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A Ntyiso wa wansati: O Fim do Deserto

E se o deserto se transformasse num mundo novo? Talvez o mundo precise de desertos, mas prefiro pensar que todos os desertos são temporários, como se constituíssem uma provação que, depois de ultrapassada, desaparece e se esquece para sempre.

Tu chegaste com a curiosidade silenciosa e sábia e lembraste- me o Principezinho, com o mesmo olhar curioso e as mãos nos bolsos, querendo perceber tudo sem estar à espera de nada. E eu fui o sábio, o rei, a flor e a raposa, fui o aviador que lhe quis ensinar coisas e descobriu que tinha afinal muito mais a aprender.

No planeta do Principezinho era tudo pequeno, até o deserto e por isso ele sentia-se só. Hoje olho para ti e vejo-o a ele, sábio e silencioso, ao meu lado como se o mesmo caminho que percorremos um pouco mais todos os dias fosse desde sempre o escolhido e lembro-me do que ele disse acerca do amor não ser olhar um para o outro, mas os dois na mesma direcção. Pensei que as histórias de amor, por serem tão belas e perfeitas, não podiam passar do papel e da imaginação.

Pensei que era por isso que todos os poetas e romancistas as escreviam; porque só assim podiam chegar a elas, vivê-las e respirá-las na imaginação das palavras, nunca tentativa apaixonada de alcançar uma outra dimensão que não esta terrena, sórdida e vulgar, onde todos os dias tropeçamos na lama das almas.

Mas tu chegaste e mostraste-me o contrário. Provaste- -me que a vida está acima das palavras e que a realidade pode ultrapassar a mais bela e doce ficção. E estendeste- me a mão, como se viajar contigo fosse a coisa mais simples e natural do mundo. Deve ser por isso que quando te dei a mão e decidi partir, nunca perguntei até onde íamos.

Agora já não pertenço a ninguém senão a ti, ao nosso sonho, à vontade inabalável de construir um mundo contigo onde as sementes estão protegidas do medo e do vento e o deserto vai desaparecendo com as nossas fl ores de todas as cores.

Daqui a alguns anos, as árvores estarão altas e frondosas. As suas folhas hão-de cair e fazer fofos tapetes onde os nossos filhos poderão brincar. Haverá frutos dessas árvores. E vontade de semear mais promessas, que façam crescer outras flores, outros ramos, outros frutos.

Daqui a alguns anos poderemos passear pelo jardim durante muito tempo sem sequer avistar o deserto. E podemos reler o Principezinho e reconhecer no céu a estrela que nos protegeu. E, sentados debaixo da primeira árvore, poderemos cheirar as flores e contar às crianças como num fim de tarde cheio de sol, nos cruzamos para sempre no coração da cidade e decidimos acabar com o deserto.

Não tenho nenhuma varinha mágica nem possuo artes de feiticeira, tudo o que conheço é o que sinto e escrevo, mas sei que os desertos podem acabar se continuar a plantar um mundo novo contigo. E mesmo que esse mundo seja só nosso, as sementes darão flores e árvores e filhos, e um dia o jardim será imenso e perfeito, como o nosso amor.

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