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Negócio de água – Entre o rendimento e o alívio

Gwaza Muthini: um mito corrompido

A venda de água pelos pequenos operadores privados tornou-se uma prática comum, sobretudo nas zonas suburbanas ainda não abrangidas pela rede pública ou com canalização obsoleta. Na verdade, este negócio tem dupla vantagem – fonte de rendimento e alívio à população que era obrigada a consumir água imprópria e/ou a percorrer longas distâncias à busca do precioso líquido.

 

Bairros como Ferroviário, Hulene, Magoanine, Mahotas, Laulane, Bagamoyo, Zimpeto, entre outros, na periferia da cidade de Maputo, estão efectivamente a ser abastecidos pelos pequenos operadores privados. Estima-se que estes serviços estejam a benefi ciar a pouco mais de 200 mil pessoas. O recepiente de 20 litros é adquirido nos fontenários privados a preços que variam entre 50 centavos e um Metical. Nas ligações domiciliárias o pagamento depende do sistema montado pelo operador. Se a instalação possuir contador, o pagamento é consoante o consumo. O custo por metro cúbico é de 11,2 Meticais. Em relação aos que não possuem contadores, o pagamento é feito através de uma taxa mensal fi xa, que varia entre 220 e 250 Meticais.

Em Mapulene, zona localizada no bairro dos Pescadores, na Costa do Sol, à semelhança de outras várias zonas, há sensivelmente seis meses, antes da entrada dos pequenos operadores de abastecimento de água, as pessoas consumiam água turva retirada dos poços, pondo em risco a sua própria saúde. Para fugirem dos riscos, eram obrigadas a percorrer longas distâncias à busca de água com as mínimas condiçoes de hegiene. Aí, este precioso líquido era adquirido a um Metical o recepiente de 20 litros.

Entretanto, no meio deste sofrimento todo, que encarecia a vida dos moradores, havia pessoas oportunistas, que faziam da situação uma oportunidade para extorquirem os que não conseguissem, por várias razões, percorrer distâncias e nem queriam beber água turva. Estas adquiriam água potável a um Metical o recepiente depois revendida nas zonas de carência a cinco Meticais. Porém, aqueles que não consegissem, nem percorrer distâncias, nem pagar os cinco Meticais, eram obrigados a consumir água dos poços, contra todos os riscos de saúde daí decorrentes.

“Agora estamos bem, bebemos água potável e apanhamos perto. Já não corremos o risco de contrairmos doenças, como a cólera, entre várias outras, nem estamos sujeitos à percorrer longas distâncias a busca de água, como sofríamos antes”, comentou uma residente daquela zona quando abordada pela nossa Reportagem. Já no bairro Mussumbuloco, no Município da Matola, o cenário era semelhante.

A falta de água “castigava” a população. Os moradores daquela zona eram obrigados a percorrer três a quatro quilómetros para obterem o precioso líquido. Entretanto, haviam grupos de jovens que abasteciam a zona com água tirada de um tanque abastecido pelo sistema canalizado que se situava à mesma distância (três a quatro quilómetros). A água era transportada por “tchova xita duma” e revendida a cinco Meticais o bidão de 20 litros. É uma prática que estava a ganhar espaço, uma vez que os jovens tinham no negócio um meio para sustentar as suas famílias, desprovidas de quase tudo.

Neste momento, com a entrada dos pequenos operadores, o sofrimento dos residentes destes bairros dos municípios de Maputo e Matola, à semelhança de outros tantos, fi cou para a história. Hoje têm água potável perto que custa um Metical o bidon.

Efectivamente, actualmente as zonas suburbanas estão, na sua maioria, a serem abastecidas com água providenciada pelo sector privado. São locais de maior actuação de pequenos operadores privados que usam o sistema de abastecimento de água com uma maior cobertura do que a da empresa pública – Águas de Moçambique. Importa, entretanto, referir que dados ofi ciosos indicam que existem cerca de 200 provedores informais no abastecimento de água aos arredores da cidade de Maputo.

Água gelada

Um outro fenómeno, novo, tem a ver com o negócio de água gelada, vendida em garrafi nhas ou copos. Este é praticado nos centros de comércio informal e nas ruas, com maior incidência nas paragens de transportes semi- colectivos sendo, principalmente, feito nos dias de calor. Esta prática tem igualmente uma dupla vantagem. Serve de fonte de rendimento para muitas famílias moçambicanas e alivia as gargantas de milhares de cidadãos.

O copo de água custa um Metical e a garrafi nha de meio litro é vendida a dois Meticais e cinquenta centavos. Marta Sitoe, uma vendedora de água gelada na Praça dos Combatentes, vulgo Xiquelene, disse ao @Verdade que o elevado custo de vida é que a empurrou àquele negócio. Ela sustenta a sua famíla (cinco fi lhos todos com idade escolar) com a receita proveniente do negócio de água gelada. Nos dias de muito calor chega a facturar 200 Meticais.

São contingências da vida que levam a que largas centenas de moçambicanos a atirarem-se a este e outros negócios, como forma de garantir um suporte à vida que está a cada dia que passa a encarecer. Transformar a indústria da água num negócio justo para servir a todos – vendedores e compradores – é o que realmente está em voga.

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