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“Não creio que não ter escrito outro livro seja um assunto que me deixe penalizado”

Na sua 78ª feira, a Livraria Minerva – com mais de cem anos de existência – prestou uma homenagem ao autor do livro Nós Matámos o Cão Tinhoso. Entretanto, na cerimónia, os seus leitores, sobretudo os mais fervorosos, insistiram numa pergunta: “Porque é que Luís Bernardo Honwana nunca mais publicou outros livros?” A questão tornou-se (quase) perturbadora…

Em 2014, o livro Nós Matámos o Cão Tinhoso irá completar 50 anos desde que (pela primeira vez, no contexto colonial) foi publicado em 1964. Nesse sentido, a Livraria Minerva antecipou-se à celebração do meio século da obra. No encerramento do evento promoveu um encontro, nas suas instalações, entre o autor, alguns escritores e os seus apreciadores. Em parte, o pretexto era reflectir em torno da produção, mas, acima de tudo, prestar tributo ao seu autor.

Recorde-se de que 1960 é uma época peculiar da nossa história, marcada por uma série de transformações sociais em vários campos. É por essa razão que – tratando-se da homenagem a um autor – faz sentido procurar perceber o seguinte: “Qual era o ambiente literário dessa época, tomando em conta que o grau de instrução dos moçambicanos era diminuto?” Esta questão de Tavares Cebola, funcionário da instituição, serviu de ponto de partida para a interacção.

“Embora nos anos 60, em Moçambique, as estatísticas mostrassem um número modesto de pessoas que tinham uma boa relação com a leitura, isso não significava a inexistência de um ambiente que estimulasse as pessoas para a aventura da escrita. Muito antes, já se falava dos Noronha, dos Dias, dos Craveirinha e muitas pessoas anteriores à minha geração que, nessa altura, foram encorajadas a escrever”, refere esclarecendo que tal escrita “era mais jornalística questionando os problemas vigentes”.

Começou-se a criar, a partir do jornalismo, uma consciência correctiva no prolongamento do qual surgiram novas formas de literatura criativa. O facto histórico de o livro Nós Matámos o Cão Tinhoso ter surgido num momento em que o sistema vigente fazia a rejeição de algumas propostas literárias, sobretudo as genuinamente moçambicanas, fez com que tal se tornasse uma obra de leitura (quase) obrigatória nos programas de ensino.

Por essa razão, “caso tenha havido, ao longo dos anos, estudantes cujas notas não tenham sido positivas, por causa do meu livro, o que pressupõe que a culpa foi minha, penso que é o momento de pedir desculpas”, diz o autor que acrescenta que “a sua difusão pelos programas do ensino fez com que o livro ficasse no ouvido das pessoas, mesmo que algumas não o tenham lido. De certa maneira, isso é lisonjeiro mas também, de outra, compromete-o porque, seguramente, a frequência com que é citado deve corresponder a uma situação de escolha e, por conseguinte, se tal selecção tiver coincidido com a preferência das pessoas, é muito bom. O problema é que na altura não havia muitas escolhas”.

Reflectir sobre os problemas do tempo

Ainda que ao longo dos anos, muito em particular nos nossos tempos, o Nós Matámos o Cão Tinhoso tenha sido alvo de estudos e de diversas interpretações, a obra preserva (e muito bem) os problemas do tempo colonial em que foi escrito. Esta questão racial que se evidenciava muito, sobretudo no dualismo preto e branco.

De acordo com Luís Bernardo Honwana, “naquela altura tínhamos avançado em relação a estas questões. Havia o racismo e nós defendíamos que ele era um dos produtos do colonialismo”.

Ou seja, “o racismo não existe só e sozinho. A situação colonial e outras de exploração que precisam de uma justificação moral ou científica é que o gera(ra)m. Há mitos que dão substância ao referido fenómeno, mas, no nosso caso, era o colonialismo: uma minoria populacional ocupa um território enorme, administrando-o. No entanto, para essa população, além da administrativa, precisa de uma autoridade que decorre do sentimento de superioridade, da necessidade de civilizar, de cristianizar, de educar e de elevar as pessoas a uma dignidade superior”.

