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Nossa sociedade aos pontapés, por Rui Mendes

Sr. Director,

Agradecia por favor que publicasse este artigo no jornal que dirige. Nos tempos em que lá vão, tempos de escola e não só, quando brincávamos à cabra-cega, escondida de bola, zoto, berlindes, rolamentos, xinguerenguere, ntxuva, neca, mathakuzana, carrinhos de arame e latas e outras brincadeiras saudáveis que só nos enchiam de alegria, entusiasmo e mesmo sujos por fora de tanta areia, poeira, óleos, por dentro nos faziam crescer, amadurecer e tornarmo-nos os homens que somos hoje.

É verdade, as nossas grandes partidinhas de futebol entre bairros faziam-nos percorrer longas distâncias e por vezes descalços (porque muitos dos nossos pais não tinham condições de comprar um par de sapatilhas para praticarmos o desporto-rei), e as bolas eram muitas vezes de xingufo (restos de panos e plásticos velhos) e mais tarde de bolas de plástico (Emplama) que se adquiria na famosa Somorel.

Mas eram jogos a “sério”, carregados de muita garra e suor e quem marcasse golo era realmente craque. As nossas pequenas grandes festinhas eram de sumo concentrado da Loumar que misturávamos com muitos litros de água para que pudesse chegar para todas as criancinhas convidadas e esses líquidos acompanhavam os adorados e deliciosos biscoitinhos que as nossas mães carinhosamente faziam.

E assim estava feita a festa cheia de muita alegria e cor, depois daquilo era só brincar, correr e saltar a corda e tudo mais que nos deixava bem transpirados. Na pré-adolescência e até na adolescência, as meninas faziam concurso de xitchuketa entre zonas e faziam parar tudo e todos. Era bonito.

“A pontualidade é a regra da disciplina”, assim vinha num dos nossos livros da Primária e que era escrupulosamente respeitada porque, caso contrário, apanhávamos algumas reguadas e rectificávamos logo os nossos atrasos e até o comportamento.

Tínhamos que obrigatoriamente saber toda tabuada e fazer cópias para melhorar nossa caligrafia. A Escola era um lugar sagrado, respeitado, e era proibido faltar porque logo a seguir os professores chamavam os nossos pais.

Mais tarde veio o tempo da música que era feita de latas velhas, arames e garrafas e aí montávamos os nossos conjuntos (mas tudo natural ou acústico) e lá cantávamos os Robertos Carlos, os Kassav, os Trio Esperança, Abba, Lindomar Castilho, Milli Vanilli, Eduardo Paim, Paulo Flores e todas outras canções que faziam parte do tempo.

As nossas irmãs passavam versos de música e cantavam connosco. Participávamos em concursos de break dance, funk e beat aos sons de Bobby Brown, Johny Gill, Kool and the Gang, Teddy Pendergrass, The Boys, Lionel Richie, New Kids on the Block e outros. Pura adrenalina. Alguns de nós tínhamos gira-discos e os famosos springbok soavam bem alto e dançávamos sem nos importarmos com a perfeição dos passos.

Nas nossas festas adolescentes dançávamos as “slets” (hoje slows) mas com a luz acesa sob supervisão de alguém mais velho e para se ir as tais festas metia-se o “requerimento” aos nossos pais com uma ou mais semanas de antecedência e esperávamos ansiosos pelo “despacho”.

Lembro-me de como enchia a casa dos meus pais (dos C.F.M.) quando a Televisão Experimental de Moçambique exibiu a primeira novela “o bem-amado”. Mas nem todos podiam assistir porque como diziam os mais velhos: novela não era coisa de crianças. Os filmes para maiores de doze anos eram uma apetência dominical eterna no cinema Scala e rigorosamente nos fazíamos presentes.

De regresso à casa passávamos pelo Criador tomar um sorvete, mas éramos obrigados a correr para casa porque tínhamos horas restritas de chegada. No verão, ficávamos largas horas a conversar até tarde, na companhia dos nossos pais, que contavam os seus “antigamente”. Bons tempos aqueles. É verdade. Pois então, os tempos mudaram.

Nada, ou quase nada, tenho contra os tempos de hoje. Sou de opinião que se dê aos nossos filhos o que de bom e de melhor eles merecem (mesmo não merecendo têm direito). É isso sim, o nascimento dos nossos filhos é (muitas vezes) planeado. As coisas não estão fáceis hoje em dia mas é necessário saber gerir à determinadas situações.

