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Mudar o destino

Mudar o destino

A história recente de Artur assemelha-se à de muitos outros moçambicanos. A esperança de uma vida melhor, que se seguiu ao seu nascimento foi comprometida com a morte do progenitor e a interrupção dos estudos. Porém, na impossibilidade de mudar o presente, escolheu reescrever o futuro. Primeiro, porque a resignação prometia um desfecho trágico. Em segundo lugar, porque mudar o destino está nas mãos do ser humano.

Artur Zacarias Mavecu, de 22 anos de idade, tinha tudo para esmorecer e parar de lutar. Mas não foi isso que fez. Aos três anos, diga-se, perdeu e foi então condenado à pobreza extrema. Na minúscula casa de caniço, com a mãe e dois irmãos mais velhos, o Inverno, para quem não tinha cobertores, era mais húmido do que o normal.

“Morava num lugar onde os baldes serviam de sanitas, era preciso despejá-los de manhã. O quarto era um círculo com 2,5 metros de diâmetro iluminado por um candeeiro artesanal. Nenhum móvel, apenas uma esteira no chão”, conta.

Com tais condições aguardava-se, no imaginário popular, que o rapaz que estudou até a quarta classe fosse esquecido no coração de Massinga, que acabasse por criar mofo, por se cobrir de poeira, doente de desespero no ciclo vicioso da pobreza.

Mas não foi este o caso. Com o andar dos anos, Artur Zacarias Mavecu conseguiu vencer a fome e o desespero. Tornou-se um revendedor de sapatos usados e formou uma família. Onde é que foi buscar força para resistir?

O que dá a Artur uma energia que parece inquebrantável é em primeiro lugar a convicção suprema de que “o trabalho dignifica o homem.” A pobreza é injusta e a sua existência é infundada. Aliás, “ninguém morre senão a combater”, defende.

Como tudo começou

Artur ficou órfão de pai aos 3 anos, sendo o mais de novo de um grupo de três irmãos. Volvidos cinco anos, ingressou no ensino primário. Porém, só foi possível estudar até ao quarto ano. As parcas economias familiares não chegavam para mais.

Se a escola pode alimentar o espírito e até o estômago a longo prazo, as necessidades imediatas da família falaram mais forte. “Tentar não morrer de fome era mais importante do que a instrução”. E Artur, por ser mais novo, foi o único dos três irmãos que frequentou uma escola.

Família separa-se

Presa à necessidade de sobreviver, a família teve de se separar. Os irmãos mais velhos foram viver para a casa de tias próximas. Para Artur e a mãe sobrou mais comida, mas também menos braços para trabalhar a terra. Dentro da casa mais espaço e mais frio no Inverno.

Sem os irmãos, Artur, já com 20 anos, viu que a solução para singrar na vida não estava em Inhambane. Ouvia falar da grande cidade como se fosse o el dourado. Juntou algum dinheiro e decidiu parar na estrada para chegar à capital do país onde, acreditava, teria emprego e melhores condições de vida.

Num belo dia, sem a mãe esperar, Artur pegou três mudas de roupa, um alforge e partiu. Foram mais de 1500 quilómetros de camião, a viajar como mercadoria. À frente do carro uma estrada poeirenta e um destino incerto. Atrás, um destino certo. Porém, atroz. De Inhambane a Maputo, através da Estrada Nacional no 1, onde o aguardava a “selva de concreto”. Desceu na “Junta” e não sabia para onde ir.

Apesar de a cidade ser grande e registar um movimento desusado de pessoas, Artur não tinha medo de que o assaltassem. Até porque é impossível roubar quem traz “uma mão na frente e a outra atrás”, graceja. Sem lugar para dormir, foi pedir para pernoitar numa esquadra, no bairro T3. “Acolheram-me e deixaram-me dormir. Nas manhãs saía à procura de um emprego e nas noites recolhia à esquadra.”

Essa busca incessante por emprego tinha dois objectivos: conseguir dinheiro para sair da esquadra e garantir alimentação. Artur andava mais de 50 quilómetros por dia, mas não encontrava emprego. Foi permanecendo na esquadra até que conheceu um conterrâneo que aceitou partilhar, com ele, o quarto em que vivia.

A sorte, às vezes, é como o azar: não vem só. Depois de ter casa, Artur conseguiu um emprego numa fábrica de bolachas, algures no Município da Matola.

