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Maria Machonga: “A menina das luvas de bronze”

Maria Machonga: “A menina das luvas de bronze”

Quando se fala da 20ª edição dos Jogos da Commonwealth é inevitável referir-se ao facto de a delegação moçambicana, tal como aconteceu nos Jogos da Lusofonia, ter viajado para aquela competição com mais de uma dezena de dirigentes que foram à Escócia passar a mão nas nádegas de senhoras, em vez de treinadores. O grosso dos atletas nacionais que participaram naquele galardoado evento desportivo viajou sem treinadores, à excepção de Kurt Couto, o atleta que mais desiludiu. Todos esses casos ofuscam o desempenho da pugilista do Matchedje, Maria Machonga, que conquistou uma medalha de bronze na categoria dos -58kg.

Maria Manuela Joaquim Machonga foi umas das moçambicanas em destaque nesta edição dos Jogos da Commonwealth que foram disputados na capital escocesa, Glasgow. A pugilista da Academia Lucas Sinoia foi a última do combinado nacional a ser convocada para aquele certame, mas conseguiu ganhar uma medalha de bronze. Nasceu na cidade de Maputo a 31 de Janeiro de 1993, e actualmente reside com a família na cidade sul-africana de Pretória.

Teve uma infância risonha e cheia de sonhos como qualquer criança do mundo naquela fase. Brincava ao raiar do sol e ajudava a mãe nos deveres de casa no bairro da Mafalala, onde viveu antes de partir para a África do Sul, em 2011. Neste bairro Maria era conhecida pelo talento que tinha no futebol, modalidade que praticava antes de descobrir a sua paixão pelo boxe, considerado por muitos como uma modalidade perigosa para as mulheres.

“Uma mulher que se divorciou do futebol para casar com o boxe”

Maria afirma que desde criança que tem uma paixão pelos desportos radicais, em particular as provas de combate. Estudou na Escola Primária Casa da Educação da Munhuana onde terá descoberto que, para além do futebol, tinha talento para o boxe.

“ Desde criança adorava desportos radicais e o meu sonho era participar numa prova de luta livre, também apelidada de MMA, mas em Moçambique não temos este tipo de artes márcias, por isso preferi ingressar no boxe por ser parecido com aquele tipo de artes marciais, embora no boxe usemos as mãos para atingirmos o nosso rival, ao contrário do MMA, em que são usadas todas as partes do corpo”

No futebol a campeã nacional da categoria dos 57-60 kg envergou as cores do Ajax da Mafalala. Maria lembra com nostalogia os tempos em que trocava os afazeres de casa por uma peladinha com as amigas.

“No passado o futebol fazia parte de mim, assim como o boxe no presente. Nesta modalidade, além dos jogos escolares a nível da capital do país, representei o já extinto Clube de Futebol Ajax da Mafalala, em representação do qual ganhei muitos títulos. Jogar futebol era a minha paixão, antes de me apoixonar pelo boxe”

Maria Machonga na Academia Lucas Sinoia Muchonga

Iniciou-se no boxe em 2008, na Academia Lucas Sinoia, por sinal do seu actual treinador na selecção nacional, fez parte do primeiro grupo de mulheres que abraçaram este tipo de modalidade no país e diz que não foi nada fácil, porque era uma realidade diferente daquela a que estava habituada no futebol.

“Em 2008 tive a oportunidade de ingressar no boxe na Academia Lucas Sinoia. Eu fazia parte do primeiro grupo de atletas femininos que participaram pela primeira vez no Campeonato de Boxe da Cidade de Maputo, sendo que nas outras províncias já se movimentava esta modalidade em femininos. Digo com muito orgulho que fui produto deste primeiro grupo de mulheres que participaram pela primeira num campeonato a nível da capital do país”

No primeiro ano Maria Machonga sagrou-se campeã da cidade de Maputo e, dois anos depois, foi selecionada para representar a selecção numa prova internacional que foi disputada na Africa do Sul, mas confessa que nos primeiros anos a família estava contra a sua decisão de abandonar o futebol para abraçar o boxe, por ser uma modalidade bastante perigosa, mas, mesmo sem o apoio da família, Maria continuou a treinar.

A menina das luvas de bronze lembra-se de que mesmo quando treinava futebol a família era contra esta modalidade, porque achava que o futebol devia ser praticado apenas por pessoas do sexo masculino.