Perpetuar-se no história

O facto, por exemplo, de no teatro Nós Matámos o Cão Tinhoso ser uma obra que constitui um ponto de partida para explicar a realidade contemporânea, 50 anos depois, é um indicador da sua intemporalidade. Que enquadramento, então, se pode dar ao livro – na perspectiva do autor – na conjuntura actual?

Para melhor comentário, Luís Bernardo Honwana elabora uma premissa. “A literatura socorre-se de factos de uma realidade. Não sendo este livro uma ficção científica, pelo menos, referiu-se às práticas observadas e questionadas pelo escritor numa época. Tais histórias ficam datadas”.

Assim, “o interesse factual do que se disse e do que aconteceu pode ser manifestado por pessoas que estudam a história e outras ciências sociais. Isso significa que há, no livro, material que satisfaz os cientistas. No entanto, para os que não encontram importância científica na obra – o que resta é a literatura”.

Agora, “em relação às histórias contemporâneas à época em que o livro foi escrito já não cabem na pauta do nosso dia-a-dia. Vivemos momentos muito diferentes. Haverá uma relação num e noutro aspecto de paralelismo”.

E nunca mais escreveu…

Se as leis com que se governa a produção literária dependessem unicamente dos Homens, talvez as razões que move(ra)m Luís Bernardo Honwana a não escrever mais nenhuma obra de ficção – como aconteceu em Nós Matámos o Cão Tinhoso –, sem nenhuma especulação, seriam do conhecimento de todos. E, por via disso, também se abafaria a veemência com que uma questão é formulada: “Porque é que ele nunca mais escreveu?”

Falando da sua experiência com a obra, a escritora Lília Momplé, que assume que foi influenciada pela criação e pelo seu criador, considera que “o livro Nós Matámos o Cão Tinhoso emocionou- -me porque nele eu vi as nossas histórias, aquilo que passámos, a nossa vida”.

Por exemplo, “quando eu era professora de Língua Portuguesa fui surpreendida pela preocupação dos alunos (que se reviam nas personagens) ao coreografar as suas histórias. Estarmos a homenageia-lo, é um tributo de justiça ao escritor”. “Espero que agora que está longe das lides dos relatórios, já que a dado momento afirmou que são eles que lhe impediam, volte a escrever ficção”, diz.

Por sua vez, o director da Livraria Minerva, Victor Gonçalves, afirma que o texto de Luís Bernardo Honwana “teve uma importância grande em Moçambique como em Portugal. E é por isso que nós nos referimos a ele como sendo clássico. Passados quase 50 anos, continuamos a falar dele. Os grupos de teatro encenam-no”.

De qualquer modo, “não sei porque é que repetimos que o autor de Nós Matámos o Cão Tinhoso só tem um livro. Eu diria que só tem um livro por agora”. Já o autor da Ualalapi, Ungulane Ba Ka Khossa, engendra uma história bem elaborada para explicar a realidade.

Diz ele que, actualmente, “na América do Norte fala-se de uma geração perdida porque ela se matou. Deixou de existir como indivíduo para assumir um certo colectivo que se tornou uma utopia. Ora, atendendo que a literatura é um acto iminentemente individual, virado para o eu, vejo o Luís nessa perspectiva. A partir de um dado momento, as pessoas deixaram de ter um eu e passaram a olhar para um nós na literatura”.

Seja como for, a verdade é que, segundo Luís Bernardo Honwana, “não sei o que é que aconteceu. Sou protagonista de uma vida cheia de episódios. A reincidência na literatura criativa não foi o meu caminho. Nunca estive longe da escrita de todo o tipo que se pode imaginar, mas a ficção nunca mais me encorajou a publicar livros”.

“Sinto que, por uma questão de amizade, as pessoas gostariam de me ver a reiniciar uma carreira literária que deixei há 50 anos. O que me enche de pena é que as outras actividades que tenho feito não conquistam o vosso favor. Escrevo tanto sobre situações muito penosas. Acho que esta nova produção tem um impacto que se refere às questões da nossa vida, a nossa condição social e humana (para se discutir). Não é algo de especulação como acontece na produção literária”.

De qualquer modo, “se a Minerva Central me conceder esta oportunidade, talvez no próximo ano eu posso publicar um livro – mas, definitivamente, noutras áreas”.

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