Sermos resilientes para podermos superar as adversidades da vida de cabeça erguida e com serenidade. Os filhos nascem e é motivo de grande alegria e comemoração. Certo. Esses filhos são tratados como se fossem de vidro: quando dão os primeiros passos logo têm calçado de luxo, não devem pisar areia para não se sujarem e nem brincar nela para não comer coisas indesejadas.

Por incrível que pareça, existem neste nosso Moçambique, adolescentes e até adultos que não sabem o que é pisar areia (que não seja a da praia) porque cresceram e crescem calçados.

No tempo passado éramos ensinados a atravessar a estrada que, primeiro se olha para um dos lados e depois para o outro e só assim é que atravessávamos “seguramente”.

Quantas crianças filhas de pais com algum poder económico sabem atravessar correctamente a estrada? Habituadas a viajar sempre no conforto particular, certamente que não conseguem atravessar. As crianças são logo matriculadas em escolas particulares ou de ensino internacional para que tenham um ensino adequado e “à sua medida”.

Correcto, é bom que queiramos a melhor educação para os nossos filhos, porém, se recordarmos as palavras sábias do grande filósofo suiço Rousseau:

“A educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui”. Ora, analisando um pouco mais, alguns pais que vivem em Moçambique, nascem aqui, crescem e sem intenção futura de se fixarem noutro país de língua diferente, ao matricular a criança numa escola que se leccione somente francês ou inglês, estarão a querer o melhor para os seus filhos ou então eles crescerão num Moçambique diferente do real?

É importante sabermos a história de Portugal, certo, mas quantas (não todas) crianças que estão lá conseguem falar algo sem insultar ou dizer algo obsceno? É realmente essa educação que os pais pretendem? Não sei.

Ao compararmos e/ou analisarmos a situação da gorda mensalidade que se paga em algumas escolas privadas, não seria melhor que se abrissem contas bancárias para as crianças e pudessem ter um futuro mais tranquilo e confortável.

Pois então, as mensalidades das mesmas escolas não igualam ou as vezes superam as das Universidades? Que grupos sociais estas crianças irão pertencer quando se tornarem adultas? Recordando ainda Rousseau, “A criança é boa por natureza, a sociedade é que corrompe”.

Os pais levam-nas a hospitais privados para que tenham um bom atendimento e que garantam segurança no crescimento das mesmas, entretanto, não se cansam de entupí-las de chips, rebuçados, chocolates de todos os tipos, refrigerantes fizz’s, frozzy’s e tudo o resto que de saudável nada tem.

Estarão a criar futuros adultos obesos, desnutridos, pálidos, desestruturados, e de quem será a culpa? Na verdade, são crianças que passarão da adolescência à adultícia, continuando ainda crianças mimadas, que sempre levam somas avultadas de dinheiro às escolas para se deliciarem dos lanches gordos.

Os professores de hoje (alguns das escolas privadas) já não mandam chamar os pais para saber da proveniência do valor porque os pais fazem questão de entregar o dinheiro aos filhos bem no nariz do professor, que por muitas vezes o seu lanche é pago pelos mesmos alunos. Mas, se formos analisar a relação pai/mãe-filho, verificamos que existe uma aproximação aparentemente grande, pois, porque na verdade, é raro hoje em dia, pai/mãe terem conversas com os filhos, por mais curtas que sejam.

É frequente ouvir um pai/mãe a dizer: sou muito amigo(a) do meu filho, mas se esquecem que não se deve ser muito amigo mas sim amigo, pois, se se tornarem muito amigos correm o grande risco de tanto o pai como o filho namorarem com a mesma mulher, assim como a mãe e a filha estarem envolvidas com o mesmo homem.

É necessário que haja um equilíbrio na amizade/relação/aproximação entre pais e filhos para que no futuro não haja castigos severos ou frustrações em relação a educação. E o que vemos hoje em dia são jovens ricos, drogados, desnorteados a encherem seus fígados de todas variedades de álcool. E o que dizem os seus pais hoje? Apesar de terem gasto rios e rios de dinheiro na sua “educação”, hoje gastam mais na desintoxicação e Centros de Reabilitação física e psicológica.

Lembro-me de uma vez, num dos Centros de Reabilitação Psicológica Infantil, quando perguntamos a uma criança (que socialmente estava bem posicionada) o que gostaria de ser, ao que nos respondeu: uma televisão. Mesmo nós percebendo a resposta, ela justificou que gostaria de ser uma televisão para que os pais pudessem vê-la quando regressassem do serviço. Triste.

Queremos nós educar um ser em desenvolvimento ou interromper o desenvolvimento desse ser? “Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós” – Oscar Wilde

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