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Minho Verde

Por esta altura, no Minho, região do extremo norte de Portugal, de que sou filho de pai e mãe, não há lugarejo que não tenha a sua festa. Uma igreja – e Deus sabe a quantidade de igrejas que o Minho tem – ; cavacas e broa; uma ou duas banquinhas de tiro e um torneio de jogo da malha; pipos de vinho, grades de cerveja, aguardente de vinho verde e whisky para os moderninhos; um sorteio de um porco; fogo de artificio e, claro está, o respectivo bailarico.

Sendo o mordomo mais abonado ou tendo o lugar mais gente é provável que também esteja à disposição dos foliões uma pista de carrinhos de choque e um espectáculo de um qualquer cantor popular. Estas festas tinham e têm como pretexto homenagear o santinho da aldeia mas, as razões eram bem mais terrenas. O estio obrigava apenas à rega e à preparação das colheitas de Setembro e era tempo dos rapazes casadoiros catrapiscarem as raparigas.

Como todos sabemos, nada melhor que um bocadinho de calor – sobretudo em terras que têm frio durante 10 meses por ano – para que os nossos melhores instintos saltem. Assistir à Missa, enviar olhares lânguidos à moçoila da nossa afeição, beber até cair e o verdadeiro ponto alto da festa: a pancadaria. Rivalidades entre lugares, azias antigas, amores partilhados, demasiada testosterona acumulada seriam as razões invocadas, mas a verdade (a minha, pelo menos) é que não havia uma causa definitiva para o começo das hostilidades.

Ou melhor, havia: a festa não seria como deveria ser se não acabasse tudo ao murro. Seria assim como o baile final, o gastar das últimas energias, a memória a guardar. Servia também como introdução para a festa do próximo ano: alguém levava mais do que dava e a contabilidade tinha que ser equilibrada. Para o ano é que era. Eu, aliás, já apanhei este belo espectáculo em fase descendente. A tradição era trocarem- se razões com o auxílio de um varapau. Vinham jogadores do pau de muito longe.

Agora imagine-se a frustração destes respeitáveis cidadãos se não pudessem aviar umas pauladas. Essa tradição acabou. Não sei se feliz, se infelizmente. No fundo, era mais dente, menos dente; umas nódoas negras; umas cabeças partidas; uns orgulhos abalados. A bela dança de uns murros e pontapés foi substituída por uns berros de um qualquer cantor com voz de cana rachada acompanhado por umas raparigas com pouca roupa e muita celulite. Os poucos desacatos terminam com facadas ou pior, muito pior.

As festas estão mais calmas mas não sei se mais civilizadas.

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