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Mahamudo Amurane: O homem que desafiou o seu destino

Mahamudo Amurane: O homem que desafiou o seu destino

É uma daquelas figuras que entraram na vida de milhares de pessoas com a mesma naturalidade dos parentes mais próximos. Ao contrário de outras crianças moçambicanas que tiveram o cuidado dos pais, Mahamudo Amurane, desde pequeno, passou por inúmeras privações. Muito cedo, perdeu o seu pai, facto que teve implicações não só na vida pessoal, mas também nos estudos. Foi criado pelos irmãos mais velhos, uma vez que a sua progenitora não dispunha de condições financeiras. Porém, graças à sua dedicação, conseguiu concretizar a maior parte dos seus sonhos.

Optimista e com um desejo enorme de alcançar os seus propó- sitos, desde pequeno foi um homem que correu atrás de um sonho que acabou por alcançar. Concluiu o seu ensino primário na EPC de Marocane, actual Instituto Agrário de Ribáuè, na província de Nampula. Prosseguiu com os estudos no Centro Internato da Missão Católica de Iapala, onde foi acolhido pelos responsáveis da instituição porque não dispunha de meios, uma vez que os familiares viviam na cidade de Nampula. Praticamente desamparado, o novo edil de Nampula não se deixou levar pela aflição. Determinado, lutou pela vida, ganhando algum dinheiro, o que permitiu concluir a 7a classe.

Depois mudou-se para a cidade de Nampula, na boleia de um funcionário da Direcção Provincial de Saúde, o qual se simpatizou com o jovem, pois notou que estava sozinho sem condições financeiras para chegar à capital provincial. Naquele tempo, concluir a 7a classe era uma honra para a família. Mas Amurane não se conformou com isso. Continuou a estudar, desta feita no ensino secundário geral na antiga Escola Secundária 1o de Maio, que funcionava nas actuais instalações da Universidade Católica de Moçambique, em Nampula.

Convidado a mudar de religião

Filho de um responsável de uma mesquita, designado sheik, era natural que ele também fosse da mesma religião. Quase todos os membros da sua família professam o islamismo. Por diversas vezes, Amurane foi abordado por um grupo de homens da religião cristã, os quais o convidaram a converter-se. Na ocasião, recusou e mostrou-se determinado apenas em continuar a estudar. Mais tarde, reflectiu e chegou à conclusão de que se tratava de uma chamada de Deus, razão pela qual se converteu ao cristianismo. A primeira igreja que frequentou foi a Assembleia de Deus. Mais tarde, preferiu a Igreja Católica. Amurane participou num programa de formação de técnicos de controlo de tráfego aéreo.

Tendo sido o melhor aluno do grupo dos formandos, beneficiou de outro curso do mesmo ramo na cidade de Maputo. Entretanto, a sua irmã, Adelaide Amurane, a actual ministra para os Assuntos Parlamentares, aconselhou-o a interromper a carreira, porque não havia nenhuma perspectiva em termos de progressão, tendo-lhe oferecido uma proposta de formação no Brasil por um período de 60 dias em matérias de capacitação de empresários de microempresas em contabilidade, administração e finanças. De referir que a sua viagem ao Brasil foi uma alavanca para a sua vida.

Durante a sua permanência, relacionou-se com algumas pessoas amigas e recolheu informações sobre os custos e procedimentos para beneficiar de bolsas de estudo. Terminado o curso, regressou a Moçambique, onde esteve a trabalhar no Gabinete de Promoção de Emprego no Ministério do Trabalho como técnico de treinamento empresarial.

Durante sensivelmente três anos foi amealhando algum dinheiro resultante do salário que ganhava. Não tinha despesas, porque morava na casa da sua irmã. Tempos depois, decidiu voltar ao Brasil para concorrer a uma bolsa de estudo oferecida pelo Governo brasileiro apenas com a isenção das propinas. O dinheiro que foi guardando ao longo dos anos serviu para a sua manutenção naquele país. Naquele país, não cruzou os braços, tendo continuado a trabalhar num projecto desempenhando as mesmas funções de técnico de treinamento e auferindo um salário mínimo de 300 dólares norte-americanos.

O dinheiro era, ainda, insuficiente e arranjou outras alternativas de sobrevivência. Trabalhou em restaurantes e bares. Com muito sacrifício, conquistou a simpatia de alguns brasileiros, tendo obtido emprego em duas instituições, sendo o Banco Brasileiro como estagiário durante a noite e o Instituto de Previdência de Servidores Públicos.

