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“O Governo esqueceu-se do voluntário…”

Em Inhambane, Hélio D, um dos fundadores da banda Djovana, já desaparecida, é presidente da Associação Positivo de Moçambique. A agremiação desenvolve o turismo cultural, na praia de Tofo. Mas o cantor, a par dos alunos do ensino secundário, também luta contra a SIDA, tendo-nos explicado as razões do declínio da sua colectividade musical. Entretanto, para si, “ninguém apoia o voluntário no país”.

Há dois anos, o cantor moçambicano, Hélio D, criou a Associação Positivo de Moçambique – organização a partir da qual contribui para o desenvolvimento do turismo cultural. No rol das suas actividades, a Positivo de Moçambique também trabalha com os estudantes do ensino secundário geral na produção de músicas para reforçar a luta contra a SIDA. Para muitos alunos, o projecto é um trampolim para seguirem uma carreira artística.

Na verdade, as acções para o desenvolvimento do turismo cultural são uma alternativa que sustenta a materialização da segunda iniciativa. A raiz do problema, ou, se quisermos, da criatividade, é uma: “Invariavelmente, quando se faz uma proposta de actividades no contexto da luta contra a SIDA a um financiador, nem sempre se encontra o financiamento. Noutras vezes, os apoios chegam muito tarde, o que complica a concretização dos planos”.

As obras são expostas perante os turistas, em Inhambane, dentro da programação das actividades da Associação Positivo de Moçambique. Segundo Hélio D, na cidade de Maputo, por exemplo, há pessoas que apreciam a realização de turismo na província de Inhambane. Sucede, porém, que nem todas suportam o custo dos preços praticados na praia do Tofo. Para este grupo de turistas que não têm condições financeiras para aceder àquela estância, criou-se o “Tofinho” nas proximidades da praia de Tofo.

Na quadra festiva do fim do ano, por exemplo, as pessoas são encaminhadas ao campismo Djovana, de turismo comunitário e de cultura local, onde há facilidades de pagamento.

O dinheiro aí arrecadado é investido nos projectos da produção de música para a sensibilização e mobilização das pessoas, mormente os alunos, na luta contra a SIDA, incluindo a realização de acções de filantropia como o apoio aos orfanatos, em Maputo. Hélio D explica que o objectivo dessa estratégia (que na verdade é um conjunto de acções) é encontrar alternativas para gerar dinheiro a fim de reduzir a dependência da boa vontade dos financiadores, sobretudo nos momentos de crise financeira.

Ainda no âmbito da luta contra a doença, o outro projecto dinamizado pela Associação Positivo de Moçambique, financiado pelo Departamento de Combate à SIDA no contexto do programa PEPFAR do Governo dos Estados Unidos da América, será a gravação de um trabalho discográfico envolvendo alunos do ensino secundário da cidade de Maputo. “Serão os próprios alunos que, a par da ajuda dos técnicos do Núcleo de Combate à SIDA, irão compor poemas para serem interpretados para a difusão da mensagem de combate ao mal”.

Entretanto, “como não temos condições para realizar um acampamento, iremos explorar a área de expansão da Associação Cultural Muodjo, no bairro de Matendene, para o efeito. Esperamos ser expostos numa situação que nos irá inspirar a desenvolver pensamentos que nos conduzam à materialização desse projecto”. Esta é outra estratégia para contornar as barreiras impostas pela falta de dinheiro.

Sabe-se, porém, que de Inhambane virão a Maputo sete pessoas da Associação Positivo de Moçambique. Dentre elas há um produtor musical austríaco, um artista plástico inglês e uma colaboradora norte-americana a fim de fazerem trabalhos voluntários. Os artistas em referência irão interagir com os seus pares para a geração de mensagens com algum impacto na prevenção e combate à SIDA. O projecto será realizado em Julho, com a gravação de músicas e vídeos.

O Governo não apoia

Hélio D explica que o trabalho que tem desenvolvido é, essencialmente, de natureza voluntária. No entanto, o principal embaraço enfrentado por si e pelos seus pares é a falta de auxílio ao voluntário. “O apoio não precisa, necessariamente, de ser financeiro ou material. Mas pode ser em termos de reconhecimento da existência das nossas actividades. É importante que haja abertura para um aconselhamento ou assessoria em assuntos burocráticos, facilitando-se, por exemplo, a obtenção de licenças e de alvarás para que operemos de forma legal. No entanto, nem nisso, no mínimo, o Governo consegue fazer”.

O cantor diz que é embaraçoso trabalhar como tal numa sociedade em que não se reconhece o voluntário. “Os artistas enfrentam dificuldades na promoção de palestras, realização de trabalhos dos seus ramos, na perspectiva do voluntariado, quando não encontram apoios para a satisfação de necessidades básicas. Então, como associar voluntários e, ao mesmo tempo, gerar um rendimento que lhes garanta as condições de alimentação e de transporte?”. A falta de apoio, resultante da descrença nas acções das associações, também é manifestada pela imprensa.

“A comunicação social entende que as agremiações são instrumentos de fazer dinheiro. Por isso, os jornalistas pensam que elas têm muito dinheiro, o que não é verdade. Por isso, quando nos aproximamos da imprensa (para divulgar as nossas acções e, por via disso, conquistarmos alguma credibilidade perante os mecenas), ela não colabora porque se pensa que as associações usam os órgãos de informação para atrair os financiadores, enriquecendo pessoas singulares”.

Enfim, “na verdade, em Moçambique não há apoio ao voluntário. Além disso, vigora um espírito de desunião e individualismo. Entre os artistas, essa realidade manifesta-se através de uma actuação isolada, não sinérgica entre eles, o que não é estratégico”.

Banda desaparecida

De acordo com Hélio D, foi a falta da atenção e do apoio dos artistas mais experientes que a sua banda desapareceu. “O que sucedeu é que (mesmo por parte dos artistas mais velhos, naquela altura) ninguém prestou apoio à banda. Perceberam que a Djovana era um projecto bonito que – apesar de ser constituído por miúdos de 14 anos – em menos de um ano de carreira, já tinha realizado uma digressão num país europeu. Possuía uma música apreciada por todas as pessoas. Para muitos músicos, aquele acontecimento significou uma concorrência, e não algo que devia ser abraçado e apoiado por todos”.

Hélio D explica que quando a banda Djovana foi popularizada no país pela Televisão de Moçambique (altura em que, tardiamente, os moçambicanos a conheceram) na verdade, ela já estava em declínio. Nilza, a única rapper, já havia casado com um cidadão suíço. Outros membros, que já não eram adolescentes, estavam a enfrentar dificuldades sociais. E a música não lhes dava nenhuma luz.

Por mero acaso, “nessa fase encontrei o Stewart Sukuma, na Beira, a quem falei sobre o nosso projecto e ele encaminhou-nos à Televisão de Moçambique para a divulgação do projecto. Ele tinha muitos trabalhos como músico, por isso não aceitou ser nosso gestor. E era disso que precisávamos”.

Além do mais, “mesmo que se quisesse dar algum andamento aos projectos da banda a outro nível, do ponto de vista artístico não era viável porque os seus membros já estavam dispersos. Era difícil encontrar uma rapper que tivesse as qualidades artísticas da Nilza”.

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