“ Os primeiros dias não foram fáceis para mim, porque não contava com o apoio da minha família, havia muito preconceito dentro de casa assim como fora. O mesmo aconteceu quando jogava futebol. Disseram-me para recuar e apostar numa outra modalidade, mas não aceitei porque queria prosseguir a minha carreira desportiva no boxe”

Depois de se rebelar contra os pais, estes tiveram que aceitar a decisão da filha que tinha escolhido a modalidade considerada perigosa por eles. “Quando a minha família, se apercebe de que era aquilo que eu queria e que tinha hipóteses de progredir no boxe, apoiaram-me. Fui convencer-lhes de que esta modalidade não é apenas para homens”.

 

O boxe moçambicano precisa de evoluir em vários aspectos

Apesar de ter ocupado a terceira posição numa prova tão prestigiada como os Jogos da Commonwealth, Maria Machonga afiança que este resultado não reflecte o actual estágio do nosso boxe, sendo que o mesmo ainda precisa de melhorar em muitos aspectos.

Para a atleta da Academia Lucas Sinoia, a falta de competições está por detrás do fraco desenvolvimento da modalidade no país. “O maior problema do nosso boxe está na ausência de competições, temos atletas talentosos em ambos os sexos mas sem competições não há nenhuma margem de progressão.Em Moçambique, em média, um atleta só participa em cinco combates por ano. Nos outros países, um atleta por ano participa em mais de 30 combates; por isso, quando saímos para as competições internacionais denotamos falta de ritmo”

Radicada na vizinha Africa Sul, Maria confessa que apesar das condições que os atletas locais têm em comparação com aquelas que são oferecidas em Moçambique, o boxe sul-africano está no mesmo patamar que o moçambicano.

Indo mais longe, Machonga afirma que em Moçambique assim como na Africa do Sul já não tem adversárias ao seu nível pelo que já derrotou todas.

“Quando participo numa prova nacional ou da zona VI, já sei que vou ocupar a primeira posição, porque já lutei com todas as do meu escalão e sempre saí vitoriosa, acho que em Moçambique assim como na África do Sul já não tenho adversarias, não por menosprezar as pugilistas, mas sim por estar num nível elevado em relação a elas”

O significado da medalha de prata nos Jogos da Commonwealth

Conquistar uma medalha nos Jogos da Commonwealth não é tarefa fácil. Apesar de ser oriunda de um país que quase nada investe no desporto, Maria Machonga ocupou a terceira posição, que lhe valeu a medalha de bronze. Ela diz que esta conquista representa para si a concretização de um sonho.

“Competir com os melhores do mundo é sonho de todo o atleta. Foi a primeira vez que fiz parte desta competição e consegui ficar com a medalha de bronze, numa prova que ombreei com as melhores pugilistas do mundo, concretizei um sonho de infância, conquistar uma medalha numa prova internacional tão prestigiada como os Jogos da Commonwealth. Confesso que pelo nível dos atletas que participaram neste certame não esperava sair com uma medalha, mas ao longo da prova acreditei que podia chegar longe, graças ao trabalho que fizemos com o meu treinador, o Lucas Sinoia”

“Não sonho com o pódio nos Jogos Olímpicos e Mundial”

Ganhar uma medalha num Campeonato do Mundo ou, Jogos Olímpicos é o desejo de todo o desportista, mas a campeã nacional dos -58kg não sonha com este tipo de títulos. “Ainda não sonho com um título mundial, muito menos dos Jogos Olímpicos”.

Para Maria Machonga, o nível do boxe africano, em particular o moçambicano, ainda deixa muito a desejar, razão pela qual Maria Machonga, não se ilude pensando no pódio numa competição olímpica ou mundial.

“No presente dizer que ambicioso ganhar um título mundial e olímpico seria ilusório. O nível do boxe que temos em África não nos permite sonhar com grandes resultados a nível internacional. Talvez se um dia estiver a evoluir fora de portas possa sonhar com um feito grande, porque estarei ao meu nível em relação às minhas rivais.”

Uma imagem da Maria fora dos ringues

Maria, que também divide a sua carreira desportiva com os estudos, fora dos ringues é uma mulher normal. Nos tempos livres, gosta de estar com a família, na qual conta com o apoio incondicional da mãe, uma pessoa que acompanha de perto a evolução da sua carreira. Adora assistir ao futebol e aos combates de luta livre.

Refira-se que Maria Machonga, para além das várias conquistas nacionais, foi campeã da África Austral por duas vezes ininterruptas, e conta, até ao momento, com mais de cinco medalhas internacionais. No último Torneio Internacional da África do Sul terminou na primeira posição.

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