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Marratane: uma aldeia (in)vulgar

Marratane: uma aldeia (in)vulgar

Os que tiveram a sorte de escapar aos conflitos armados e/ou à instabilidade política na Somália, Etiópia e Congo lutam agora pela sobrevivência no Centro de Refugiados de Marratane, em Nampula. Mesmo numa maré de dificuldades, alguns prosperam nos seus negócios e até empregam moçambicanos.

Há pouco mais de 10 anos, Gornila não imaginava o que os astros lhe reservavam para o futuro. Com apenas 13 anos de idade, sonhava, como toda a adolescente, em abraçar a carreira de professora ou enfermeira.

Porém, o destino reservou-lhe outra coisa, pois aconteceu o inesperado: a sua aldeia, localizada no interior da República Democrática de Congo (RDC), acordou sob fogo cruzado entre grupos armados.

As condições de vida começaram, então, a arruinar-se. A degradação do país parecia irreversível. Gornila viu os seus sonhos de menina a evaporarem num ápice. Até porque, nos primeiros meses de conflito, tornara-se evidente que a guerra civil não acabaria tão cedo.

A sua família, composta por nove pessoas, não se fez de rogada, tendo abandonado a RDC em busca de um abrigo num dos países limítrofes. Angola foi o destino escolhido. Neste país, também encontraram um conflito armado, no qual os seus progenitores vieram a perder a vida.

Vencer o desespero

Sentada numa cadeira de plástico e com o olhar impenetrável, a tristeza ocupa o rosto de Gornila quando questionada sobre as circunstâncias em que os pais desapareceram. Apesar da insistência, recusa-se a dar mais detalhes sobre a situação porque, quando pensa que eles morreram por excesso de precaução, a dor é maior. “Fugimos da guerra lá e fomos apanhar em Angola”, conta num português ainda carregado.

Ela é apenas mais uma de muitas vítimas de conflitos armados que tiveram a sorte de ter um abrigo no enorme Centro de Refugiados de Marratane, a 25 quilómetros da cidade de Nampula. Trata-se de uma espécie de aldeia de quem viu a guerra tirar-lhe a família e os sonhos.

Da jovem Gornila, a guerra levou (quase) tudo: os pais, dois irmãos e os sonhos, mas não a esperança de voltar à sua terra natal. “Estou a juntar dinheiro para voltar ao meu país assim que não houver mais problemas”, diz. Presentemente, com 24 anos de idade – mas com aparência de uma mulher com pelo menos 35 anos –, é casada com um congolês, também refugiado, com o qual tem três filhos, todos nascidos no campo de Marratane.

Há 11 anos, vive em Moçambique na condição de refugiada. Chegou a pé, vinda da Tanzânia, com apenas a roupa do corpo. Pelo caminho, perdeu outros membros da sua família.

Hoje, a vida de Gornila não é a mesma. Ela orgulha-se das coisas que conquistou durante anos de sacrifícios. Começou por produzir e vender tomate e couve. Com o andar de tempo, o negócio cresceu. Agora já dispõe, no centro de refugiados, de uma mercearia, uma barraca de venda de bebidas e uma moagem, além de uma carrinha que usa para adquirir produtos na cidade. E emprega três moçambicanos.

Apesar de a vida lhe correr bem como refugiada em Marratane, Gornila não esquece o seu país. “Moçambique é um bom país, basta ter-se força de vontade não se morre de fome. Mas quando as coisas se acalmarem, eu e a minha família regressaremos ao Congo”, afirma.

Viver na dúvida

Miguel dos Santos, de 33 anos de idade, nasceu em Angola. Por força da guerra civil no seu país, veio parar a Marratane. Mas o seu primeiro destino era a África do Sul. “Queríamos buscar refúgio na África de Sul, mas foi impossível. Moçambique foi o único país que nos acolheu”, conta.

Sem informação sobre o destino da família em Angola, o jovem não pensa em regressar à sua terra natal, até porque não sabe se ainda tem algum familiar vivo. Presentemente, Miguel já não vive no Centro de Refugiados de Marratane, apenas faz daquele lugar o seu posto de trabalho.

Vive no distrito de Angoche e ganha a vida vendendo espetadas de carne de cabrito em Marratane. “Pelo menos três vezes por mês, sobretudo aos fins-de-semana, vou visitar a família que aqui construí”, comenta.

A vida no campo de refugiados nunca foi fácil, mas o que já era difícil ganhava contornos alarmantes com o passar do tempo: “muita gente passa fome neste lugar. Não é possível sobreviver com apenas 6kgs de farinha de milho, meio litro de óleo e 1.5kg de feijão”, afirma e acrescenta: “tive de encontrar uma forma de sustentar a minha família”.

