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Magude a ferro e fogo

Magude a ferro e fogo
A pacata vila de Magude foi sacudida, no passado mês de Maio, por uma enorme agitação e violência quando um crime passional pôs cobro a uma história de amantes. Agora, Sérgio Jaime Macondzo, de 38 anos, encontra-se a contas com a Justiça, acusado de ter assassinado, na noite de 9 de Maio, o seu rival Filipe Cossa. @ VERDADE traça-lhe aqui os contornos desta macabra história.

Filipe ou Filipane, como era carinhosamente tratado pelos amigos, começou a ganhar a vida efectuando pequenos biscates. Primeiro nos mercados do distrito de Magude e depois, com algum dinheiro amealhado dessa actividade, entrou no negócio do gado bovino, comprando e vendendo carne de vaca no mercado central de Magude.
Foi neste local e neste negócio que há dois anos o malogrado conheceu Sérgio Jaime Macondzo, mais conhecido como Muzondwane, homem que residia ora na terra do rand ora em Moçambique, e a quem, vezes sem conta, comprava gado.
Segundo familiares do assassino confesso, Muzondwane e Filipane eram amigos: “O malogrado era amigo do meu cunhado. Sempre que o meu cunhado queria vender uma cabeça era ao Filipe que se dirigia”, conta Maria Mucavel, cunhada de Muzondwane.
Maria revelou à nossa Reportagem que Muzondwane gostava muito da Cidália: “Eles não tinham filhos. Os dois filhos dele são do primeiro casamento. Embora há bastante tempo se encontrassem separados, por ela muitas vezes o trair, Muzondwane nunca se conformou e sempre procurou recuperá-la.” 
Maria Mucavel revelou ao @ VERDADE que terá sido nos meandros do negócio de gado que o malogrado conheceu Cidália Mulhovo, esposa do seu parceiro comercial por quem ser apaixonou. “O que terá levado Sérgio a desconfiar da esposa foi o comportamento que a dada altura esta começou a manifestar nas saídas constantes para casa dos pais e no próprio distanciamento que começou a revelar em relação ao marido.”
De acordo com a nossa fonte, no fatídico dia do assassinato de Filipe Cossa, Muzondwane e a sua parceira já não partilhavam o mesmo tecto há algum tempo. “Para nós, família, o casamento de Cecília e de Sérgio já estava terminado, pois fazia tempo que estavam separados. Para mais, ela já era vista como pessoa de má conduta tanto na família como na comunidade”, explicou Mucavel. 
Do rapto ao assassinato
Para o jovem trabalhador Filipe Cossa, o dia 9 de Maio de 2009 iniciou-se como todos os outros. Logo de manhã, muito cedo, fez-se ao seu posto de trabalho, justamente no mercado central de Magude, onde abateu uma cabeça e fez a sua venda. Na saída tomou alguns copos com amigos, como era habitual, tendo, no entanto, avistado o seu carrasco à sua chegada à vila de Magude, proveniente da África do Sul.
Longe de pensar que as próximas cinco horas seriam de um calvário, Filipe dirigiu-se a casa, onde o esperava a sua jovem esposa, Miséria Monjane, e a filha do casal de dois anos de idade.
Eram 22h30 quando um grupo de cinco homens irrompeu no quintal de Filipe, solicitando que este lhes abrisse a porta, pedido não satisfeito. Minutos depois, usando materiais contundentes, os intrusos invadiram o apartamento onde Filipe e a esposa se preparavam para o repouso. Ao aperceber-se do risco que corria, o malogrado telefonou imediatamente para o secretário do bairro: “Tio Chavango vieram aqui para me matar!”, foi a única frase que conseguiu pronunciar.
Nesse mesmo instante, o quinteto capturou-o em roupa interior e chinelos. A esposa contactou os sogros contando o sucedido. “Quando vi que já caminhavam com o meu marido dirigi-me a casa dos meus sogros para os alertar do sucedido”, referiu Miséria Monjane em lágrimas.
Por volta das 22h47, o contingente da polícia comunitária, liderado pelo respectivo chefe distrital, Magrado Cossa, começou a operação de busca que durou até às 3h30 do dia 10 sem contudo acharem qualquer pista.
Foi só por volta das 4 horas da manhã que as autoridades locais do bairro do assanino, Matchabe, anunciaram à polícia comunitária, encarregue das buscas, que haviam conseguiram localizar o corpo da vítima nas imediações, assentado numa árvore e coberto de folhas das árvores.
O pai da vítima, Bernardo Ubisse, amargurado explicou: “Se nós soubéssemos que eles não vinham de carro, não teriam matado o meu filho, nós perseguimos de viaturas e eles controlavam os nossos movimentos, aconteceu, que fazer!” 
 
