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“Ninguém quer retornar à guerra em Angola”

O Núcleo de Artes Pitabel apresentou em Maputo peças teatrais sobre as tradições dos bacongo. Entretanto, enquanto no nosso país, em Muxúnguè, os ataques militares se intensificam, receando-se um conflito armado, os angolanos sofisticam o argumento antibélico: “Ninguém quer retornar à guerra”, dizem, explicando que, anualmente, para incentivar os artistas, Eduardo dos Santos injecta em cada grupo 35 mil dólares. É assim que se coloca a arte ao serviço da cultura…

Pela primeira vez, o elenco do Núcleo de Artes Pitabel, constituído por dez elementos, esteve em Maputo em Junho de 2013, onde permaneceu cerca de duas semanas. A vinda enquadra-se no décimo Festival de Teatro de Inverno recém-terminado.

Os artistas apresentaram duas obras, O Preço do Fato I e O Preço do Fato II, em que sublimam as tradições do grupo etnolinguístico bacongo, lá do norte de Angola, tomando como tema de discussão o alambamento (aqui, em Moçambique, lobolo) demonstrando os perigos que podem decorrer da infracção às regras que impõem.

“Não dá para deixar a identidade cultural (dos povos) esfumar- -se com a modernidade e a globalização”, explica Adérito Rodrigues, o director artístico e encenador da colectividade. Para a elaboração desta matéria, O Preço do Fato I que existe há nove anos e a segunda criada há dois são um pretexto para explicar a experiência dos actores angolanos. E não uma discussão sobre o seu teor.

Os angolanos conhecem o teatro moçambicano graças à migração profissional para aquele país de grupos como o Gungu, o Mutumbela Gogo, a Lareira e a Casa Velha. Mas diante do que viram em Maputo, eles sentem-se impelidos a reconhecer que “em Moçambique, o teatro evoluiu muito. É necessário que nós, os angolanos, sigamos o mesmo rumo”.

Entretanto, além dos aspectos puramente artísticos, como a vivacidade da interacção entre o público e os actores, relações de proximidade cultural entre ambos os povos serão encontradas a partir de algumas práticas tradicionais como, por exemplo, o alambamento.

É que entre os bacongo, como acontece nas sociedades patrilineares e machistas, em Moçambique, há sempre um cuidado na transmissão da herança cultural que deve, espera-se, ser seguida eternamente pelas gerações. “A nossa obra resulta de uma pesquisa em volta da nossa tradição, mas ela é adaptável ao teatro com as técnicas do classicismo, do expressionismo e do simbolismo, a fim de que seja exibida fora do país”.

Adérito Rodrigues, que apesar de ter inúmeras formações no teatro também é funcionário de um banco, frisa que “há um certo cuidado na disseminação de informação sobre os aspectos etnolinguísticos, tradicionais e os que se referem ao resgate de valores morais, cívicos e culturais de determinada região para que as pessoas compreendam o que é que está-lhe a ser transmitido”.

 

Uma situação precária

Uma crónica oficial sobre o teatro dos Países Africanos da Língua Oficial Portuguesa (Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau) explica que o primeiro, quando comparado ao segundo possui o ensino de teatro, de nível superior, desde a proclamação da independência. Como é trabalhar nas artes cénicas em Angola?

O encenador do Grupo Pitabel, com 26 anos de carreira, dedica-se ao teatro desde os anos de 1980 e, por isso, o seu comentário tem alguma propriedade. “Em Angola, a situação do teatro é precária porque nós, os actores, nos sacrificamos muito e não tem havido muito retorno”. De qualquer modo, “continuarei a viver nesse meio”, jura.

A existência de mais de 200 colectividades teatrais para uma única sala de teatro, como afirma Adérito Rodrigues, em Luanda, complica a rodagem das obras desestimulando os artistas. No entanto, se nos recordamos que, em sete categorias, o governo local premeia os que mais se dedicam, a história tem outras leituras.

“Graças a Deus, nos últimos 12 anos que trabalho com os Pitabel, ganhámos vários prémios dentre os quais o mais importante é o Prémio Nacional de Cultura e Artes, em 2010. Isso estimula-nos muito. O mesmo valeu-nos um Diploma assinado pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, 35 mil dólares americanos e uma estatueta”, refere Rodrigues.

De acordo com Rodrigues, “a situação está muito difícil para o actor angolano. É nesse sentido que, comentando com um colega moçambicano, afirmei que se eu pudesse tirar todos os teatros que existem em Maputo, e os introduzisse na mochila a fim de levá-los comigo para Angola seria muito bom. A cidade de Luanda está a crescer, no entanto, só tem uma sala de teatro”.

