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Músicos celebram a sua data nas mesmas dificuldades

Celebrou-se na passada quarta-feira, 1 de Outubro corrente, o Dia Internacional da Música, uma data instituída, em 1975, pela UNESCO como forma de promover os valores de paz e da amizade para toda a humanidade. Em Moçambique, a efeméride foi celebrada num mar de descontentamento em relação à contrafacção discográfica, à falta de editoras qualificadas no país, entre outros problemas que afectam a classe artístico-musical. Na verdade, há 39 anos que os músicos remam o contra a maré a fim de consciencializarem a sociedade.

Diríamos, se quiséssemos ser mais francos, que ao longo dos anos a música moçambicana sofreu alguma perda de valores, no que tange à qualidade e à abordagem dos assuntos, protagonizados por alguns artistas que quiseram fazer dessa área o seu refúgio. Mas também, essa queda, é resultado de vários factores que se resumem na falta de estúdios de gravação, de intercâmbios entre artistas de gerações distintas e de editoras nacionais.

Tal como acontece nas outras áreas ligadas às actividades artístico-culturais, os músicos moçambicanos sente-se inferiorizados, dentro do seu país. A suposta desvalorização é, segundo eles, visível a partir da desacreditação aquando da procura de patrocínios para promoverem as suas obras e das miseráveis condições a que são sujeitos quando pretendem gravar e reproduzir os seus discos.

Contudo, para compreender o estágio actual da música em Moçambique, o @Verdade travou uma conversa com o cantor e secretário geral da Associação dos Músicos Moçambicanos (AMMO), Domingos Macamo, que nos fala das peripécias que existem nessa nobre área, desde a década de 1975.

“A nossa música é deficiente”

Tal como acontece em quase todo o mundo, em Moçambique, as actividades artísticas representam a cultura – modos de ser e de viver – de um povo. Mas, segundo conta Domingos Macamo, se dependêssemos somente da música para nos identificarmos estaríamos perdidos. No entanto, “é preciso que exista uma indústria cultural que minimize o sofrimento dos criadores. Depois dos 39 anos, já devíamos estar em altura de mostrar ao mundo a nossa riqueza”.

Mas infelizmente “a nossa música está numa situação desprezível”, revelou Macamo acrescentando que “de todos os problemas que afectam os cantores, os principais têm a ver com a falta de estúdios de gravação e de editoras. Todo o criador que tem como ponto inicial a gravação tem como meta a divulgação, pois não faz sentido que os músicos trabalhem de borla. E essa realidade não difere da do camponês: para quê plantar se não tem mercado para escoar o produto?”.

Por outro lado, Domingos vê algum desenvolvimento na música. Mas, para ele, o cómico é que os artistas não conseguem ser persistentes. De todos os modos, a realidade em relação à inversão de valores na música – que se verifica a partir do uso abusivo de palavras insultuosas (libertinagem) – é o facto de se estar numa sociedade em que não se censuram os produtos, usando-se vocábulos que, de uma ou de outra forma, influenciam negativamente a vida dos adolescentes e jovens.

Embora Macamo admita a possibilidade de ainda se poder inverter a situação e recuperar o que já se perdeu, afirma que agora é tempo da prática, da valorização, para que rapidamente os criadores voltem a desenvolver as suas actividades com responsabilidade.

Outro aspecto que deixa Domingos receoso é a apartação do sector musical do Ministério da Indústria: “Como é que queremos que os sectores hoteleiros e turísticos se desenvolvam sem uma pareceria com os músicos? Se todo o estrangeiro/turista quando chega a um determinado país a pretensão é aproveitar a gastronomia e os ritmos da respectiva terra?”.

“É preciso estímulo para que os artistas continuem a mostrar ao mundo o que somos. E isto parte do Estado. O país é que deve preservar e incentivar os nossos timoneiros das artes”.

Partindo do principio de que os artistas também geram rendimentos, através da venda dos seus produtos e de todos os meios possíveis que têm, que, de uma ou de outra forma, são canalizados para o orçamento do Estado, Domingos tem a expectativa de que, sendo assim, o mesmo Governo devia promover a classe.

“Há países em que os artistas são vistos como heróis nacionais, mas, a nossa realidade dita o contrário. Em Moçambique um criador é um cidadão comum e, pior, anónimo”, lamenta. No entanto, tendo em conta a agressividade do mercado (in)fomal, que tende a menosprezar os esforços dos artistas, para ele, é necessário que se divulgue a Lei dos Direitos do Autor.

“É inadmissível que um artista dedique a sua vida inteira à produção de músicas e depois aparecer alguém a empacotar num disco virgem, MP3, e vender a 50 ou 100 meticais”.

No entanto, há que se reconhecer que o sumiço das editoras no nosso país se deveu, até certo ponto, à contrafacção discográfica. “Nenhuma editora podia financiar a um produto que, posteriormente, seria contrafeito. Aliás, os empresários que apostam nessa área não o fazem, pura e simplesmente por brincadeira. Tudo aqui é negócio”.

Reagindo em relação à suposta exclusão dos novos artistas na AMMO, metafórico, Macamo afirma: “Quando no meio de um jardim nasce erva daninha, é necessário que se tire o prejudicial para que as plantas cresçam sem sobressaltos. Os músicos mais novos na área não aparecem na AMMO para trabalharem, mas sim para brincarem”.

Entretanto, sobre o estágio actual da nossa música, Macamo diz ser difícil medir a situação actual da música, mas “posso garantir que a década de 1980 é que foi a época áurea dos nossos ritmos. Digo isso porque foi nesse período que vimos, de facto, que as nossa melodias tomavam rumos promissores. Orientações que enalteciam a nossa identidade.

Na verdade, ninguém, dos que viram esse tempo, irá esquecer-se das actuações dos Ghorwane e dos Kapa Dech, levadas a cabo no campo do Desportivo. Foi também na época em que os Djaka, os Massucos e outros desfilaram o seu talento e elevaram o nome de Moçambique”.

Contudo, segundo conta o secretário dos músicos, actualmente é difícil relatar sobre o estado da música, porque o seio artístico-musical está cheio de frustrados. Artistas que em um dia conquistam o espaço e, depois, desaparecem tal como entraram. “Na verdade, estamos numa época de oscilação em que não se sabe como estamos – se bem ou mal. Tal como se diz na gíria juvenil, os músicos actuais batem por pouco tempo no mercado e o resto batem na rocha. Presentemente, para além dos que se afirmaram logo após a independência, era suposto termos outros músicos exímios, mas, infelizmente, não os temos”.

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