O cerco ao quinteto
Quando o facto já estava consumado, iniciou-se uma nova fase: a busca do maldito bando. Curiosamente, Muzondwane Macondzo chegou na mesma noite e passou por casa, antes de tentar uma fuga. Uma fonte bem colocada no comandado distrital da PRM de Magude, que nos pediu o anonimato por questões deontológicas, garantiu-nos que a captura daquele e dos três comparsas ficou a dever-se à boa colaboração entre a polícia e a comunidade.
“Quando já não tínhamos muitas esperanças de capturar o grupo, alguém nos ligou dizendo que o assassino saíra na primeira carreira de Magude para Maputo, que parte às 4 horas”, referiu ainda a mesma fonte.
Nisto iniciou-se um permanente contacto com o motorista do “chapa”, o que levou Muzondwane a desconfiar de algo, tendo descido na vila da Manhiça: “Quando ali desceu, o motorista e outros passageiros tiraram a matrícula do segundo carro que ele apanhou”, prosseguiu. “Depois fomos imediatamente informados e contactámos os nossos colegas do posto de controlo de Michafutene, que prontamente o neutralizaram. Depois fomos buscá-lo.”
A revolta popular
Quando a Reportagem do @ VERDADE chegou à casa do malogrado, por volta das 10 horas do dia 18, encontravam-se no local a viúva e três anciãs que a acompanhavam. Foi-nos imediatamente explicado que familiares, amigos e vizinhos estavam amotinados defronte do Comando Distrital da PRM à espera do assassino para um ajuste de contas do tipo Talião: “Olho por olho, dente por dente.”
No local encontrámos dor, luto, choro e indignação. Foi neste ambiente que António Humberto falou à nossa reportagem: “Hoje queremos matar o Muzondwane. Se a polícia proibir, juramos, haverá derramamento de sangue”, bramou empunhando o varapau que trazia nas mãos.
Outra senhora relembrou o hediondo caso Tomo, havido há cerca de oito anos, quando populares exigiram a “cabeça” de um suposto feiticeiro que, depois de uma acesa disputa polícia / populares – os efectivos da polícia contavam-se pelos dedos de uma mão – a população, em grande maioria, venceu, resgatando o suposto feiticeiro que foi posteriormente assassinado. “Se a polícia não colaborar vai haver o segundo caso Tomo, não aceitamos este tipo de morte, isto não é África do Sul.”
A polícia, ciente do risco que se corria, atrasou a chegada do suposto assassino para o dia seguinte, situação que veio a enfurecer mais os populares. Já na terça-feira, cerca das 10 horas, quando o cortejo fúnebre se dirigia ao cemitério familiar, eis que no meio do caminho decidem inverter a marcha rumo ao comando policial, em busca do Muzondwane para supostamente enterrarem o seu rival. Foi neste momento que se desenrolou o pior. Tal como sucedera em 1996, também desta vez a polícia perdeu a “guerra”. A cela onde se encontrava Muzondwanwe foi assaltada e este refugiou-se na casa de banho onde veio a ficar gravemente ferido. Não o matámos por sorte. A polícia fartou-se de disparar e então evitámos um banho de sangue”, disse um jovem.
Foi ainda nesta esteira de insatisfação e inconformismo que um grupo de populares se deslocou a Matsandzane, cerca de 100 km da vila-sede de Magude em busca da Cidália. Esta, adivinhando o pior, já se havia refugiado na vizinha África do Sul. Deste modo, após cerca de seis horas de grande agitação, o corpo de Filipe Cossa foi finalmente acompanhado à sua última morada.
O saque
Na fúria cega de encontrar qualquer vestígio de Muzondwane, a população foi à casa deste, no bairro de Matchabe, onde este vivia com os seus dois filhos menores, Maina Sérgio Macondzo, de 10 anos de idade, aluna da quinta classe e Jaime Sérgio Macondzo, de 11 anos, a frequentar a segunda classe.
A casa, de três divisões, foi regada com combustível e queimada sem dó nem piedade, deixando os dois menores ao relento. Hoje, se estes vão à escola, é graças à piedade dos vizinhos: “Nós não ficámos com nada, toda a roupa, cadernos, mantas, tudo foi queimado”, conta Jaime Macondzo, para adiante acrescentar: “Se não fosse aquela titia que veio à escola oferecer-nos cadernos, não sei como seria”, concluiu aquela menor.
Maina não conseguiu suportar as questões que íamos colocando, chegando mesmo a chorar perante a nossa reportagem: “Não sei porque é que o papá fez aquilo, nós ficámos sem nada!”
Para além da destruição da casa, uma carrinha, cuja matrícula nem se conseguia divisar devido à devastação do fogo, conheceu a mesma sorte. Nem a residência da mãe, que há dois meses perdera a vida, escapou à fúria dos populares. Entretanto, Maina e Jaime foram acolhidos em casa dos tios.
 
Processo transferido para Maputo
Na tentativa de sabermos os contornos que o processo toma, as autoridades locais que se comprometeram a colaborar com o nosso jornal, pedindo contudo o anonimato, afirmaram que por razões de segurança o processo foi transferido imediatamente para a Província, após serem ouvidos os familiares directos da vítima (pai, mãe e viúva).
O pai da vítima, Bernardo Cossa, manifestou o seu agrado com o rumo do processo: “Estou satisfeito, pelo menos já nos chamaram por duas vezes, para contarmos como aconteceu, isto mostra que existe alguma vontade por quem de direito para resolver a situação. A única dificuldade é de o processo ter sido transferido para Maputo, nós não temos familiares, será difícil”, lamentou.
Refira-se que actualmente, segundo fontes familiares, Muzondwane encontra-se detido na cadeia civil de Maputo, onde aguarda julgamento.
Líder da “desordem” a contas com a PRM
A polícia da República de Moçambique deteve, na passada quarta-feira, dia 1 do corrente mês, na vila de Magude, Gelasse Khossa, o jovem que alegadamente liderou a revolta popular que culminou com as escaramuças aquando do macabro assassinato de Filipe Khossa.
Segundo fontes policiais, a captura daquele cidadão deveu-se a um trabalho aturado com vista a esclarecer a génese e os principais promotores dos desacatos.
Refira-se que Gelasse Khossa declarou perante as câmaras de televisão, na altura da desordem, que as autoridades administrativas de Magude, receberam gado bovino para proteger o suposto assassino. Aliás, as palavras injuriosas de Gelasse foram extensivas aos membros da PRM afectos ao comando distrital da PRM, em Magude. 
De acordo com fontes bem informadas na PRM, Gelasse Khossa foi transferido, ainda no dia da sua detenção, para a cadeia civil de Maputo onde aguarda pelo despacho de pronúncia.
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