Jovens sem norte

A vida em Marratane é monótona. Não há nada para fazer. Os refugiados, oriundos maioritariamente da Somália e Etiópia, passam o tempo sentados em grupos. Falta quase tudo, até diversão. Os habitantes entretêm-se a jogar às cartas.

Sentado num tronco de uma árvore, um grupo de jovens somalis e etíopes está reunido olhando para o vazio. Aproximámo- nos para meter dois dedos de conversa. Têm entre 18 e 30 anos de idade, alguns têm baixo grau de escolaridade e outros nunca se sentaram sequer num banco de uma sala de aulas. Sem opção, nem profissional nem de formação, pensam, invariavelmente, numa única coisa: refazer a vida. Alguns querem emigrar para a cidade.

Sossegados e quase invisíveis, eles mostram-se sem rumo e sem fé no futuro, até porque o conflito armado arrancou-lhes a possibilidade de semearem alicerces para hoje singrarem na vida.

Passam o dia a olhar para o tempo, mas este passa pelos corpos e adia os sonhos. Em Marratane, um jovem, na flor da idade, poderia ter a mesma ocupação que uma criança, cuja actividade é brincar sem reservas. Não há nada para fazer. Por isso, todos partilham a mesma ambição: encontrar uma ocupação. Porém, a falta de documentos tem sido um dos principais obstáculos.

Baka, de 23 anos de idade, de nacionalidade etíope, conta que foi tentar a sorte na cidade de Nampula, mas nada deu certo porque os agentes da polícia estão sempre no encalce dos refugiados para extorquir-lhes dinheiro que nem sequer possuem.

Abandonar o centro de Marratane é assunto constante nas conversas dos jovens. Porque, apesar de pouca ajuda que recebem naquele lugar, a vida é monótona e o relógio parece não assinalar a passagem do tempo. Aliás, paira um sentimento de abandono, pois a “aldeia” dos refugiados não conheceu absolutamente nenhuma melhoria.

Trabalhar para refugiados

Desde cedo, Nelson Ernesto Chamania, de 29 anos de idade, trabalha para os refugiados em Marratane. Primeiro, começou por ser cobrador de chapa em 2005 e ganhava 10 meticais por dia. O seu patrão era um cidadão de origem nigeriana que morava no centro e dispunha de uma carrinha de caixa aberta com a qual fazia a rota “cidade de Nampula/Marratane”.

“Ele estava à procura da vida e pedi-lhe um emprego”, diz. Em pouco menos de três anos, Nelson viu o negócio do seu empregador a prosperar. Primeiro, adquiriu três viaturas novas e, mais tarde, obteve mais três, galvanizando, assim, o sistema de transporte entre Marratane e a cidade de Nampula.

Com o crescimento do negócio do nigeriano, também Nelson sentiu a sua a vida ganhar um novo fôlego. Quando o seu patrão viajava para a sua terra natal, deixava-o no comando da pequena empresa e passou a auferir 1500 meticais mensalmente e, mais tarde, viu o salário atingir os 3000.

De cobrador, Nelson Chamania passou a mecânico. “Aprendi com o meu patrão a reparar carros e fazia disso o meu ganha-pão”, conta. Tempos depois, devido à confiança que foi conquistando do patronato, ganhou um presente em forma de agradecimento por causa da sua lealdade: a oportunidade de ter uma carta de condução.

Mas nem tudo foi um mar de rosas. Mais tarde, o empregador vendeu duas das viaturas que constituíam a sua frota. O negócio deixou de render como antes. Com mais de três meses sem salário, Nelson decidiu abandonar o emprego.

Actualmente, trabalha como motorista para um somali de nome Bilo Beleé e aufere um salário de 3000 meticais mensais, além de beneficiar de um bónus diário de 100 meticais. Natural de Meconta, província de Nampula, Nelson vive em Marratane, embora não seja refugiado.

À semelhança de Nelson, diversas famílias moçambicanas fazem de Marratane o seu domicílio.

Perfil do Refúgio no mundo (*)

A população de pessoas forçadas a deslocar-se devido a conflitos e perseguições no mundo totalizava, no final de 2009, 43,3 milhões – o maior número desde a primeira metade da década de ‘90. Entre elas estão 15,2 milhões de refugiados (47% mulheres e meninas), 27,1 milhões de deslocados internos e cerca de um milhão de solicitantes de refúgio.

