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Khanimambo Steve

É usual perguntarem-nos por que razão um jornal cujo leitor principal vive algures neste nosso imenso Moçambique, muitos deles sem comida, energia eléctrica ou água potável, tem uma secção semanal de Tecnologia. A resposta é simples. Existimos para alimentar o cérebro dos moçambicanos com informação e educação de qualidade, para que possamos pensar de forma diferente e sonhar que podemos mudar Moçambique, e o mundo, para melhor.

Esta semana publicamos um dos mais belos textos escritos a respeito de superação e criatividade, um discurso proferido em 2005 (para um plateia de estudantes da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos) por um homem que vai ser reverenciado daqui a 100 anos, entre outras razões, porque reinventou o mundo com máquinas – o Mac, o iPod, o iPhone e o iPad – Steve Jobs.

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“Sinto-me honrado por estar aqui, na formatura de uma das melhores universidades do mundo. Que a verdade seja dita, eu nunca me formei na universidade. Isto é o mais próximo que eu já estive de uma cerimónia de formatura. Hoje, eu gostaria de contar-vos três histórias da minha vida. E é isso. Nada demais. Apenas três histórias.

A primeira história é sobre ligar os pontos. Eu abandonei a Universidade Reed depois de estudar lá seis meses, mas fiquei por lá mais dezoito meses antes de realmente abandonar a escola. E porque a abandonei? Tudo começou antes de eu nascer. A minha mãe biológica era uma jovem universitária solteira que decidiu dar-me para a adopção.

Ela queria muito que eu fosse adoptado por pessoas com curso superior. Tudo estava preparado para que eu fosse adoptado no nascimento por um advogado e a sua esposa. Mas, quando eu apareci, eles decidiram que queriam uma menina. Então os meus pais, que estavam numa lista de espera, receberam uma ligação telefónica a meio da noite com uma pergunta: ‘Apareceu um garoto. Vocês querem-no?’ Eles responderam: ‘É claro’.

A minha mãe biológica descobriu mais tarde que a minha mãe nunca se tinha formado na faculdade e que o meu pai nunca tinha completado o ensino médio. Ela recusou-se a assinar os papéis da adopção.

Ela só aceitou meses mais tarde quando os meus pais prometeram que algum dia eu iria para a faculdade. Este foi o começo da minha vida. E, 17 anos mais tarde, eu fui para a faculdade. Mas, inocentemente, escolhi uma faculdade que era quase tão cara como esta onde estou. E todas as economias dos meus pais, que eram da classe trabalhadora, estavam a ser usadas para pagar as propinas mensais.

Depois de 6 meses, eu não via valor naquilo. Eu não tinha ideia do que queria fazer na minha vida e muito menos de como a universidade poderia ajudar-me naquela escolha. E lá estava eu a gastar todo o dinheiro que meus pais tinham juntado durante toda a vida. E então decidi largar os estudos e acreditar que tudo ficaria OK. Foi muito assustador naquela época, mas olhando para trás foi uma das melhores decisões que tomei.

No minuto em que parei de estudar, eu pude parar de assistir às aulas obrigatórias que não me interessavam e comecei a frequentar aquelas que pareciam muito mais interessantes. Não foi tudo muito romântico. Eu não tinha um quarto no dormitório e por isso eu dormia no chão do quarto de amigos. Eu recolhia garrafas de Coca- -Cola para ganhar 5 centavos, com os quais eu comprava comida. Eu andava 11 quilómetros todos os domingo à noite para ter uma boa refeição no templo hare-krishna. Eu amava aquilo.

Muito do que descobri naquele época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço. Vou dar um exemplo: a Universidade Reed oferecia naquela época a melhor formação em caligrafia do país. Em todo o campus, cada poster e cada etiqueta de gaveta eram escritas com uma bela letra de mão. Como eu tinha largado o curso e não precisava de frequentar as aulas normais, decidi assistir às aulas de caligrafia. Aprendi sobre fontes com serifa e sem serifa, sobre variar a quantidade de espaço entre diferentes combinações de letras, sobre o que torna uma tipografia boa.

