplo, o Exército Republicano Irlandês (IRA, sigla em Inglês) ou a Organização de libertação da Palestina (OLP). Tentou, sem sucesso, unir-se ao Egipto, à Síria e à Tunísia. Nos anos ´70, à imagem de Mao Tse Tung e da colectânea de citações suas popularmente conhecida por Livro Vermelho, Kadhafi apresentou as suas soluções definitivas para os males do mundo em O Livro Verde, um concentrado de socialismo e de islamismo, de senso comum e de reaccionarismo, no qual deplora os regimes democráticos e defende a democracia directa através de comités populares.

Dois exemplos das contradições do coronel: na terceira parte do livro afirma que “o trabalho de homem esconde os belos traços da mulher, criados para papéis de fêmea”; mas a guarda pessoal de Kadhafi é constituída exclusivamente por mulheres. Outro paradoxo: verbera contra os clubes desportivos, “instrumentos sociais monopolistas” que “estupidificam” as massas, quando deviam ser estas a praticar os desportos, mas o clã Kadhafi tem 7,5% das acções da Juventus, além de ter controlado o Perugia quando Saadi Kadhafi fez parte do plantel (jogou só uma partida até ao momento em que foi apanhado com doping).

Discurso até ao Colapso

Mais contradições, só no famoso discurso que Muammar Kadhafi produziu em Setembro, na Assembleia Geral das Nações Unidas: mais de hora e meia que deixou o seu intérprete em colapso e a sua substituta em palpos de aranha.

Saudou o “nosso filho Obama” e propôs a retirada da ONU de Nova Iorque para, por exemplo, Bengasi, por acaso na Líbia, acusou o Conselho de Segurança da ONU de ser o “conselho terrorista” e pediu a sua abolição, quando ele próprio patrocinou actos terroristas; lembrou que durante a existência das Nações Unidas houve 65 guerras – uma delas iniciada pelo próprio coronel com o Chade -, para depois atacar o tratado que proíbe o uso de minas terrestres; defendeu a criação de um único país a partir de Israel e da Palestina, Isratina; exigiu uma indemnização estratosférica aos países que colonizaram África (depois do pan-arabismo virou-se para o pan-africanismo), e pediu para se investigar criminalmente a invasão do Iraque mas também o assassínio de John Kennedy, tendo apontado o dedo aos israelitas.

Durante a espiral de acusações, em que até a gripe H1N1 veio a lume, Kadhafi atirou a Carta de Princípios da ONU ao secretário-geral Ban ki-Moon. Aos 67 anos e com 40 no poder, o mais antigo líder em exercício – excepto alguns monarcas – estará tentado em manter o regime nas mãos do clã. Dos oito filhos, Saif al-Islam e Mutassim são os que se perfilam como sucessores; mas é no primeiro que se depositam as esperanças na transformação do país. Foi ele quem esteve por trás da abertura dos últimos anos.

Em 2008 anunciou que se retirava da política. “Não aceito nenhum cargo sem uma nova Constituição, novas leis e eleições transparentes”, disse ao New York Times. A base de sustentação do regime foi e é o petróleo – descoberto dez anos antes do assalto ao poder – e o gás. O facto de ser um dos maiores países do mundo em área e de ter pouca população (6 milhões de habitantes quando o vizinho Egipto tem mais de 80 milhões e quase metade da área) ajuda a explicar o porquê de estar em primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento Humano em África. Saif sonha com um país modernizado: “Podemos ser o Dubai do Norte de África”. E sem a necessidade de ameaçar os suíços.

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