Em fins de 2009, cerca de 36,5 milhões de pessoas estavam sob os cuidados do ACNUR, maioritariamente refugiados (10,4 milhões) e deslocados internos (15,6 milhões). Outros grupos importantes são: apátridas (6,6 milhões), deslocados retornados (2,2 milhões), solicitantes de refúgio (983 mil) e repatriados (251 mil).

Entre os grupos sob os cuidados do ACNUR, o maior aumento ocorreu entre os deslocados internos: mais de 1,2 milhão de pessoas entre 2008 e 2009, devido a conflitos na RDC, Paquistão e Somália. Esta população atingiu um nível recorde em 2009. O número de refugiados manteve-se estável – queda inferior a 1%.

80% dos 15,2 milhões de refugiados do mundo vivem em países em desenvolvimento, sendo que mais de metade desta população reside em áreas urbanas.

A persistência de conflitos armados impede o retorno de refugiados aos seus países de origem e aumenta a sua permanência nos países de asilo. As repatriações voluntárias registadas em 2009 (251 mil) foram as menores dos últimos 20 anos, e as situações prolongadas de refúgio (grupos de pelo menos 25 mil pessoas há mais de cinco anos no exílio) já representam mais de metade dos refugiados sob os cuidados do ACNUR.

Mais de 128 mil casos foram submetidos a reassentamento em 2009 – o maior dos últimos 16 anos. O aumento preocupante de pedidos de refúgio por crianças desacompanhadas ou separadas foi de 18.700 casos registados em 2009, sendo 81% deles na Europa.

Os principais países de asilo em 2009 foram: Paquistão (1,74 milhão de refugiados), Irão (1,07 milhão), Síria (1,05 milhão), Alemanha (593,8 mil), Jordânia (450,8 mil), Quénia (358,9 mil) e Chade (338,5 mil). Cerca de 80% dos refugiados vivem na mesma região dos seus países de origem;

Os principais países de origem de refugiados em 2009 foram: Afeganistão (2,88 milhões), Iraque (1,78 milhão), Somália (678,3 mil), RDC (455,9 mil), Myanmar (406,7 mil) e Colômbia (389,8 mil). Um em cada quatro refugiados do mundo é do Afeganistão.

Tendências regionais

África

Na África Subsaariana, o número de refugiados diminuiu pelo nono ano consecutivo: 2,1 milhões no final de 2009 (queda de 1,5% em relação a 2008). Esta redução é o resultado da naturalização de 155 mil refugiados do Burundi na Tanzânia, e da repatriação voluntária para a RDC (44,3 mil), Sul do Sudão (33,1 mil), Burundi (32,4 mil) e Ruanda (20,6 mil);

Novos conflitos e violações dos direitos humanos na RDC e na Somália levaram a novos fluxos de refugiados e ao deslocamento de 277 mil pessoas, principalmente para a República do Congo (94.000) e o Quénia (72.500).

A África do Sul é o maior destino dos solicitantes de asilo no continente africano, com mais de 222 mil novos pedidos individuais de refúgio registados em 2009.

África abriga 40% do total de deslocados internos do mundo. Os principais países com deslocados internos no continente são a RDC (2,1 milhões de novos deslocados internos registados) e a Somália (com 300 mil novos deslocados, de um total de 1,55 milhão). No Sudão, esse número chegou a cerca de um milhão em fins de 2009.

Ásia e Médio Oriente

Refugiados iraquianos e afegãos representam quase metade de todos os refugiados sob responsabilidade do ACNUR no mundo.

Quase todos os refugiados no Paquistão e no Irão são provenientes do Afeganistão.

57,6 mil refugiados regressaram para o Afeganistão em 2009 – os níveis mais baixos em oito anos. Mais de 5,3 milhões de refugiados afegãos – quase 20% da população do país – voltaram para casa desde 2002.

Por nacionalidade, o maior número de novos pedidos de asilo foi apresentado por indivíduos provenientes de Myanmar (48.600) e Afeganistão (38.900).

Europa

Abriga 16% da população mundial de refugiados em 2009 (mais 0,9% que em 2008). Os principais grupos vêm do Iraque, Sérvia e Turquia.

O Reino Unido registou o maior número de pedidos de refúgio (3.000) de crianças desacompanhadas e separadas – 1.200 pedidos a menos, se comparado com 2008.

Américas

A população de refugiados aumentou 1,1% devido principalmente à concessão do status de refugiado a 26.200 colombianos no Equador em 2009 – resultado do Programa de Registo Ampliado.

Os Estados Unidos e Canadá admitiram 79 mil e 12,5 mil refugiados em 2009, respectivamente.

Os Estados Unidos concederam cidadania a 55,3 mil refugiados.

A Colômbia tem 3,3 milhões de pessoas deslocadas internas registadas.

*Dados de 2010

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