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Mulher destaca-se na Academia Militar Samora Machel

Mais uma vez, a mulher moçambicana provou, desta vez na Academia Militar Samora Machel, ser muito corajosa, competente e capaz no desempenho das funções que, até num passado recente, eram vistas como sendo tradicionalmente assumidas pelos homens.

O testemunho disso é a subtenente Piedade Alberto, fuzileira naval, que na passada sexta-feira foi premiada, na especialidade de Treino e Preparação Combativa, como uma dos quatro melhores estudantes do primeiro curso de Oficiais Licenciados em Ciências Militares, que teve lugar na Academia Militar Samora Machel, localizada em Nampula, capital da província nortenha que ostenta o mesmo nome.

Piedade Alberto, 24 anos, natural de Maputo, foi distinguida durante a graduação do primeiro grupo de 49 estudantes que concluíram o curso, uma cerimónia que foi dirigida pelo Presidente moçambicano, Armando Guebuza, na qualidade de Comandante em Chefe das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique.

Segundo um dos membros do quadro docente daquela instituição, que falou na condição de anonimato pelo facto de não estar autorizado a falar a imprensa, Piedade Alberto destacou-se, cerca de um mês após o início da formação, durante um pequeno incidente ocorrido nos treinos de aptidão militar. “A Piedade deveria voltar para casa porque era um pouco lenta, cansada, mas tudo mudou a partir de um treino de aptidão militar que foi testemunhado pelo seu instrutor, o Comandante Cossa que, infelizmente, já faleceu”, disse.

Era uma noite muito escura, contou a fonte, explicando que Piedade Alberto se encontrava dentro de um trincheira a guarnecer a sua posição. “Cobra, cobra meu comandante”, gritou Piedade, algo desesperada na sua trincheira, gerando-se um ambiente de pânico no meio de toda a unidade. O comandante correu para o local, de lanterna em punho, em socorro de Piedade. -Porque é que tu não sais da trincheira?, questionou de imediato o Comandante Cossa. -Ainda não recebi ordens para abandonar a trincheira meu Comandante, foi a resposta de Piedade.

Para a felicidade de todos, volvidos alguns minutos, apurou-se que afinal não se tratava de uma cobra, mas sim de um bicho vulgarmente chamado de “mil-pés” (maria café). Apesar de ser muito parecido com uma cobra, este bicho, que chega a atingir cerca de 30 centímetros de comprimento, não é venenoso pelo facto de não ter um aparelho para inocular o veneno. É um bicho que tem o corpo bastante articulado, e quando molestado tem a tendência de se enrolar.

“Não era uma cobra, era um bicho chamado de mil-pés”, disse a fonte, para de seguida explicar que, “como era noite e a visibilidade era quase nula, ela pensou que se tratava de uma cobra”. Segundo o interlocutor, o facto de Piedade não ter abandonado a trincheira, mesmo quando pensou estar encurralada por uma cobra, esse gesto mereceu muita estima e admiração dos seus instrutores e colegas, pois foi considerado um exemplo de obediência às ordens dos seus superiores. “Isso chama-se obediência. Esse valor é muito importante para o exército”, disse o interlocutor, manifestando a sua admiração por Piedade.

“Isso significa que como ainda não tinha recebido ordem, não poderia abandonar a sua posição”, rematou. Segundo o interlocutor, este incidente foi determinante para a permanência de Piedade na Academia. Mais tarde, ela foi-se adaptando muito rapidamente, continuando a destacar-se sempre em relação aos seus colegas pela sua disciplina militar. “Isso tudo aconteceu quando ela ainda só tinha um mês aqui. Mas depois ela foi-se comportando bem e acabou fazendo o curso”, disse a fonte.

A AIM aproveitou a ocasião para perguntar a fonte sobre o comportamento das restantes mulheres que estão a frequentar os vários cursos leccionados na referida Academia que ostenta o nome do primeiro Presidente de Moçambique independente. “As restantes mulheres comportam-se bem”, disse. “Geralmente, quando as mulheres tomam uma decisão não recuam. A mulher dificilmente recua”, frisou. Sobre o empenho das mulheres, o docente que falou a AIM na condição de anonimato disse que “a dedicação não tem nada a ver com o sexo”.

“A dedicação varia de pessoa para pessoa. Há mulheres muito dedicadas, há mulheres muito inteligentes, bem como também existem homens bons, mas também existem homens fracos. Mas, geralmente, neste curso as pessoas dedicam-se porque passam o tempo inteiro a estudar”, explicou. Segundo o interlocutor, a Academia oferece muitas vantagens, sobretudo para as pessoas mais desfavorecidas.

“Quem quiser estudar com escassos recursos pode fazer o curso da Academia. Geralmente, é uma oportunidade que o Estado oferece a todas as pessoas, mas é muito bom para as pessoas carentes (sem muitas posses)”, explicou. Na ocasião, a fonte revelou que também já existe uma mulher a frequentar o curso de Piloto Aviador e que se trata de uma jovem natural da província nortenha de Cabo Delgado.

“A Julieta foi a primeira a voar. Ela é a primeira a frequentar o Curso de Piloto Aviador e já se encontra a frequentar o quarto ano”, disse. Sobre a razão da existência de apenas uma mulher, a fonte explicou que o Curso de Piloto Aviador é muito exigente, sobretudo no aspecto da saúde.

“Se alguém tiver uma pequena deficiência de saúde, mesmo que seja invisível, chumba. Para a selecção dos candidatos contamos com a assessoria de Portugal”, disse a fonte, acrescentando que a maioria das mulheres está a frequentar o Curso de Administração Militar. Contudo, também existem outras mulheres a frequentar os cursos de Engenharia Militar, Comunicações, Comandante de Meios Radiotécnicos e Medicina.

O primeiro curso contava com sete mulheres, das quais uma desistiu e outra encontra-se a frequentar o Curso de Medicina na Universidade Eduardo Mondlane. Falando a AIM, Piedade Alberto, ainda visivelmente eufórica, disse sentirse muito honrada pelo prémio, que consiste num aparelho telemóvel. “Foram anos de grande batalha para conquistar isso tudo”, afirmou. Sobre as razões que a levaram a ingressar na Academia, Piedade disse ter sido uma opção voluntária.

“Eu fiz o curso por vontade própria, porque sendo uma instituição do ensino superior e’ igual a qualquer outra instituição”, explicou. Com relação aos seus planos para o futuro, Piedade disse que tenciona seguir a carreira militar, convidando outras mulheres a seguir o seu exemplo.

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