Um profissional (in) grato

Depois dos estudos, teve muitas ofertas de trabalho naquele país latino-americano. Contudo, mostrou-se determinado a regressar a Moçambique, porque a sua formação envolveu muito sacrifício e precisava de voltar à sua terra. “Moçambique precisa mais de mim do que o Brasil”, afirmou. Há quem diga que Deus o terá castigado, porque depois de recusar as ofertas no Brasil percorreu toda a cidade de Maputo de lés a lés à procura de emprego.

Mais tarde, arranjou um emprego na Medis Famaceutical Limitada como coordenador administrativo e financeiro. Foi aí onde tomou a iniciativa de ter a sua própria farmácia, porque descobriu que o negócio de medicamentos gerava muito dinheiro. Além disso, não estava satisfeito com as suas funções, pois sentia-se pouco valorizado e a rotina do trabalho era estática. O seu trabalho limitava-se a controlar o armazém, incluindo todo o processo de vendas. “As minhas capacidades chamavam-me para outros desafios”, anotou.

Em 2000, abandonou o seu posto de trabalho e foi leccionar no Instituto Médio da Administração Pública em Maputo. No ano seguinte, começou a trabalhar como docente do Instituto Politécnico Universitário, na cidade de Quelimane, onde assinou outro contrato de trabalho como assessor da administração e gestão na Direcção Provincial de Saúde da Zambézia, através do Fundo Europeu para o Desenvolvimento.

Em 2003, conseguiu uma vaga como docente na Universidade Mussa Bin Bique no período pós-laboral. Durante o dia, desempenhava as funções de assessor de administração e gestão na Direcção Provincial de Saúde de Nampula, num programa desenvolvido pela USAID. No ano seguinte, recebe um convite para assessorar a Direcção Provincial de Saú- de de Cabo Delgado na área de administração e gestão.

O contrato foi celebrado a curto prazo, tendo regressado a Nampula, onde continuou a dar aulas em gestão de projectos na Universidade Mussa Bin Bique. Já em 2006, recebeu uma proposta para o cargo de oficial de programas de Educação no projecto da Intermón Oxfam, uma ONG espanhola que, na altura, desenvolvia as suas actividades na província de Niassa.

Há quem diga que Amurane é um profissional (in)grato, mas a sua vontade é sempre a de trabalhar assumindo cargos com funções dinâmicas. Por isso, em 2007 integrou a equipa de trabalho da GIZ Pro Educação como assessor financeiro na província de Sofala. Em 2012, regressa à terra dos macuas para assumir as funções de consultor financeiro da UNICEF, num programa denominado NAMWASH (Águas de Nampula) adstrito à Direcção Provincial das Obras Públicas e Habitação.

Actualmente, encontra-se a trabalhar por conta própria num estabelecimento comercial denominado Farmácia Amurane, especializado na venda de produtos farmacêuticos e cosméticos. Sem entrar em detalhes, disse que agora só lhe resta tempo para fazer política, uma área que abraçou com sucesso, porque a sua decisão coincidiu com a sua eleição para edil da terceira maior cidade do país.

Não desejo ser rico”

Quando lhe perguntámos se se considerava um homem rico e financeiramente satisfeito, respondeu-nos nos seguintes termos: “Não me considero uma pessoa rica. Estou sempre a servir o público, tive os meus projectos e estou determinado a trabalhar para também gerar postos de trabalho para outros compatriotas. Talvez seja por isso que me candidatei a presidente do Conselho Municipal de Nampula.

Não quero ser o melhor, mas tenho de ser um edil que vai imprimir uma nova dinâmica na governação, porque o povo estava entregue à sua sorte”, e acrescenta: “Através do trabalho é possível mostrar que as coisas podem ser feitas de forma diferente e produzir resultados com efeitos de desenvolvimento. Um servidor não se preocupa em ganhar dinheiro muito menos em acumular bens pessoais”.

Por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher Maria Luísa Sónia Chimele, natural da província de Maputo, é a grande mulher que está por detrás do edil do município de Nampula, eleito no passado dia 01 de Dezembro. O seu marido considera-a uma mulher de grandes virtudes. Abandonou a sua família que reside no centro da cidade de Maputo e juntou-se a um homem que ainda passava necessidades.

“Ela abandonou a casa dos pais no centro da cidade e passou a viver comigo em condições paupérrimas”, afirmou Amurane. Neste momento, Maria Chimele é a gerente da Farmácia Amurane, um dos projectos do marido. Dirige, igualmente, um salão de cabeleireiro. Além de estar a materializar as suas iniciativas, Amurane é consultor independente, prestando serviços na área de planificação, orçamentação, execução, monitoria e avaliação, incluindo gestão do sector público.

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