Trabalhou durante cinco anos. Porém, descontente com o salário, volvidos cincos anos, deixou o emprego. Nesse período, já tinha iniciado, fruto de uma gestão de rendimentos criteriosa, aquele que mais tarde se transformou no negócio da sua vida: a venda de calçado usado. Porque no poupar está o ganho, Artur juntou dinheiro até totalizar 4 mil meticais, dos quais investiu 3.500 na compra de um fardo de calçados. “Tive um lucro de 1500”, refere.

Aliás, foi esta margem de lucros que fez com que Artur largasse o trabalho. Ganhava, quando trabalhava, 25oo meticais. Nessa altura era impensável, diz, construir casa própria.

“Vendo calçado há um ano e já tenho um espaço. Mas trabalhei cinco e não fiz nada. Às vezes acredito que a pobreza está na cabeça das pessoas. É preciso não ter preguiça. Provavelmente, Guebuza tenha razão quando fala de pobreza mental. Eu não tive as condições que muitos têm e outros tiveram, mas consegui construir família e dar uma vida digna aos meus com sacrifício. Amigo, ninguém vai comer e dormir tranquilo se não transpirar. Nada é de graça”, explica.

“Casei-me graças ao meu negócio e vou construir uma casa na Machava, no quilómetro 16. Não é fácil, mas é preciso tentar”, diz.

O fardo é uma caixa de surpresas

Mensalmente vende uma média de oito fardos e adquire igual número. Com uma margem de lucro de 1500 por fardo, Artur faz uma média de 12 mil meticais. “Na minha esquina, segundas, terças, quintas e sextas-feiras são os melhores dias para vender.

Há, geralmente, grande movimentação de pessoas”. Nem todo o sapato tem qualidade num fardo. Efectivamente, num universo de 200 sapatos apenas 40 se aproveitam. “Quando compramos os fardos não temos a mínima noção do estado do calçado. Há vezes em que temos muitas quebras. Mas, também dias há em que as quebras são insignifi cantes e, quando assim é, o nosso lucro é bem mais visível”, conta.

Artur é diferente dos outros negociantes que vendem as suas mercadorias em lugares fixos ou em barracas para o efeito. Este jovem faz transportar a sua mercadoria num carrinho de mão, vulgo “txova” até ao local onde a revende. Em frente ao mercado da Machava-sede. Reside no bairro do Infulene-A e é de lá onde parte com o seu produto, qual barraca ambulante, e estaciona em frente ao mercado. Não foi à toa que escolheu o lugar. A movimentação frequente de pessoas é que determinou a escolha.

Questionado se não podia circular com as suas mercadorias uma vez que tem a facilidade de transportá-las no seu “txova”, a resposta veio pronta: “Não. Prefiro, mesmo usando o carrinho, ter um lugar fixo porque este tipo de negócio requer uma referência para os clientes poderem localizar-nos facilmente. Quando andamos de lugar em lugar, baralhamos a clientela”.

Um contratempo Num dia belo dia, Artur ficou sem o carrinho de mão por causa da acção dos amigos do alheio. Apenas escapou a mercadoria. Um constrangimento enorme para quem tinha aquele instrumento de trabalho como meio de transporte e montra dos seus produtos. Porém, Artur não se vergou e alugou outro. Custa-lhe 50 meticais diários, mas não tem como evitar essa despesa. Ou ‘mata’ o negócio ou ganha menos.

Artur prefere ganhar menos, mas continuar a sobreviver sem depender de um patrão. Este contratempo baixou os lucros de Artur. Antes ganhava 12 mil meticais. Actualmente, subtrai 1500 para pagar ao proprietário do meio de transporte. Ainda assim sobram-lhe, de lucro, 10500 meticais, bem acima do que ganha um licenciado no aparelho do Estado. 1500 meticais é muito dinheiro…

Artur paga 100 meticais mensais para exercer a actividade. Porém, não pode expor os seus sapatos como deseja. “Gostaria de deixar os meus produtos ao longo do passeio como fazem os outros vendedores. Contudo, “não posso cometer esse erro porque não quero perder os meus produtos.

Para o efeito, teria de adquirir uma licença no valor de 1500 meticais ao contrário dos 100 meticais mensais. O valor, no entender de Artur, não é muito alto. Porém, a obrigatoriedade de efectuar o pagamento de uma única vez impede-o de tratar a licença.

Artur tem sonhos, os quais passam por construir uma casa, conseguir um apoio de oito mil meticais e comprar uma “txova”. Com o dinheiro pretende reforçar o negócio. Tem fé de que conseguirá tudo o que almeja. O dinheiro chegará, diz, através de poupanças ou de um empréstimo numa instituição de microcrédito. A moradia, essa, há-de vir com o tempo porque “o espaço já existe”.

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