Aquilo era bonito, histórico e artisticamente subtil de tal maneira que a ciência não pode entender. E eu achei aquilo tudo fascinante. Nada daquilo tinha qualquer aplicação prática para a minha vida. Mas 10 anos mais tarde, quando estávamos a criar o primeiro computador Macintosh, tudo voltou. E nós colocámos tudo aquilo no Mac. Foi o primeiro computador com tipografia bonita.

Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado essas aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm.

É claro que era impossível conectar esses factos olhando para a frente quando eu estava na faculdade. Mas aquilo ficou muito, muito claro olhando para trás 10 anos depois. De novo, você não consegue conectar os factos olhando para a frente. Você só os conecta quando olha para trás. Então tem que acreditar que, de alguma forma, eles vão-se conectar no futuro.

Você tem que acreditar em alguma coisa – a sua garra, destino, vida, karma ou o que quer que seja. Porque acreditar que os pontos vão-se ligar num momento vai dar-te a confiança para seguir o teu coração, mesmo que te leve para um caminho diferente do previsto, e isso fará toda a diferença.

A minha segunda história é sobre amor e perda. Eu tive sorte porque descobri bem cedo o que queria fazer na minha vida. Woz e eu começámos a Apple na garagem dos meus pais quando eu tinha 20 anos. Trabalhámos arduamente e, em 10 anos, a Apple transformou-se numa empresa de 2 biliões de dólares com mais de 4 mil empregados.

Um ano antes, tínhamos acabado de lançar a nossa maior criação – o Macintosh – e eu tinha 30 anos. E aí eu fui demitido. Como é possível ser demitido da empresa que você criou? Bem, quando a Apple cresceu, contratámos alguém, que achava que era muito talentoso, para dirigir a companhia. No primeiro ano, tudo deu certo, mas com o tempo as nossas visões de futuro começaram a divergir…

Quando isso aconteceu, o conselho de directores ficou do lado dele. Então, aos 30 anos, eu estava fora. E muito escandalosamente fora. O que tinha sido o foco de toda a minha vida adulta tinha ido embora e isso foi devastador. Fiquei sem saber o que fazer por alguns meses. Senti que tinha decepcionado a geração anterior de empreendedores.

Que tinha deixado cair o bastão no momento em que ele estava a ser passado para mim. Eu encontrei David Packard e Bob Noyce e tentei desculpar-me por ter estragado tudo daquela maneira. Foi um fracasso público e eu até mesmo pensei em deixar o Vale (do Silício). Mas, lentamente, eu comecei a dar conta de que ainda amava o que fazia. As coisas que aconteceram na Apple não mudaram isso em nada. Eu havia sido rejeitado, mas continuava apaixonado.

Foi quando decidi começar de novo. Não vi isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que me podia ter acontecido. O peso de ser bem-sucedido foi substituído pela leveza de ser novamente um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso deu-me liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida.

Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e apaixonei-me por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem-sucedido do mundo. Numa inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do actual renascimento da Apple. E Lorene e eu temos uma família maravilhosa.

Tenho a certeza de que nada disso teria acontecido se eu não tivesse sido demitido da Apple. Foi um remédio horrível, mas eu entendo que o paciente precisava. Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi a minha paixão pelo que fazia. Você tem que descobrir o que o apaixona.

Isso é verdadeiro tanto para o seu trabalho como para com as pessoas que você ama. O seu trabalho vai preencher uma parte grande da sua vida, e a única maneira de ficar realmente satisfeito é fazer o que você acredita ser um óptimo trabalho. E a única maneira de fazer um excelente trabalho é ser apaixonado pelo que você faz. Se você ainda não encontrou o que é, continue à procura. Não sossegue. Assim como todos os assuntos do coração, você saberá quando encontrar. E, como em qualquer grande relacionamento, só fica melhor e melhor à medida que os anos passam. Então continue a procura até você encontrar. Não sossegue.

A minha terceira história é sobre morte. Quando eu tinha 17 anos, li uma frase que era algo assim: ‘Se você viver cada dia como se fosse o último, um dia você certamente vai acertar’. Aquilo impressionou-me, e desde então, nos últimos 33 anos, eu olho para mim mesmo no espelho todas as manhãs e pergunto-me: ‘Se hoje fosse o meu último dia, eu gostaria de fazer o que farei hoje?’ E se a resposta é ‘não’ por muitos dias seguidos, sei que preciso de mudar alguma coisa.