Enquanto isso, o Governo angolano prepara a Política Cultural do Estado e a Lei de Mecenato, instrumentos importantes que, “para mim, caso sejam colocados em prática no sentido quantitativo e qualitativo, no que respeita à edificação de infra-estruturas para a actividade cultural, serão salutares porque só assim o actor pode desenvolver as suas actividades regularmente”.

 

Interesse recíproco

Da interacção dos artistas de Moçambique e Angola depreende-se uma reciprocidade de interesses no sentido de que encontros similares se tornem frequentes. Até que ponto existem condições para a materialização dessa pretensão? Está a ser criada uma ponte, que esperamos seja de betão, através da qual se irá promover o trânsito de actores angolanos e moçambicanos a fim de exibirem as suas obras em ambos os países. “Queremos alinhar e fortalecer a interacção, de relações humanas e artísticas, entre os actores dos nossos países”, afirma.

 

Preservar a identidade

À luz das obras apresentadas neste ano, no Festival de Teatro de Inverno, pelos grupos angolano e brasileiro, percebe-se um pensamento comum que é o resgate dos valores africanos numa abordagem tradicionalista dos seus povos, o que difere em relação ao teatro moçambicano que, neste momento, é rico sob o ponto de vista de consciência política, clamando, como acontece em diferentes sectores sociais, por reformas sociopolíticas. Qual seria, para o caso de Angola, o grande argumento para esta opção?

Adérito Rodrigues considera que quando um povo perde a sua identidade cultural entra em crise. Por isso, “se nós não valorizarmos aquilo que é nosso, se não mostrarmos ao mundo que existimos desta e daquela maneira, com base nas nossas tradições, a globalização não o fará por nós. Não podemos permitir que a nossa cultura seja engolida pelo mundo da rapidez”.

O problema é que “notamos que há uma tendência reiterada na geração actual de perder os valores tradicionais da nossa cultura e identidade africana. Então, cabe a nós, como artistas e fazedores da opinião, a tarefa de transmitir uma mensagem que desperte os jovens para a necessidade de perceberem que vivemos num contexto de vida moderna, mas nunca nos devemos esquecer das nossas raízes culturais”.

Nessa perspectiva, as pesquisas do grupo sobre as tradições do seu povo possibilita-lhe interpretar o presente e projectar o futuro. Mas a tradição, como a peça demonstra, é grotesca e assustadora. A morte da noiva, em decorrência de uma infracção insignificante (a não entrega de uma peça de vestuário exigida, por exemplo) é real ou é ficcional? O que, realmente, acarreta o incumprimento do alambamento?

Tudo o que se expõe nas peças é real, porque se trata de um trabalho de pesquisa em torno das vivências de uma etnia, os bacongo. A única situação que é exibida simbolicamente, em relação ao alambamento, é o inventário exagerado dos bens que a família da noiva exige ao noivo.

“Do incumprimento da tradição advêm consequências negativas. A pessoa pode enlouquecer, falecer, não conceber ou perder os filhos. Tudo depende da forma como as pessoas irão trabalhar para impelir alguém a cumprir a tradição”.

O que se pretende mostrar é que “é possível viver o modernismo, no entanto, sem desrespeitar os rituais de determinadas tradições. Por exemplo, se a pessoa é capaz de ofertar um botão, quando lhe é exigido numa cerimónia tradicional, em expressão de respeito, porque não o faz?”

 

Não queremos guerra

A peça teatral Os Indeferidos, do grupo teatral Chamuarianga, da cidade da Beira, foi uma das favoravelmente criticadas no décimo Festival de Teatro de Inverno. Perguntámos ao director do Núcleo de Artes Pitabel Teatro se, tendo em conta o seu carácter político, ela podia ser apresentada em Angola?

O actor afirma que se o espectáculo for de artistas moçambicanos a obra pode ser exibida. No entanto, “nós não podemos fazer este tipo de obras porque a maior parte dos jovens angolanos viveu a situação da guerra e ninguém quer experimentar um conflito armado”.

Há peças em que nós criticamos o Governo, sobre os desvios da sua actuação, propondo soluções e nunca no sentido de incitar as pessoas para o conflito. Além do mais, eu percebo que as peças que se exibem em Maputo são orientadas no mesmo sentido.

A diferença é que em Moçambique, “a maior parte das obras expressa esta consciência política enquanto nós diversificamos mais. Há grupos que fazem um teatro clássico, sobre a tradição, bem como vivências de escritores”.

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