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No meio de gás lacrimogéneo, Brasil volta os olhos para o Mundial de futebol

A Taça das Confederações de futebol deste ano será lembrada principalmente pelos gritos ouvidos fora dos estádios brasileiros, e não dentro deles, e essas vozes não devem se calar com a aproximação do Mundial. Evento teste para o torneio do ano que vem, que será bem maior, a Taça das Confederações, com oito equipes, serviu como pano de fundo para uma onda de protestos inédita em mais de 20 anos no Brasil. As manifestações praticamente ofuscaram jogos memoráveis, levando muitos brasileiros a apelidarem o campeonato de “Taça das Manifestações”.

Após dois anos de futebol medíocre por parte da seleção, poucos esperavam que o Brasil brilhasse em campo. As autoridades estavam mais preocupadas em usar o torneio como uma vitrine para mostrar o Brasil como uma estável potência económica emergente. Quase nada aconteceu conforme o esperado.

Dentro de campo, o Brasil recuperou a sua reputação como superpotência futebolística, esmagando na final a Espanha, atual campeã mundial. Fora de campo, porém, o evento foi um desastre do ponto de vista das relações públicas, mostrando que o Brasil ainda têm vastas desigualdades sociais e desequilíbrios económicos. E os protestos também geraram sérias dúvidas a respeito da Copa-14.

Embora os protestos já tenham diminuído em termos de tamanho e frequência, alguns brasileiros já estão com seus olhos voltados para o Mundial, visto por muitos como símbolo de corrupção e desperdício governamental, em detrimento de melhorias na saúde e educação. “Eu viro-me sem o Mundial de futebol, o que eu quero é mais dinheiro para a saúde e a educação!”, e “Não haverá Mundial!” estavam entre as palavras de ordem entoadas por um grupo que participou de um protesto pequeno, mas violento, no domingo (30) no lado de fora do mítico estádio do Maracaná, cenário da final da Taça das Confederações.

Os brasileiros haviam usado o torneio como palco para manifestar as suas insatisfações – da corrupção a reivindicações pela redução do preço das passagens de autocarros. Houve diversos confrontos em frente aos estádios, e alguns adeptos passavam pelo meio de nuvens de gás lacrimogéneo para chegar aos locais dos jogos.

Uma adepta notavelmente ausente na final foi a presidente Dilma Rousseff. Depois de ter sido vaiada na cerimónia de abertura, a Taça das Confederações transformou-se em um ônus político para Dilma, que viu a sua popularidade despencar depois dos protestos que, no auge, levaram mais de 1 milhão de pessoas às ruas de cem cidades.

O governo federal apressou-se a atender às principais reivindicações dos manifestantes, posicionando-se para a campanha eleitoral do ano que vem, em que ela deve disputar um novo mandato. Entre as medidas anunciadas estão um plano de mobilidade urbana, com mais verbas para os transportes, e um plebiscito sobre a reforma política.

OPINIÃO PÚBLICA ADVERSA

Mas isso dificilmente impedirá novos protestos no ano que vem. “Estamos a planear muito mais protestos de agora até ao Mundial de futebol”, disse Talita Gonsales, ativista do Comité Popular da Copa, de São Paulo, que visa a chamar a atenção para diversas insatisfações que cercam o evento, inclusive os desvios de verbas públicas. “Não somos contra a Copa, gostamos de futebol, gostamos de torcer pelo Brasil, mas a forma como as coisas foram feitas é absurda. Não podemos fechar os nossos olhos ao que está a acontecer”.

Receber o Mundial é motivo de orgulho para a maioria dos brasileiros desde que o país foi indicado pela Fifa para isso, em 2007. Na época, o evento foi visto como mais um símbolo da chegada do Brasil ao cenário mundial durante uma fase de forte crescimento económico. Mas, a partir de 2010, a economia perdeu fôlego, e o apoio popular à Copa também diminuiu.

Uma pesquisa divulgada no domingo mostrou os brasileiros cada vez mais divididos sobre se o Mundial traz mais benefícios ou problemas ao país. O número de entrevistados favoráveis ao evento caiu de 79 por cento em 2008 para 65 por cento. “Vejo os prós e os contras”, disse a ambulante Marina Polonca, que vendia mercadorias em um protesto contra o Mundial no domingo em São Paulo. “Seria bom gerar trabalho para os jovens, mas os custos são terríveis”, disse ela, apontando para os sem-teto instalados numa escadaria atrás dela. “Quantas dessas pessoas não têm um lugar para viver? Quantos não receberam educação?”.

Muitos manifestantes saíram às ruas indignados com o custo de 14 bilhões de dólares para realizar o evento de um mês – uma quantia que continua a crescer. Parte do apelo para a realização do torneio tinha a ver com as melhorias que ele traria, como a mobilidade urbana, as melhorias nos aeroportos e as novas estradas. Mas muitos desses projetos estão atrasados, ultrapassaram o orçamento ou nem saíram da prancheta.

Na semana passada, manifestantes chutaram 594 bolas – mesmo número de parlamentares federais – no espelho d’água na sede do Congresso do Brasil, como forma de protesto.

“A má notícia é que não há realmente muita coisa que o governo possa fazer a respeito de todas essas reivindicações”, disse Christopher Garman, principal analista de Brasil da consultoria Eurasia Group, em Washington, citando “a burocracia enraizada e os obstáculos institucionais” para tirar os projetos de infraestrutura do papel.

Embora as autoridades não tenham como oferecer soluções rápidas relacionadas às insatisfações com o Mundial de futebol, o escopo das manifestações do ano que vem dependerá da capacidade do governo para desenvolver uma pauta que mostre que o Brasil está indo na direção certa, acrescentou Garman.

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