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Opinião: Moçambique – Heroínas, procuram-se

As histórias dos povos estão repletas de actos de bravura, coragem e heroísmo. Porém, quase que invariavelmente, os heróis são escritos no género masculino, isto é, são poucas as estórias de heroínas.

Moçambique celebrou no dia 3 de Fevereiro mas um dia alusivo aos heróis moçambicanos. Como de costume, a nação foi à Praça dos Heróis depositar uma coroa de flores.

Recordemo-nos de que estão depositados na cripta da Praça dos Heróis os restos mortais dos que a historiografia moçambicana designou de heróis.

Até parece que a escolha de quem deve entrar na cripta obedece à uma lógica patriarcal – apenas uma mulher é que conseguiu entrar na cripta; Josina Machel. Se a lógica inicial da designação de heróis respondia ao facto de todos terem estado envolvidos na Guerra de Libertação, pode questionar-se se não houve mulheres que tombaram no período da luta armada. Se a resposta for sim, como é que os seus restos mortais não foram parar na cripta?

Sem dúvidas que o heroísmo está nos olhos de quem vê. E os olhos de quem escolheu e tem escolhido os nossos heróis até à data são de homens. Obviamente que alguém determinou critérios de designação de herói nacional, mas temos que perceber que provavelmente vários factores influenciaram as suas escolhas, não menos importante o modelo patriarcal.

Interessa-me olhar para como o factor modelo patriarcal poderá e pode continuar a influenciar os critérios de escolha de heróis. Primeiro, o campo do combate foi sempre considerado par excellence um local dos homens. As mulheres apenas aparecem a desempenhar um papel secundário; carregar o armamento, alimentos e medicamentos, entre outros. Talvez por causa do seu papel secundário na guerra apenas uma fosse considerada para a cripta.

Segundo, na altura em que a guerra de libertação e a subsequente independência ocorreram o modelo patriarcal estava mais entranhado do que hoje. Na altura o discurso dos direitos humanos da mulher ainda não estava embrenhado no nosso ADN político, social e cultural. O que pressupõe que a designação de quem era herói apenas podia obedecer à lógica então existente.

Mas implicitamente esses critérios obedecem a uma lógica das relações de poder entre os homens e mulheres que determina que o lugar da mulher é em casa, isto é, esfera privada. Sendo que, o lugar do homem é na esfera pública. Portanto, quase nada do que acontece na esfera privada configura heroicidade.

Se a esfera pública é do domínio do homem, para que uma mulher seja distinguida terá que ter feitos muito mais extraordinários do que os de um homem. Ela não vai conseguir sobressair fazendo o extraordinário. Para vincar esta posição, Charlotte Whitton, presidente do município de Ottawa, Canadá, entre 1951-1956 e 1960-1964, disse uma vez que “espera-se que as mulheres façam duas vezes mais do que os homens, para obterem metade do mérito.” A meu ver, é injustiça exigir-se que a mulher faça o dobro do que o homem faz.

Pode ser essa lógica que deixa a sociedade cega, de tal sorte que as acções extraordinárias das mulheres não recebem o devido reconhecimento. Portanto, parece haver uma cegueira colectiva em relação aos feitos extraordinários das mulheres, fazendo com que poucas mulheres sejam distinguidas aos mais altos níveis nas suas sociedades.

Daí que, enquanto as actuais estruturas patriarcais se mantiverem, vai ser difícil que os feitos extraordinários das nossas heroínas sejam finalmente reconhecidos. E como sociedade, temos que continuar a trabalhar na promoção da igualdade e justiça do género.

Essa poderá ser uma das vias para remover as escamas que nos cobrem a visão, de modo que possamos finalmente saber honrar as nossas heroínas. Este será tão-somente o reconhecimento tácito e inequívoco de que as nossas lutas de libertação não foram apenas feitas pelos homens; elas foram feitas por homens e mulheres e lado a lado.

O reconhecimento de que o nosso progresso como nações é feito por homens e mulheres sem discriminação devia ser um imperativo nacional. Negar este reconhecimento é continuar a escolher o modelo patriarcal, parodiando assim todos os cometimentos internacionais, continentais e regionais de luta pela promoção da igualdade e equidade do género.

*Bayano Valy é o Editor do Serviço Lusófono da Gender Links. Este artigo faz parte do Serviço Lusófono de Opinião e Comentário da Gender Links

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