Lembrar que estarei morto em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar grandes decisões. Porque quase tudo – expectativas externas, orgulho, medo de passar vergonha ou falhar – caem diante da morte, deixando apenas o que é apenas importante. Lembrar que você irá morrer, é a melhor maneira que conheço para evitar o pensamento de que se tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir o seu coração.

Há cerca de um ano, foi-me diagnosticado um cancro. Às 7h30 da manhã fiz um exame que mostrou claramente um tumor no meu pâncreas. Eu nem sabia o que era um pâncreas. Os médicos disseram-me que aquilo era certamente um tipo de cancro incurável, e que eu não deveria esperar viver mais de 3 a 6 meses.

O meu médico aconselhou-me a ir para casa e pôr as coisas em ordem – que é a forma de os médicos nos dizerem ‘prepara-te para morrer’. Significa tentar dizer aos seus filhos tudo o que você pensou que teria para lhes dizer nos próximos 10 anos, em apenas poucos meses. Significa ter a certeza de que tudo está no lugar, para que seja o mais fácil possível para a sua família. Significa dizer o seu adeus. Eu vivi com aquele diagnóstico o dia inteiro.

Depois, à tarde, eu fiz uma biopsia, em que eles introduziram um endoscópio pela minha garganta abaixo, através do meu estômago e pelos intestinos. Colocaram uma agulha no meu pâncreas e tiraram algumas células do tumor. Eu estava sedado, mas a minha mulher, que estava lá, contou que quando os médicos viram as células num microscópio, começaram a chorar. Era uma forma muito rara de cancro pancreático que podia ser curada com cirurgia. Eu fui operado e estou bem.

Isso foi o mais perto que eu estive de encarar a morte e eu espero que seja o mais perto que vou ficar pelas próximas décadas. Tendo passado por isso, posso agora dizer a vocês, com um pouco mais de certeza do que quando a morte era um conceito apenas abstracto: ninguém quer morrer. Até mesmo as pessoas que querem ir para o céu não querem morrer para lá chegarem.

Ainda assim, a morte é o destino que todos nós compartilhamos. Ninguém conseguiu escapar. E é assim como deve ser, porque a morte é muito provavelmente a principal invenção da vida. É o agente de mudança da vida. Ela limpa o velho para abrir caminho para o novo. Nesse momento, o novo é você. Mas algum dia, não muito distante, você gradualmente se tornará um velho e será varrido. Desculpa ser tão dramático, mas isso é a verdade. O seu tempo é limitado, então não o gaste a viver a vida de outra pessoa.

Não fique preso pelos dogmas, que é viver com os resultados da vida de outras pessoas. Não deixe que o barulho da opinião dos outros cale a sua própria voz interior. E o mais importante: tenha a coragem de seguir o seu próprio coração e a sua intuição. Eles de alguma maneira já sabem o que você realmente se quer tornar. Tudo o resto é secundário.

Quando eu era pequeno, uma das bíblias da minha geração era o Whole Earth Catalog. Foi criado por um sujeito chamado Stewart Brand em Menlo Park, não muito longe desta Universidade. Ele trouxe-o à vida com o seu toque poético. Isso foi no final dos anos 60, antes dos computadores e dos programas de paginação.

Então tudo era feito com máquinas de escrever, tesouras e câmaras Polaroid. Era como o Google em forma de livro, 35 anos antes de o Google aparecer. Era idealista e cheio de boas ferramentas e óptimas noções. Stewart e a sua equipa publicaram várias edições de The Whole Earth Catalog e, quando ele já tinha cumprido a sua missão, eles lançaram uma edição final. Isso foi em meados de 70 e eu tinha a vossa idade.

Na contracapa havia uma fotografia de uma estrada do interior ensolarada, daquele tipo onde você poderia estar à boleia se fosse aventureiro. Abaixo, estavam as palavras: “Continue com fome, continue louco”. Foi a mensagem de despedida deles. Continue com fome. Continue louco. E eu sempre desejei isso para mim mesmo. E agora, com vocês a graduarem-se e a começarem de novo, eu desejo- vos isso. Continuem com fome. Continuem loucos. Muito obrigado a todos”.

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